Memórias revisitadas: frevos que identificam
“Lembro da minha adolescência, na qual, como a maioria dos jovens, não fazia sucesso, não era muito notado. Principalmente pelas moças que eu tanto desejava.”
Abraham. B. Sicsú/Vermelho
Há autores que, às vezes, marcam nossas vidas. Podemos não conhecer bem suas obras, seus trabalhos, mas, uma frase, um verso, podem significar muito.
Manuel Bandeira, o poeta pré-modernista, tem um significado especial em minha vida de leitor. Gosto muito de seus versos livres, de sua maneira de fazer poesia.
Lembro da minha adolescência, na qual, como a maioria dos jovens, não fazia sucesso, não era muito notado. Principalmente pelas moças que eu tanto desejava. A crise da adolescência foi vivida e, não posso negar, sofrida.
Não tinha problema, na minha cabeça e aos poucos amigos, sempre repetia a estrofe:
“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que quero
Na cama que escolherei…”
Um deslumbramento. Ser amigo do rei, ser importante e notado, ter a mulher que desejo, algo quase impossível à época.
Descobri, até, onde era Pasárgada, uma cidade da antiga Pérsia, e o rei associava ao Xá Reza Pahlevi, do hoje Irã, com toda a suntuosidade de sua corte. Ignorava a opressão que existia por lá.
Muitos anos depois, quando vim para o Recife, minha primeira busca foram as ruas do Centro. Conhecia “Evocação do Recife” e queria saber os locais em que o poeta tinha passado parte de sua infância. Lá me encontrei e redescobri a cidade por muitos anos:
“Rua da União,
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás da casa ficava a Rua da Saudade,
Onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora,
Onde se ia pescar escondido”
Degradado centro, hoje, mas ainda se mantém os nomes. E, sempre que posso, vou visitar. Morei lá e tenho carinho especial pela Boa Vista. Sem esquecer o mitológico da Rua das Ninfas ou a tristeza da Rua da Soledade.
Passei bons tempos por lá, no Moscozinho, embaixo do Círcolo Católico, tomando minhas Cuba Libres, esperando Byron para ir ao Dom Pedro na Rua do Imperador. Perto, bem perto, fica também o Parque Treze de Maio, sempre que podia levava meus filhos para verem o mini zoológico.
Andava todos os sábados por lá, revendo lugares que o poeta eternizou.
Dia 21 de fevereiro, um telefonema. Na Rua da União vai ter Bacanal.
Fico preocupado, na minha idade não sei se é politicamente correto. Explicam os amigos à pilheria que fiz, um Bloco de Frevo que sai do Espaço Pasárgada, onde o poeta morou na infância.
Um aparte se faz necessário. O Espaço, que chamam de Museu é uma bela casa, mas, apenas duas salas ocupadas com pôsteres e alguns objetos velhos que poderiam ser muito melhor explicados. Merece muito mais cuidado
Por que chamam o Bloco de Bacanal? A explicação é simples. Chamam porque ele fez uma bela poesia sobre o tema. em 1918:
“Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras…
Se me perguntarem
Que mais queres,
Além de versos e mulheres?
Vinhos, o vinho que é o meu fraco!
Evoé Baco!!…”
Vamos conferir. Quatro da tarde da sexta feira.
Seis ou sete músicos, muito bons, fazem a orquestra. Um grupo, também pequeno, de passistas, à frente, para mostrar a evolução. Endiabrados e muito bem treinados. Pouco a pouco se aproximam os transeuntes. Lá pelas cinco começa o desfile.
As ruas das minhas caminhadas, bem próximas à tradicional Faculdade de Direito, ganham vida, os poucos se tornam muitos, no incorporar das festas momescas.
O desfile não é longo, mas vai para a Rua da Aurora reverenciando a estatua do poeta e trazendo o clima de nostalgia dos velhos carnavais. Momentos de magia, de alegria e descontração.
Lembro dos tempos que cheguei à cidade. Recife sempre teve nos bloquinhos de rua sua tradição carnavalesca. As famílias, os colegas de trabalho, os amigos de bar, os organizavam.
Sempre com humor e picardia. Sempre com momentos de crítica e irreverência. Ainda hoje se encontram esses blocos, mas, cada vez mais, engolidos pelas grandes agremiações, pelos grupos hiper estruturados.
A resistência faz parte, meu Bloco de familiares e amigos, “Chegou o Carnaval”, não passará dos 48 participantes. Maneira de confraternizarmos mais com alegria com aqueles que temos muito afeto e carinho.
A noite foi chegando. Exaustos e felizes vamos ao OGE, boteco às antigas, perto da Assembléia Legislativa. Cervejas para refrescar e um pastelão japonês dividido em seis pedaço como bota gosto. Nunca tinha visto. Uma novidade que gostei. Só lembra ao longe o pastel de feira das minhas priscas eras em São Paulo.
Meu Carnaval inclui os frevos desses bloquinhos e as recordações que me trazem. Como diria Bandeira “Recife bom. Recife brasileiro, como a casa de meu avô”, na Rua da União.
[Ilustração: Di Cavalcanti]
Leia: Carnaval: rebeldia e prazer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html
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