Europa, a capitulação permanente
Raramente os discursos sobre a grandeza da Europa, farol democrático abalado pela onda “populista”, foram tão exaltados. E raramente a União Europeia sofreu tantos reveses em matéria diplomática, estratégica e comercial. Mais ligados ao vínculo transatlântico do que ao interesse das populações, os dirigentes do Velho Continente multiplicam as reverências diante de Donald Trump
Thomas Fazi*/Le Monde Diplomatique
A União Europeia foi promovida como um meio de fortalecer o Velho Continente diante das grandes potências, em particular os Estados Unidos. Contudo, no quarto de século que se seguiu ao Tratado de Maastricht, aconteceu o inverso: hoje a Europa encontra-se mais vassala política, econômica e militarmente a Washington e, portanto, mais fraca e menos autônoma. Em matéria de comércio, energia, defesa e política externa, os países europeus têm, nos últimos anos, agido sistematicamente contra os próprios interesses para se alinhar às prioridades estratégicas norte-americanas.
O anúncio, em 27 de julho de 2025, de um acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos segundo o qual os produtos norte-americanos entrarão livremente nos países do bloco, enquanto as exportações europeias para a América pagarão uma tarifa aduaneira fixa de 15%, ilustra isso de forma caricata. A rendição vem acompanhada da promessa de aquisição de 645 bilhões de euros em hidrocarbonetos norte-americanos e de investimentos de outros 515 bilhões de euros nos Estados Unidos. O economista grego Yanis Varoufakis vê nesse acordo a versão europeia do Tratado de Nanquim de 1842.[1] Primeiro de uma série de “tratados desiguais” impostos à China pelas potências ocidentais, ele concedia importantes vantagens ao Reino Unido e marcou o in& iacute;cio do “século da humilhação”. Contudo, “ao contrário da China em 1842, a União Europeia escolheu a humilhação livremente”, em vez de sofrê-la na sequência de uma derrota militar esmagadora, prossegue o ex-ministro das Finanças grego.
As imagens de Ursula von der Leyen deslocando-se ao campo de golfe escocês de Trump, em 27 de julho, para ouvir o presidente norte-americano vociferar contra as turbinas eólicas e depois anunciar medidas comerciais punitivas, contrastam com a recepção espetacular dada pelo republicano a Vladimir Putin em Anchorage algumas semanas depois. Essa cena surpreende ainda mais porque a Europa tinha trunfos sérios para jogar num confronto transatlântico.
Servidão voluntária
No campo diplomático, o Velho Continente oscila entre a relegação e a marginalização. Confinados às antessalas e aos papéis secundários após a “cúpula da paz” entre Trump e Putin no Alasca, os dirigentes europeus veem-se reduzidos a mendigar migalhas de informação e a bajular sem reservas o inquilino da Casa Branca; “se esforçam para não parecer ultrapassados”, zomba o Washington Post (10 ago. 2025), enquanto as negociações tratam do futuro de seu próprio continente. “O melhor paralelo histórico não se encontra na Europa, mas ironicamente nas práticas imperiais que a Europa outrora instaurou em relação às nações mais fracas”, explica o empresário e analista geopolítico francês Arnaud Bertrand.[2] Dois dias depois de Trump ter renunciado ao cessar-fogo como condição prévia às discussões, alinhando-se com a preferência da Rússia por um tratado de paz global, a presidenta da União Europeia fez por sua vez uma mudança de posição. “Quer se chame isso de cessar-fogo ou de acordo de paz, é preciso pôr fim às matanças”, declarou em 17 de agosto, quando até então defendia a posição contrária.
Como no caso do acordo aduaneiro, a própria Europa pavimentou sua via-sacra. Seus representantes seguiram sucessivamente a estratégia norte-americana de desestabilização da Rússia, abraçaram desde 2022 a guerra por procuração da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), minaram suas próprias economias ao privarem-se do gás russo barato e, depois, tentaram sabotar as iniciativas de paz de Trump prometendo apoio financeiro e militar ilimitado a Kiev. Ao fazê-lo, não apenas comprometiam seus interesses econômicos e de segurança fundamentais: ao se alienarem tanto de Moscou como de Washington, excluíram-se de fato de qualquer papel importante nas negociações.
Se os dirigentes da União Europeia costumam justificar sua conduta em nome do vínculo transatlântico, os interesses comuns às duas margens do oceano nem sempre são fáceis de identificar. Pode-se até supor que, ao prolongar a guerra, Washington não ambicionasse apenas enfraquecer ou “sangrar” a Rússia, mas também minar a Europa, rompendo os laços econômicos e estratégicos que o Velho Continente – e, em particular, a Alemanha – mantinha com a Rússia. Esse objetivo foi alcançado de duas maneiras. Primeiro, pela reativação e expansão da Otan, uma instituição controlada pelos Estados Unidos e cuja função principal sempre foi garantir a subordinação estratégica da Europa a Washington. Em segundo lugar, ao aprisioná-la numa dependência de longo prazo das exportações e nergéticas norte-americanas, como ilustra a sabotagem do gasoduto Nord Stream, uma operação levada a cabo ou diretamente pelos Estados Unidos, ou por intermédio de países amigos.[3] O silêncio da Alemanha e das capitais vizinhas sobre o pior atentado industrial da história do continente, a provável cumplicidade norte-americana ao encobri-lo e sua obstinação em impedir qualquer retomada de operação dessa infraestrutura atestam sua servidão voluntária.
Nessa perspectiva, as consequências da guerra na Ucrânia podem ser interpretadas como um triunfo estratégico para Washington, obtido em detrimento de uma União Europeia cuja faixa ocidental, em primeiro lugar a Alemanha, cambaleia entre a estagnação e a recessão. A erosão da base industrial europeia abre caminho para a canibalização econômica do continente pelo capital norte-americano, liderada por gigantes como a BlackRock e outros megafundos. Como escreve o demógrafo francês Emmanuel Todd em La défaite de l’Occident [A derrota do Ocidente]: “À medida que seu poder diminui no mundo, o sistema norte-americano acaba por pesar cada vez mais sobre seus protetorados, que permanecem os últimos bastiões de seu poder”. O acordo aduaneiro entre a União Europeia e os Estados Unidos, cujos alguns aspectos beiram tributos coloniais dis farçados de “investimentos”, desnuda essa realidade.
Tão emblemático dessa subjugação europeia, o grande rearmamento empreendido pela União Europeia traduz-se, em primeiro lugar, pelo compromisso solene de satisfazer a exigência de Trump de que todos os Estados-membros consagrem à Aliança Atlântica não mais 2%, e sim 5% de seu PIB. Apresentado como um passo rumo à “autonomia estratégica”, esse reforço do braço europeu da Otan, longe de significar uma ruptura com a ordem vigente, “tende a consolidar a subordinação estrutural do continente europeu diante da potência norte-americana”, como recentemente escreveram vários intelectuais de destaque da esquerda espanhola.[4]
Há quase dois anos, Bruxelas não levanta a menor reserva à colaboração militar, política, diplomática e econômica de Washington no genocídio em curso em Gaza, e reafirma periodicamente seu apoio a Tel Aviv. Essa posição expõe abertamente o duplo discurso do bloco – o contraste com sua reação à invasão da Ucrânia pela Rússia não poderia ser mais chocante. Ela também destrói o pouco de credibilidade moral que a União Europeia ainda detinha na cena internacional e a isola um pouco mais do resto do mundo. À vista da delegação de chefes de Estado europeus que correram a Washington na segunda-feira, 18 de agosto, para reafirmar seu apoio ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, seria plausível imaginar que eles se apressassem à Casa Branca para defender a causa do povo palestino massacrado e f aminto não por um inimigo estratégico do Ocidente, mas por um de seus aliados, Israel?
Como chegamos a esse ponto? Vários fatores entram, obviamente, em jogo, mas um deles se destaca: a imensa influência que Washington exerce sobre a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, notadamente por meio da rede de instituições transatlânticas tecida nos Estados da Europa Ocidental e, em particular, no cerne dos aparelhos militares e de inteligência. Entretanto, a subordinação do Velho Continente deve-se também ao trabalho incessante de sabotagem levado a cabo em Washington para evitar que a Europa adquira uma força militar independente. Essa abordagem foi reafirmada em 2005 por Robert Kaplan, jornalista influente e intelectual especializado em questões de defesa: “A Otan não pode coexistir com uma força de defesa europeia autônoma. Uma deve prevalecer sobre a outra, e devemos atuar de modo que seja a primeira”.[5]
A hegemonia cultural fornece uma terceira explicação: depois de setenta anos de construção comunitária, a influência do establishment norte-americano sobre o discurso público europeu supera largamente a de qualquer país-membro. O inglês continua a ser a língua franca da União Europeia, e todos os grandes meios de comunicação anglófonos – em sua maioria sediados nos Estados Unidos ou no Reino Unido – manifestam um forte viés atlantista. Por fim, o ecossistema intelectual transatlântico articula-se em torno de think tanks, como o German Marshall Fund, a Comissão Trilateral, o Council on Foreign Relations e o Aspen Institute, todos ligados às agências de inteligência norte-americanas.
Submissão exagerada
Sob a ação combinada desses fatores, a Europa tornou-se praticamente incapaz de pensar – e muito menos de agir – em função de seus próprios interesses. Seus dirigentes interiorizaram tão profundamente sua subordinação que cobrem seu explorador de adulações, como o ex-primeiro-ministro holandês convertido em secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que enviou a Trump uma mensagem de subserviência inédita para preparar a cúpula da Aliança Atlântica em Haia em junho passado, antes de chamá-lo de “daddy”.
Esses elementos, podem objetar, são conhecidos e debatidos há muito tempo, notadamente nos círculos da esquerda europeia. Contudo, outro fator permanece amplamente desconhecido, em particular nesse meio: o papel desempenhado pela própria União Europeia no reforço da subordinação do continente aos Estados Unidos. Ao contrário da ideia dominante de uma Comunidade Econômica Europeia (CEE) concebida desde o início como um contrapeso ao poder norte-americano, a integração europeia foi apoiada e promovida por Washington como um baluarte contra a União Soviética durante a Guerra Fria.[6] Na realidade, o establishment tecnocrático de Bruxelas sempre se alinhou mais estreitamente aos Estados Unidos do que os governos dos Estados-membros. E a crescente centraliza ção do bloco em torno da Comissão Europeia acentua essa tendência. Nos últimos quinze anos, Bruxelas tem se apoiado na sucessão ininterrupta de crises (finanças, dívidas, imigração, terrorismo, segurança, Covid, guerra da Ucrânia etc.) para aumentar de forma radical, mas discreta, suas prerrogativas em domínios anteriormente atribuídos aos governos nacionais. Insensivelmente, o bloco adquire, por intermédio da Comissão Europeia, os atributos de um poder quase soberano e a capacidade de impor suas prioridades sobre as aspirações democráticas das populações.
Assim, Von der Leyen – apelidada de “a presidenta norte-americana da Europa”[7] – aproveitou recentemente a crise ucraniana para promover uma supranacionalização de facto da política externa (embora a Comissão Europeia não tenha competência formal nessa área) em detrimento dos interesses fundamentais da Europa. Todavia, pode-se ao menos falar em “interesses comuns” aos Estados-membros? Trinta e cinco anos após Maastricht, a União Europeia continua dividida segundo linhas de fratura econômicas, diplomáticas e culturais. Em matéria de política externa, essas diferenças se acentuaram desde a integração dos países bálticos e da Europa central, tradicionalmente atlantistas. Um ano antes de sua adesão si multânea à União Europeia e à Otan, em 2004, eles apoiavam a invasão ilegal do Iraque pelos Estados Unidos antes de enviar tropas para lá. Na falta de uma impossível “síntese” de interesses, prevalecem as prioridades dos Estados dominantes e das elites tecnocráticas supranacionais.
A crise da dívida de 2009-2012 mostrou como o quadro rígido da União Europeia, sob domínio alemão, erodia a capacidade das nações de agir conforme suas necessidades econômicas e aspirações democráticas. Isso é ainda mais verdadeiro hoje. Sabe-se que a resposta habitual atribui todo problema ao insuficiente repasse de soberania dos Estados para Bruxelas. Porém, a Europa não sofre de falta de integração, e sim da própria integração. Para escapar de seu “século da humilhação”, é preciso enfrentar e transcender a causa profunda do problema: a União Europeia em si, empenhada num federalismo cada vez mais aprofundado.
*Thomas Fazi é jornalista. Suas análises também estão disponíveis no site www.thomasfazi.com.
[1] Yanis Varoufakis, “Le siècle d’humiliation de l’Europe: Trump a déjoué von der Leyen” [O século da humilhação da Europa: Trump frustrou Von der Leyen], www.unherd.com, 9 ago. 2025.
[2] Arnaud Bertrand, “Not at the table: Europe’s colonial moment” [Fora da mesa: o momento colonial da Europa], www.arnaudbertrand.substack.com, 10 ago. 2025.
[3] Ver Fabian Scheidler, “Nord Stream, trois scénarios pour un attentat” [Nord Stream, três cenários para um atentado], Le Monde Diplomatique, out. 2024.
[4] Héctor Illueca et al., “Salvar a Europa de la Unión Europea”, www.publico.es, 16 jun. 2025.
[5] Robert D. Kaplan, “How we would fight China?” [Como lutaríamos contra a China?], The Atlantic, Washington, jun. 2005.
[6] Ver François Denord e Antoine Schwartz, “Dès les années 1950, un parfum d’oligarchie” [Já nos anos 1950, um perfume de oligarquia], Le Monde Diplomatique, jun. 2009.
[7] Suzanne Lynch e Ilya Gridneff, “Europe’s American president: The paradox of Ursula von der Leyen” [A presidenta norte-americana da Europa: o paradoxo de Ursula von der Leyen], www.politico.eu, 6 out. 2022.
Turbulências na economia global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/turbulencias-na-economia-global.html

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