A festa do Galo da Madrugada é minha
(50
Anos de Carraly)
Cláudio Carraly*
No próximo dia 1º de março, quando Recife e Olinda se embriagarem de cores e sons, além da majestade do Galo da Madrugada, eu — que um dia, ainda menino, sonhei em sair fantasiado de Capitão Marvel — completo meio século de existência. São cinquenta anos de uma história escrita nem sempre nos holofotes, mas nos cantos onde os invisíveis tecem a verdadeira resistência e onde revoluções acontecem.
Como um bom pernambucano, aprendi
desde cedo a amar a multidão e seus cheiros e sabores, mas também aprendi a
observar os degredados, perdedores, aqueles de quem ninguém se importa. Percebi
que ali estavam os heróis sem estandarte, as vozes que ecoam nos becos das
nossas ruas históricas na passagem dos blocos de frevos de rua, líricos,
maracatus, sambas e afoxés, como bem disse o grande Chico em "Vai
Passar":
"Palmas pra ala dos barões
famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do Boulevard"
Minha vida até aqui é um mosaico
de papéis: advogado, gestor público, ambos por indicação do partido, mas
gostei, aprendi e surpreendi muito mais que meus pares, mas a mim mesmo; sabia
fazer direitinho as tarefas que me eram propostas. Sou um político meno r, que
preferiu escutar as vozes das praças, os discursos de quem pouco sabia estar
sendo ouvido.
Também atuo como o que poderíamos
chamar de um proto-escritor que transformou decepções em letras, falando dos
temas mais diversos possíveis, sabendo de quase tudo um pouco, mas quase tudo
mal. Alguns poucos leem o que escrevo; lógico que, em minha vaidade, gosta ria
que meus pensamentos tatuados no papel gerassem alguma inquietação e reflexão
em algum incauto, porém, me satisfaço em pôr pra fora essas coisas que estavam
há muitos anos presas dentro da minha cabeça e gritavam para sair.
Aos 14 anos de idade, escolhi o
Partido Comunista Brasileiro – PCB, não por modismo, até porque, naquele
distante ano de 1989, o Partidão já sofria das agruras e consequências da queda
do Muro de Berlim, mas eu me sabia comunista. Aliás, meu pai afirma que s empre
fui. Lembro de um tio conservador que me interpelou um dia: "Acho que você
está sendo influenciado por algum amigo", ao que respondi: "Na
verdade, tio, sou eu quem influencia meus amigos".
Mas os comunistas me deram um
grande presente, e carrego comigo até hoje: um norte para os que navegam mesmo
sem bússola, uma preocupação para além do meu torrão natal. Somos responsáveis
também pelo mundo, e isso me deu uma perspectiva global e um sentimento
profundo de responsabilidade com o conjunto da humanidade.
Formei-me em Direito em 1998, mas
meu diploma virou ferramenta, não um troféu. Nunca cobrei de pessoas físicas
pela minha advocacia, e só o fiz para empresas, mesmo assim, às quais eu tinha
alguma aderência ideológica ou afetiva. Não que meus colegas estejam errados em
cobrar — é o trabalho deles, nada mais justo —, mas era só minha singela forma
de agradecer ao universo pela oportunidade de um garoto crescido na periferia de
Barra de Jangada ter obtido tantas chances, espaços, voz e possibilidade de
ocupar espaços importantes.
Como gestor, descobri que
administrar é como reger uma orquestra: harmonizar o conjunto, diminuir
dissonâncias, valorizar o coletivo e ressaltar os valores individuais de quem
compõe a sinfônica, e algumas vezes, logicamente, pôr feito à ordem. Enfrentei
enchentes ( não é figura de linguagem) que arrastavam sonhos e matavam
esperanças, cuidei da manutenção da vida de adolescentes ameaçados pelo tráfico,
auxiliei ações de assistência social à população mais vulnerável. Tudo isso com
a teimosia de quem sabe que a sombra teme a persistência da luz. Sempre escolhi
a porta estreita. Na hora de optar, minha preferência era pelos mais
desprezados, inquietos, os que desafiavam as regras, os que ninguém mais
queria. Talvez visse neles um pouco de mim.
Mas minha verdadeira alegria não
está nos cargos ocupados ou em uma veloz ascensão partidária. Estavam, na
verdade, nos versos que nasceram de madrugadas insones, nos telefones que
tocaram quando mais precisava, nos convites feitos de tanta gente boa quando eu
mais precisava, no apoio cotidiano de tantos que, nos momentos de dificuldades,
se punham à disposição.
Minha felicidade, na verdade, é
bem simples, ela mora nas arquibancadas do Estádio dos Aflitos, onde aprendi o
que é esperança, compreender o que é fé, mesmo quando o placar insiste em
mentir pra a gente. Mas, principalmente, na força do apoio incondiciona l da
minha família, onde aprendi que não existe medida para o amor. Meu chão e meu
céu estão em perfeita harmonia quando estou ali com eles.
Houve também muitas agruras,
noites em que parecia que queriam me apagar, que nada fazia sentido,
deixando-me envolver em intrigas, meias-verdades, pelejas palacianas, em um
jogo torto cujas regras eu não conhecia e que nunca quis aprender a jogar.
Nessas horas sombrias, era amparado pelo p equeno Claudinho, que me lembrava do
meu herói favorito da infância, então eu usava uma palavra mágica, gritando-a a
plenos pulmões... Shazam! E tudo ficava bem.
Chegar aos 50 num sábado de
Carnaval não é coincidência: na verdade é uma bela metáfora. No espelho, o
rosto que vejo agora não é o que conhecia; vejo uma cara talhada por batalhas e
tempo, mas meus olhos ainda se iluminam com um "e por que n&at
ilde;o?". Reconheço em mim várias das pessoas que fui, nas várias etapas
da vida: o adolescente que colecionava histórias em quadrinhos e lutava por
justiça social, o gestor que enterrou a vaidade pelo serviço às pessoas, o
homem que sabe que o jogo mais bonito é aquele que se joga de coração aberto,
mesmo sem plateia na arquibancada ou nenhum reconhecimento.
As derrotas momentâneas podem ser
ensaios para uma revanche no futuro, e quando não há essa revanche, ou a
derrota se repete, é aceitar seu fracasso e seguir, simples assim. Afinal, a
existência é complexa, e, na maioria das vezes, vamos cair e cair novamente.
Assi m, dedico este texto a várias pessoas que compartilharam esta dança comigo
e dividiram tantos êxitos e os fracassos com a mesma altivez. Mas antes que
ressoem os clarins, deixo meus profundos agradecimentos:
À minha família, que transformou
um sonhador em gente.
Aos mestres, que me ensinaram que poder é efêmero, mas servir é eterno.
Aos alunos rebeldes, que viraram meus professores mesmo sem saber.
Aos companheiros de utopias e copos, irmãos de causas impossíveis.
Aos invisibilizados, que mostraram que heroísmo mesmo é suportar o dia a dia.
E a todos que duvidaram, vocês abasteceram o combustível da minha teimosia e
inflaram o dirigível dos meus mais profundos sonhos.
Meu futuro? Não tenho ideia! Mas
devo continuar nas trincheiras do improvável, talvez escrevendo, às vezes
governando, mas sempre e sempre, torcendo. E quando chegar o dia em que o frevo
parar de tocar em mim, saibam que estarei ali, na margem da rua, agora também
invisí ;vel, seguindo o “Nem Sempre Lily Toca Flauta” cantando a boa vida que
levei. Sabendo-me feliz, amante do Carnaval, mas, principalmente, e por mais
simplório que pareça, orgulhoso do cara que não negava seu sorriso pra ninguém.
Enquanto existir música, poesia e possibilidade de sonhar, seguirei feliz. E
quanto a mim neste momento? Tou me guardando pra quando o carnaval chegar.
Sendo assim, EVOÉ, camaradas!
*Cláudio
Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.
Leia: Carnaval: rebeldia e prazer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário