11 julho 2026

Algoritmos alienantes

Da máquina do mundo à máquina de tudo
A conversão do intelecto humano em algoritmo transforma o patrimônio criativo da espécie em insumo para uma engrenagem extrativista global
Jaldes Meneses*/A Terra é Redonda    

1.

Não há dúvida sobre o potencial disruptivo da inteligência artificial na substituição do trabalho, com o consequente desaparecimento de uma imensa quantidade de empregos (afinal, estamos no capitalismo), bem como na sucção das habilidades criativas – fenômeno que se assemelha à categoria marxiana do “intelecto geral”, prevista no célebre “Fragmento sobre as Máquinas” dos Grundrisse (Marx, p. 589).

Porém, o escopo da inteligência artificial é exponencialmente mais largo que o previsto por Karl Marx. É quase cosmológico, quando se trata de fazer a mímesis do trabalho. É poiesis e labor, recordando a distinção do trabalho no mundo antigo, segundo a distinção discernida por Hannah Arendt em A condição humana: a “máquina de tudo” da inteligência artificial succiona tanto o rotineiro quanto o criativo, as objetivações ontológicas do trabalho e de todas as demais atividades criativas – que György Lukács, em sua Ontologia do ser social, chamava de “complexos sociais” e que não devem ser tratados como meras derivações do trabalho, pois possuem legalidade própria e irredutível.

Assim, a mímesis da inteligência artificial ultrapassa a velha fábrica, converte em (nano)décimos de segundos o tempo das atividades que antes exigiam lento processamento humano e, principalmente, captura todo rastro deixado pela nossa espécie – na arte pictórica, no desenho industrial, nos estilos da poesia e da música, em tudo o que houver registro ou vestígio.

Gilberto Gil, em canção profética, já versava sobre a atividade dos samples dos DJs e o futuro da música como “máquina de ritmo” – “máquina de ritmo/tão prática, tão fácil de ligar”. Vou além: a inteligência artificial, com seu imenso poder extrativista de dados, é a nossa “máquina de tudo”, aproximando-se, no plano algorítmico, daquilo que Marx designava, no âmbito do trabalho do ser social, como a atividade de sucção do saber-fazer operário das manufaturas simples.

Mas essa “máquina de tudo” já havia sido antevista pela poesia. Carlos Drummond de Andrade, no poema A máquina do mundo (1951), descreve um viajante que, perdido e cansado, encontra subitamente uma máquina perfeita, que contém todos os ciclos da natureza, todas as formas, todas as respostas – uma totalidade pronta, deslumbrante, autossuficiente. O viajante, porém, recusa-a. Não porque a máquina fosse enganosa ou falsa, mas porque era completa demais: nela, escreve Carlos Drummond, as coisas tornavam-se “apenas coisas”, despidas do tempo, do acaso, do espanto que só o caminho inacabado pode oferecer. 

2.

Hoje, a inteligência artificial generativa seria, na ideologia celebratória dos donos desses meios de produção, essa máquina realizada: contém todo rastro humano, todo estilo, toda frase já dita. Como a máquina drummondiana, ela se oferece como totalidade pronta – e, ao fazê-lo, torna desnecessário o gesto, a demora, o erro, a descoberta tardia.

Uma máquina de inteligência artificial pode tornar-se filósofa existencialista, desde que dados os comandos certos. Mas não passará pela dor e pela delícia de ter chegado aleatoriamente ao existencialismo – porque lhe falta o corpo, a finitude, a jornada. O viajante de Carlos Drummond, ao recusar a máquina, escolhe exatamente isso: o mundo por fazer em vez do mundo já feito. Perder o cosmos, no contexto da inteligência artificial extrativista, talvez signifique exatamente isto: aceitar a totalidade pronta em vez de seguir a pé, no mundo imperfeito e inacabado – ainda que feio, ainda que por fazer –, em busca do que ainda não tem nome.

Existe, pois, o umbral da “condição humana”, lembrando o título do romance de André Malraux (1998), isto é, sua natureza social, forjada na inteligência orgânica, na consciência e na autonomia desses atributos no próprio processo de socialização. Parafraseando Miguel Nicolelis (2020), a inteligência artificial não é inteligência porque é “artificial” – e, poderíamos aduzir, toda inteligência, sendo humana, não se reduz a uma “máquina de tudo”.

Como Noam Chomsky (2015) nos ensina, a nossa “gramática gerativa”, oriunda da extrema particularidade da natureza humana, é uma espécie de “dádiva” da evolução, irredutível a qualquer circuito ou algoritmo. A metáfora que compara o homem à ideia de um animal-máquina vem do nosso ínclito René Descartes, na Quinta Parte do Discurso do Método, e foi estendida como Homem-máquina por Julien Offray de La Mettrie, na aurora da modernidade.

Contudo, a comparação inversa, que antevê a morte do Homo sapiens e reduz o tempo histórico humano à teleologia de mero processador de dados para a nova anti-humanidade do Homo Deus (2016) – título do best-seller propagandista de Yuval Noah Harari) – uma eternidade que será eterna apenas até quando durar – parece ser um dos mais altissonantes marcadores do fim – desta feita, cibernético – da história.

*Jaldes Meneses é professor titular do Departamento de História da UFPB.

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991.

CHOMSKY, Noam. Estruturas sintáticas. São Paulo: Vozes, 2015.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Abril Cultural, 1973. DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. A máquina do mundo. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 301. [Originalmente publicado em Claro Enigma, 1951]

GIL, Gilberto. Máquina de ritmo. In: Quanta. [Canção]. 1997.

HARARI, Yuval Noah. Homo Deus – uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

HUI, Yuk. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu, 2020.

LA METTRIE, Julien Offray de. L’Homme-Machine. Paris: Editora Garnier, 2023.

LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2018.

MALRAUX, André. A condição humana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.

NICOLELIS, Miguel“IA não é nem inteligente nem artificial, afirma Miguel Nicolelis”. IHU Unisinos, 2020. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/663488-ia-nao-e-nem-inteligente-nem-artificial-afirma-miguel-nicolelis.

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Leia também: O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html

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