Utilitarismo
corrói a Sociedade
Abraham B. Sicsu
Não fico surpreso, é comum
encontrar quem assim pensa, é triste constatar diretamente, escutar em alta
voz. No meio intelectual e acadêmico proliferar é uma contradição. Infelizmente
há quem acredite nisso e não se envergonham mais de dizer. As críticas ao
funcionalismo público e, principalmente, à Universidade Pública, são
constantes.
Um dos pontos mais abordados
é a lógica das prioridades nos gastos governamentais. A priorização que se dá
ao pagamento de salários do funcionalismo, o qual não pode atrasar, é ponto que
não é aceito pelos que acreditam que o Estado deve estar a serviço dos
interesses empresariais.
Dizem, “tudo pode ser
postergado em termos de gastos públicos menos os salários do
funcionalismo”. Com isso, a sociedade,
na opinião deles, perde, pois se adiam investimentos que podem gerar emprego e
renda. Podem ser mais importantes.
Acho estranho que possa ser
questionado o pagamento mensal que dá um mínimo de estabilidade financeira a
uma classe tão sacrificada. Classe que muitas vezes tem dificuldades de
sobrevivência e de manter os seus.
Se questionassem o
funcionalismo que tem privilégios, ou mesmo, aqueles apaniguados de alguns
governos, até poderia admitir, mas, questionar um direito que é básico para
todo trabalhador, fundamental para a sobrevivência dos que trabalham e suas
família, um contrassenso.
Ligando a isso, no caso das
Universidades, fazem uma dura crítica aos profissionais que têm Dedicação
Exclusiva. Deveria ser eliminada, assim pensam. Na opinião deles, boa parte não
faz jus e não se dedicam às suas atividades. Defendem que deveriam ser
remunerados pelo que produzissem, pelo que efetivamente entregassem à
sociedade, ou melhor, a quem é detentor do direcionamento da dinâmica
econômica.
Como em toda profissão, há
aqueles que a desonram, não nego. Mas tirar as bases mínimas necessárias para o
desenvolvimento do ensino, pesquisa e extensão jamais será a solução. Criar um
sistema mais eficiente de avaliação e mesmo de controles mais efetivos podem
dar resultados eficientes e evitar distorções dos maus profissionais.
A partir dessa afirmação
deixam evidente que têm em mente que os pesquisadores e professores
universitários deveriam estar a serviço do setor produtivo, deveriam ser pagos
conforme os recursos que gerassem para as empresas. Serem instrumentos de
ajudar a lucratividade e o fortalecimento do desenvolvimento capitalista.
Não entendem que a
Universidade é a única instituição que pode gerar conhecimento sem atrelamento
a interesses imediatos e onde se pode questionar a sociedade em que se vive sem
necessariamente estar a serviço do imediatismo que direciona as lógicas de
poder, inclusive econômico. Que pode ser o espaço de construir o futuro e seus
caminhos, de debatê-los e mesmo de contrariar interesses dominantes. Onde se tem
direito a discordar e fundamentar visões alternativas.
Ainda, perdem a noção do que
é a Universidade, da multiplicidade de áreas, da importância de construir a
cidadania, de formar as elites pensantes de um povo, de mostrar valores
fundamentais que não são percebidos no dia a dia da frenética busca por lucro e
poder.
A lógica dos críticos
tresloucados se prende a uma concepção em que o tecnológico e o econômico
deveriam ter primazia e o enfoque a ser dado institucionalmente ligado aos
retornos de curto prazo.
Essa visão pode destruir a
base social e moral da nação, seu utilitarismo leva a que se enfraqueça a
cidadania, a que se percam valores que são definidores de uma ética norteadora
para uma sociedade um pouco mais sadia e justa.
Para angariar simpatia dos
estudantes procuram mostrar que os que se engajam nessa visão da tal
lucratividade terão garantia de empregabilidade e, portanto, devem-se
menosprezar áreas que não estão nessa lógica inseridas. Discurso que pode até
ser percebido em períodos de crescimento econômico.
Esquecem que a economia é
cíclica, que nos períodos de crescimento há aumento da demanda e de emprego.
Mas, há também períodos de recessão. Nesses, uma grande parte dos trabalhadores
têm seus salários aviltados e um nível de desemprego crescente é observado.
Basta ver o nível alarmante de desemprego que tivemos no período de 2016 a
2022, onde, mesmo os profissionais mais qualificados da área tecnológica
tiveram dificuldades de inserção no mercado de trabalho
Essa fala me fez lembrar um
rico empresário brasileiro. Financiou muitas missões de formadores de opinião e
de políticos para os Estados Unidos da América. O objetivo era tentar provar
que nosso Sistema Educacional estava errado. Segundo seu pensamento, deveria
ser dada maior ênfase aos conteúdos às Línguas Estrangeiras, Matemáticas e
Matérias Específicas de Caráter Operacional e, se possível, eliminar essas
“bobagens” de Filosofia, Sociologia, História, entre outros.
Visões como essas, em que a
Cultura Geral é menosprezada, em que o norte é dado principalmente pelo retorno
econômico, diminuem o senso crítico, apequenam a cidadania, embrutecem a
sociedade, destroem as bases de uma nação que possa definir seus rumos de uma
maneira autônoma e soberana.
Infelizmente, esses
pensamentos proliferam sendo à base do obscurantismo mais profundo. O
imediatismo utilitário tem aceitação crescente e é entusiasticamente defendido
por segmentos conservadores da sociedade. Pior, fundamenta um projeto que vem
se consolidando politicamente e surge como proposta de planos atuais para os
próximos anos dos extremados de pensamento de direita.
Não é coincidência ver
proporem a retirada das Universidades da esfera da educação para levá-las para
o que chamam de inovação, ou seja, para o simples retorno econômico financeiro
como parâmetro.
Luciana Santos: "Infovias: Ciência e Tecnologia a serviço da inclusão e da soberania nacional" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-luciana.html

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