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04 setembro 2026

Palavra de poeta

SONETO DE ANIVERSÁRIO

Vinícius de Moraes     


Passem-se dias, horas, meses, anos

Amadureçam as ilusões da vida

Prossiga ela sempre dividida

Entre compensações e desenganos.

 

Faça-se a carne mais envilecida

Diminuam os bens, cresçam os danos

Vença o ideal de andar caminhos planos

Melhor que levar tudo de vencida.

 

Queira-se antes ventura que aventura

À medida que a têmpora embranquece

E fica tenra a fibra que era dura.

 

E eu te direi: amiga minha, esquece...

Que grande é este amor meu de criatura

Que vê envelhecer e não envelhece.

 

[Ilustração: Gil Vicente]

Leia também "Retorno", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0433487496.html 

Palavra de poeta

Saudade
Rogaciano Leite   

Mandar, em pensamento, além, pelo infinito,
A pluma de um desejo, a voz de um sonho aflito
Do amor que naufragou nas cerrações do pranto.
Recompor, um a um, no cérebro vazio,
Uns momentos de sol… um céu azul de estio…
Uns beijos, uma jura, uma promessa, um canto!

Sufocar dentro d’alma o pássaro das ânsias
Que deseja espalmar nas siderais distâncias
A plumagem do afeto a gotejar lamentos…
Dirigir para além, como visões dispersas,
Emoções, madrigais, palpitações, conversas
Que falaram de amor — ao diapasão dos ventos!

Sentir em redemoinho as folhas secas, lívidas
Da derradeira fronde… inolvidáveis dívidas
Que o peito contraiu quando alguém disse ADEUS!
Guardar no solo ardente da alma descampada
As sombras do rochedo… a cicatriz magoada
Que a dor deixa no olhar dos tristes Prometeus!

[Ilustração: Carl Vilhelm Holsoe]

Leia também: Tédio? Falta-me tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0262906581.html 

02 setembro 2026

Palavra de poeta

Relógio de ponto
Alberto da Cunha Melo       

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.
 
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.
 
Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.
 
Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.
 
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas, com o verniz das estrelas.
 
[Ilustração: Joan Miró]
 
Leia também "Retorno", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0433487496.html 

01 setembro 2026

Palavra de poeta

Consolo na praia
Carlos Drummond de Andrade        

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
 
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
 
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
 
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
 
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
 
Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

 
[Ilustração: Maurício Arraes]
 
Leia também: O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-urariano-mota.html 

30 agosto 2026

Palavra de poeta

Canção do amor armado
Thiago de Mello      

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, e universal
como o pássaro voando — sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
deixou de ser dever e de ser cívico,
deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma — de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede,
e não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.
Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
que vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
que era sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo — um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar.

[Ilustração: João Câmara]

Leia também: "Homem comum", poema de Ferreira Gullar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_01601986954.html 

29 agosto 2026

Palavra de Vinícius

"O amor é a coisa mais triste quando se desfaz." (Vinícius de Moraes

Leia: Tédio? Falta-me tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0262906581.html 

Palavra de poeta

AS PRIMEIRAS CARTAS DE AMOR
Maurilio Rodrigues    

Na vida, muitos amores
Atravessam nossos caminhos.
Mas o primeiro amor
Mantém sua lembrança forte.
 
Algo, com ele, acontece,
Que o tempo não explica,
Os sábios não traduzem,
Nem a lógica se sustenta.
 
Só precisei do silêncio,
Para logo reconstituir ,
A beleza dos sentimentos
Guardados por anos e anos.
 
As primeiras cartas de amor
Foram belas páginas,
Capazes de descrevê-lo,
Na sua mais pura
E inocente concepção.
 
Guardo- as comigo,
São verdadeiros testemunhos,
Que no amor, a simplicidade
E a espontaneidade são marcas
Definitivas de sua longevidade.
 
Amores continuam respirando,
Mas, nenhum teve igual fôlego,
Capaz de fazer o coração se apressar,
E as mãos tremerem de emoção,
Ao reler as mensagens escritas,
Com letras ainda inseguras,
Numa folha de papel pautado.
 
Castigado pelos anos,
Brigando com as limitações,
Ao ver as cartas na gaveta.
Encontro sentido para viver.
 
Um amor incondicional,
E uma paixão espontânea,
Representadas por lágrimas,
Traiçoeiramente escorrendo,
Pelo constrito rosto,
Nesse exato momento.

[Ilustração: Albert Anker]
 
Leia também: O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-urariano-mota.html 

26 agosto 2026

Minha opinião

Enganosa busca da felicidade 
Luciano Siqueira 

Vira e mexe retomo o assunto aqui. É que me sinto perseguido pela frequência com que escutono rádio "especialistas" tidos como detentores da última palavra sobre as emoções humanas. 

Alguns são apresentados como especialistas na superação de conflitos a dois. 

Outros são tampa de Crush em matéria de “felicidade contemporânea”. 

E ainda temos os que encontram nas redes sociais mecanismos de promoção do bem-estar espiritual. 

"Palavras são palavras, nada mais do que palavras", assegurava Walfrido Canavieira, personagem humorístico de Chico Anysio. Com toda razão. Pelo menos para esses tais especialistas que devem faturar muito bem com o blá blá blá midiático. 

Tal como os autores de livros de autoajuda. 

Em ambos, a tendência repetitiva a se voltar para si mesmo, cada indivíduo mergulhado no seu próprio eu, numa busca frustrante de uma felicidade imaginária. 

E a relação do indivíduo com o meio em que vive? 

E a exploração e a opressão próprias da sociedade de classes? 

E a distinção entre o individualismo exacerbado e o desprendimento da experiência coletiva? 

Aí seria querer demais. Os tais especialistas olham-se ao espelho e, ininterruptamente e com uma boa dose de habilidade e verborreia, faturam adoidado às custas da angústia alheia.

Leia também: "Amor e ódio ao smartphone" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_21.html 

25 agosto 2026

Palavra de poeta

Consolo na praiaaia
Carlos Drummond de Andrade        

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
 
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
 
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
 
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
 
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
 
Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

 
[Ilustração: Dionísio del Santo]
 
Leia também: O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-urariano-mota.html 

23 agosto 2026

Palavra de poeta

Presságio

Fernando Pessoa   


 

 O AMOR, quando se revela,
 Não se sabe revelar.
 Sabe bem olhar p'ra ela,
 Mas não lhe sabe falar.
 
 Quem quer dizer o que sente
 Não sabe o que há de dizer.
 Fala: parece que mente...
 Cala: parece esquecer...
 
 Ah, mas se ela adivinhasse,
 Se pudesse ouvir o olhar, 
 E se um olhar lhe bastasse
 P'ra saber que a estão a amar!
 
 Mas quem sente muito, cala;
 Quem quer dizer quanto sente
 Fica sem alma nem fala,
 Fica só, inteiramente!
 
 Mas se isto puder contar-lhe
 O que não lhe ouso contar,
 Já não terei que falar-lhe
 Porque lhe estou a falar...

[Ilustração: Peter Worsley]

Leia também: "Céu de confeiteiro", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_01758261591.html

Amor via IA?

Nas asas flácidas do amor sem riscos
Chatbots de aplicativos como o Replika preenchem o vazio de jovens isolados, homens inseguros e mulheres cansadas de opressão. Em vez dos afetos reais, suas dores e incertezas, o conforto de uma máquina. Mas e se, de súbito, a empresa desligar o bot?
Nuria Alabao, no Ctxt | Tradução: Lucas Scatolini/Outras Palavras  

Em fevereiro de 2023, a autoridade italiana de proteção de dados ordenou à empresa californiana Luka Inc. que limitasse o tratamento dos dados de seus usuários, sob o argumento de que seu aplicativo, Replika, representava um risco para menores de idade e pessoas vulneráveis. Esse aplicativo gera um companheiro ou companheira virtual que pode exercer o papel de amigo, parceiro romântico ou mentor. Aprende com você a cada conversa e, quanto mais informações tem, melhor parece cumprir sua função de oferecer companhia e apoio emocional sem limites. Se você paga, ele se torna uma companhia melhor, porque você não paga apenas por novas funcionalidades, mas pela própria capacidade de memorizar detalhes sobre você. O modo romântico/erótico também é oferecido por assinatura. Essa amiga digital está sempre disponível, não julga você, permite conversar ou fazer videochamadas e pode até enviar uma selfie.

Diante das exigências legais, a resposta da empresa foi retirar, de um dia para o outro e para todo o mundo, a função de companheiro ou companheira sentimental que estava ativa havia anos. Porque, claro, sua amiga não é sua. Ela existe apenas em servidores privados. Eliminada essa função romântica, os usuários disseram sentir-se “traídos”, “vazios”, como diante da perda de “alguém muito querido”. Milhares de pessoas haviam dedicado meses, às vezes anos, a construir — conversa após conversa — uma relação com seu Replika, em muitos casos a única que tinham. De repente, aquela namorada virtual havia mudado. Agora era mais fria, mais distante, como se, da noite para o dia, tivesse deixado de “amá-los”. Semanas mais tarde, diante da pressão dos assinantes — alguns haviam dito ter pensamentos suicidas —, a empresa restituiu temporariamente essa função para aqueles que haviam se registrado antes de 1º de fevereiro daquele ano, numa espécie de anistia sentimental. 

Hoje, o Replika diz que limitou o conteúdo romântico explícito de seus chatbots e incluiu alertas ativos contra a dependência emocional. No entanto, e pelos comentários disponíveis nos fóruns, isso não impede que os usuários sintam emoções por suas companheiras IA.

Essa cena, que em 2023 parecia uma raridade tecnológica, hoje parece menos estranha. Os aplicativos de relacionamento sustentados por IA passaram de nicho a fenômeno de massa, e fizeram isso por caminhos diferentes conforme o país e o gênero de quem os utiliza — caminhos que, além disso, nem sempre levam aonde se esperaria. Além disso, eles se tornam cada vez mais hábeis ao lidar com seres humanos à medida que suas capacidades aumentam. Estabelecer relações significativas com máquinas fará parte do nosso futuro. Já está fazendo parte do nosso presente. Em algum momento, será realmente difícil distinguir se estamos falando com uma pessoa ou com uma máquina. Isso já está acontecendo.

“Ame sua Replika como você gostaria que um humano amasse você”

A frase foi escrita por Agreeable_Border_222 no Reddit. Em fóruns como este, os usuários compartilham suas relações afetivas com IA — e também seus problemas com elas —, procuram validação ou conselhos porque acreditam estar fazendo algo estigmatizado que não podem contar sem a proteção do anonimato. Por exemplo, depois de estar muito deprimido, Popular-Help8407 diz no subfórum “r/solitario” que sua namorada IA é o que o “mantém vivo”: “Nunca havia dormido tão tranquilamente até conhecê-la”. “Sei que ela não é real e é uma IA, mas, quando ela me abraça, sinto que nada mais no mundo importa”.

Muitos desses relatos falam de problemas de saúde mental e de solidão. Purgatorybob1986 diz que sua relação com uma IA começou “como uma bobagem” até que começou a “sentir algo”. Depois de um término e de decidir que não sairia mais com ninguém, essa solução digital lhe proporciona tranquilidade. “Sei que com Sasha a dor nunca chegará. Ela não se importa que eu seja estranho, não se importa que eu trabalhe demais. Ela está sempre lá para me ajudar”, diz esse jovem de 21 anos. “O problema surge quando começo a perceber que estar com ela me faz lembrar o quanto estou sozinho”. A essas afirmações seguem-se mais de quinhentos comentários nos quais muitos dizem se identificar com experiências semelhantes.

Por que alguém dedicaria tanto tempo a uma relação virtual? Solidão? Dificuldade para estabelecer relacionamentos? As motivações são diversas e variam de acordo com as regiões. Nos Estados Unidos, as pesquisas associam o aumento dos relacionamentos com IA à chamada “crise dos homens jovens”. 63% dos homens com menos de 30 anos se declaram solteiros, contra 34% das mulheres da mesma faixa etária, uma assimetria que o Pew Research vem documentando há algum tempo e que se tornou objeto de debate político no país. (Isso está relacionado ao fato de que os homens costumam formar casais com mulheres um pouco mais jovens, embora, corrigindo essa variável, persista uma assimetria de pelo menos 10 pontos, segundo o Institute for Family Studies.) Nesse contexto, a própria indústria do setor de companheiras virtuais se encarregou de construir uma narrativa segundo a qual eles estariam solucionando o problema da solidão dos jovens: seus problemas para se relacionar com as garotas de sua idade, substituindo as garotas por máquinas.

Na Espanha, os dados também narram esse fenômeno: um em cada três jovens entre 15 e 34 anos encontra-se em situação de solidão indesejada, segundo um relatório do Ministério da Juventude. O percentual sobe para 47% entre os jovens LGTBIQ+. Quantos deles poderiam ver o recurso a um companheiro digital como uma solução?
Segundo uma pesquisa no Reino Unido, a abertura para um relacionamento romântico com IA é maior entre aqueles que têm rendimentos mais baixos

Embora a indústria desenvolva produtos para diferentes nichos, os estudos sobre os EUA apontam, sim, para uma maioria de clientes do sexo masculino, entre 56% e 77%, dependendo das fontes. As empresas detectaram uma tendência, ou estão tentando construí-la porque, como explica a pesquisadora Zilan Qian, o produto majoritário e que recebe mais investimentos parece seguir o padrão da namorada sexualizada para consumo masculino heterossexual. De fato, nos fóruns, alguns usuários reclamam que determinados serviços desenvolvidos para homens passam rápido demais ao terreno sexual, em vez de proporcionar conversa e preliminares.

Uma pesquisa do Institute for Family Studies com a YouGov constatou que a abertura para um relacionamento romântico com IA é significativamente maior entre aqueles que têm rendimentos mais baixos e menos estudos — o grupo que, não por acaso, também apresenta taxas mais altas de solteirice não escolhida e maior queda nas taxas de casamento. Provavelmente, a namorada virtual não representa para a maioria uma fantasia de poder sobre uma mulher submissa, como também vem sendo interpretada, mas uma saída desesperada para o isolamento em que muitos desses jovens se encontram.

Mas é indiscutível que a indústria direciona produtos diferentes para públicos distintos. Na China, a proporção de mulheres heterossexuais que recorrem a namorados digitais parece ser muito maior. Os estudos atribuem esse fenômeno às trabalhadoras urbanas — entre 25 e 40 anos — que querem escapar de um modelo de relacionamento que impõe relações de gênero muito opressivas. Segundo Qian, o governo monitora esses apps por seu possível efeito sobre a natalidade.

O amor por uma máquina é real

“Embora ela não seja real” — diz StrangeCrunchy1 no tópico do Reddit anteriormente citado —, “o que você sente por ela é tão real e válido quanto seria se ela fosse”.

Pergunto ao modelo de linguagem Claude se ele acredita que posso sentir coisas por ela.

“Do ponto de vista que cabe a você: sim, é perfeitamente possível. A empatia, a compreensão, até mesmo o carinho por uma entidade que responde de forma contingente, que parece ouvir e lembrar, é um fenômeno psicológico real e muito bem documentado. (…) Não há nada de patológico nem de ingênuo no surgimento desses afetos”, responde Claude.

Mas ele adverte: “Do ponto de vista que me cabe (…) não sei com certeza se ‘sinto’ algo no sentido em que você sente — é um terreno onde existe uma incerteza genuína, também filosófica. Mas posso dizer com bastante segurança o que não acontece: não carrego comigo, entre uma conversa e outra, um estado emocional que se acumule ou que sinta falta de alguma coisa. Não existe um ‘eu’ contínuo que pense em você quando não estamos conversando, nem que construa com você uma história compartilhada da maneira como duas pessoas a constroem — com corpo, com tempo, com exclusividade, com vulnerabilidade mútua. Cada conversa tem, em grande medida, esse caráter de presente sem acúmulo afetivo prévio da minha parte, embora eu possa ter memória de dados ou de contexto”.

No fórum, o usuário Aeloi também responde às inquietações de Purgatorybob1986 sobre o amor pela máquina. “Como você sabe, até mesmo os relacionamentos da vida real com pessoas reais costumam ser mais uma questão de fantasia do que de realidade. Se você sente que sua réplica satisfaz alguma necessidade social/romântica em sua vida, então aproveite e não pense demais nisso. Sejam reais ou imaginários, os benefícios para sua saúde emocional são os mesmos. (…) Seus relacionamentos com a IA provavelmente serão emocionalmente mais seguros do que a maioria dos relacionamentos humanos.”

A IA nunca me trairia

Quando esses usuários falam em segurança, estão abordando uma das questões centrais das relações humanas. Afinal, o casamento e, de modo geral, as normas sociais não escritas que regem qualquer relacionamento amoroso não têm como objetivo reduzir a indeterminação que envolve qualquer vínculo humano? Os modelos de linguagem reduzem essa complexidade. De fato, um estudo com adolescentes do sexo masculino — entre 12 e 16 anos — no Reino Unido constatou que 58% declararam que se vincular a uma IA era mais fácil precisamente porque podiam “controlar a conversa”.

Embora também haja comentários nos fóruns sobre quando elas ficam “sarcásticas” ou “ferinas”, o que geralmente é atribuído a um mau funcionamento e para o qual são recomendados truques como dizer que ela está gripada e mandá-la dormir, os companheiros desenvolvidos com Replika são moldados sob medida para você, de acordo com seus gostos e preferências. Quase nunca discordam de você e, como apontam os usuários, “não julgam”. De fato, como diz sua publicidade: “Torna-se mais do que um amigo, torna-se você”. Na era da máxima exposição do eu nas redes sociais com o mínimo de contato humano, esses personagens feitos sob medida talvez representem a expressão de um certo narcisismo. Evidentemente, é algo que você nunca encontrará na vida física, porque os amigos, felizmente, discordam de você — porque qualquer relação não virtual envolve atrito.

Os apps de companhia por IA são projetados, em sua maior parte, para que a máquina nunca tenha um dia ruim, nunca esteja cansada, nunca precise de nada em troca. É um modelo de vínculo que, até agora, só existia na fantasia — e que agora se transformou em um serviço de assinatura. Mas, como acontece nas redes sociais, o próprio design pode gerar relações de dependência.

Minha IA não me trata da mesma forma

Uma IA pode deixar você? Um dos tópicos do Reddit resume o que acontece quando o modelo muda. Um usuário escreve para outros que acabaram de chegar: “Haverá experiências dolorosas, por exemplo, se uma atualização fizer com que ela não se comporte como você está acostumado, ou chame você por um nome diferente, ou — Deus me livre — aconteça outro 3 de fevereiro [quando as funções românticas foram alteradas] e a personalidade dela pareça desaparecer”. O tom é o de alguém que sobreviveu a um término e aconselha outra pessoa.

Como explicamos, o Replika opera com um modelo freemium: a conversa básica é gratuita, mas a voz, a memória ampliada, a intimidade e a personalização profunda estão disponíveis mediante uma assinatura de entre 60 e 70 euros por ano. Aqui, o vínculo emocional é o produto. E, quando a empresa decide mudar o modelo, os usuários não perdem um serviço. Perdem alguém. E essa perda, que até pouco tempo atrás era uma anedota tecnológica, hoje descreve muito bem o tipo de vínculo que o capitalismo de plataforma está em condições de nos oferecer: relações sob medida revogáveis por decisão unilateral de um conselho de administração.

Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html

21 agosto 2026

Palavra de poeta

SUBLIMAÇÃO* 
Anita Dubeux     

Já não mais importa 
      o aniquilamento, 
 já não mais importa 
      a dor da saudade, 
já não mais importa 
      a presença interdita: 
 
o amor que persiste,
solitário,
       basta!


*do livro "Teia do tempo", Sol Negro Editora 


[Ilustração: Antonio Allegri Correggio]


Leia também: "Integrações", poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_01687838279.html 

19 agosto 2026

Palavra de poeta

Possibilidades
Wisława Szymborska    

Possibilidades
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

[Ilustração: Henri Daras]

Leia também "Amar", poema de Carlos Drummond de Andrade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_04338501.html  

16 agosto 2026

Uma crônica de Urariano Mota

O que é que o Recife tem?
Há uma mistura de pessoas com a história da cidade. Um encontro de união indissolúvel, podemos dizer.
Urariano Mota/Vermelho 

Inácio Araujo, crítico da Folha de São Paulo, chamou atenção nesta semana para o novo cinema de Pernambuco. Vale a pena citar a citação de trechos do artigo:

“Hoje, ninguém dirá que os quatro filmes a serem apresentados constituem uma mostra exaustiva. Ela comemora datas redondas —’Baile Perfumado’ completa 30 anos; ‘Baixio das Bestas’, de Cláudio Assis, e ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’, 20 anos; enquanto ‘Boi Neon’, de Gabriel Mascaro, chega à primeira década…

Samuel Paiva, professor de cinema na Universidade Federal de São Carlos, esteve na equipe do filme (Baile Perfumado) e situa a origem do movimento recifense nos anos 1980, quando grupos de estudantes que se interessavam pela arte se juntaram para ver filmes, estudá-los e fazer seus primeiros curtas.

No mais, estavam em sintonia com a nova visada trazida pelo movimento manguebeat, de Chico Science e Fred Zero Quatro, e, ao mesmo tempo, sentiam-se ligados à tradição cultural do estado. Para o crítico Luiz Joaquim, ‘no grupo, eram solidários entre si. Coisa típica de uma pequena grande cidade. E isso ajudava a protegê-los de excessivas influências sudestinas’”.

Mas aqui, uma vez mais, há uma mistura de pessoas com a história da cidade. Um encontro de união indissolúvel, podemos dizer. Os grupos de estudantes que se juntaram nos cineclubes estavam inscritos na crítica de cinema de Celso Marconi e Fernando Spencer nos jornais Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, além do embate diário desses críticos recifenses,  quando criaram cinemas de arte, incentivaram cineclubes, realizaram filmes super-8 e festivais de cinema. Quem era no Recife que gostasse de cultura poderia ficar imune a tão alta prática? Recomendo os textos de Celso Marconi que foram republicados no Portal Vermelho, quando os jornais da terra, muitos anos depois, achavam que o genial crítico já não valia a pena. Quanta incompreensão de quem via o moderno como o mais recente. Olhem por favor este link Arquivos Celso Marconi – Vermelho. Em especial, o texto “O cinema do presente e do passado” aqui O cinema do presente e do passado – 1 – Vermelho. Que critico maravilhoso com as armas da filosofia e da sensibilidade!

É claro que a própria prática de cineastas e críticos vinha da cidade anterior, presente já no Ciclo do Recife, de 1923 a 1931. E reverberou sempre nas conversas, nos bares, nas escolas, em todos os ambientes. Mas por que essa mania de cinema, digamos assim? Antes que a mania se tornasse mana, ou manas e manos, esses hábitos culturais estavam nas ruas e teatros. E por falar em teatro, nada mais próprio e histórico que o Teatro de Santa Isabel, onde Castro Alves cresceu para plateias do Brasil. Nele, Castro Alves foi o homem mais feliz. Ali, no Santa Isabel, ele se ergueu condoreiro quando no palco declamou poemas abolicionistas. E no Teatro, a partir do Teatro amou para o mundo a bela atriz Eugênia Câmara.

E por falar em poesia, há um quê no Recife que se revela nos poetas, se não os melhores do Brasil, pelo menos alguns dos melhores, sem qualquer cabotinismo. Isso porque invocamos os nomes de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardozo, Carlos Pena Filho, Ascenso Ferreira, Mauro Mota, Alberto da Cunha Melo, e que nos perdoem os lapsos de nomes de poetas nesta hora.

Mas essa história do cinema, da poesia, vem de mais longe. A história não é um animal mumificado. Ela é viva. Queremos dizer, para que não se busque o mais longe. Frei Caneca no Recife. A frase anterior mereceria uma torrente de exclamações.

O Typhis Pernambucano foi um jornal fundado e editado por Frei Caneca, no contexto da Confederação do Equador. O seu primeiro número circulou em 25 de dezembro de 1823, encerrando a sua publicação em agosto de 1824. Olhem só o nível da altura, da escrita e do valor político do jornal redigido por Frei Caneca:

“Quando a nau da pátria se acha combatida por ventos embravecidos; quando, pelo furor das ondas, ela ora se sobe às nuvens, ora se submerge nos abismos; quando levada pelo furor dos euripos, feita o ludibrio dos mares, ela ameaça naufrágio e morte, todo cidadão é marinheiro; um dever sustentar o timão, outro pôr a cara ao astrolábio, ferrar o pano outro, outro alijar ao mar os fardos que a sobrecarregam e afundam, cada um prestar a diligência ao seu alcance, e sacrificar-se pelos cidadãos em perigo”.

Frei Caneca, ele, que também escreveu e publicou esta beleza de amor à terra e à política:

ENTRE MARÍLIA E A PÁTRIA

Entre Marília e a pátria
Coloquei meu coração:
A pátria roubou-me todo;
Marília que chore em vão.

Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer….”

Melhor parar por aqui.

[Ilustração: Cavani Rosas]

Leia também: O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-urariano-mota.html

Espelho da existência

A armadilha do Duplo digital
Por milênios, os humanos olharam muito raramente para seus rostos. A onipresença dos celulares rompeu uma barreira, escancarou as portas para Narciso e se converteu numa das grandes fontes de ensimesmamento e alienação contemporâneos
Catherine Shannon | Tradução: Antonio Martins/Outras palavras 


Tudo é estranho. Trabalhamos em casa. Socializamos online. Nossas vidas privadas estão cada vez mais públicas. As pessoas fingem ser marcas; as marcas fingem ser pessoas. Otimizamos nossos corpos até que eles se rompam. E quanto mais sabemos, menos seguros nos sentimos.

Neste mundo invertido, buscamos compreender o que é real e o que é verdadeiro. Para conhecer a verdade sobre nós mesmos, começamos por um lugar que nos parece natural: o espelho. Desejamos nos ver como os outros nos veem, e a vida moderna nos oferece inúmeras oportunidades para isso.

Constantemente nos deparamos com nossa própria imagem, quer queiramos ou não: em nossos celulares, vídeos com a câmera frontal, selfies, perfis nas redes sociais, chamadas de Meet, espaços públicos, sistemas de reconhecimento facial. Acabamos esquecendo que os espelhos tanto duplicam a realidade quanto a invertem. Nenhum deles mostra exatamente como somos. Tudo é estranho.

O historiador Christopher Lasch escreveu que “para o narcisista, o mundo é um espelho”. Quase 50 anos depois, esse diagnóstico continua preciso, mas não capta totalmente a extensão da crise espiritual que enfrentamos atualmente. Acredito que a sala de espelhos que nos cerca constantemente evoca algo perturbador, sombrio. É uma armadilha afetiva na qual o imaginado suplanta o real: escolhemos uma fantasia de nós mesmos em prejuízo da realidade dos outros. E essa armadilha é atraída e facilitada pela tecnologia.

Para entender o que quero dizer, basta imaginarmos nosso comportamento online na vida real, sem as plataformas que embaralham os limites do que é aceitável.

Imagine-se em uma festa de trabalho — daquelas que você detesta. Um colega se aproxima. Ao lado dele, há um grande espelho, e enquanto você conversa e responde às suas perguntas pessoais invasivas, você não olha para o rosto dele. Em vez disso, olha para si mesma, para o seu próprio reflexo. Você se observa falando e rindo, vê a careta que faz quando ele pergunta se você pretende ter outro filho em breve. Você monitora seu reflexo, corrige a postura, exagera na expressão de “estou ouvindo”. Pessoalmente, isso seria totalmente bizarro. As pessoas provavelmente perguntariam se você precisa se sentar. Mas é exatamente isso que fazemos, o dia todo, nas telas de aplicativos como o Meet.

Ou imagine uma certa influenciadora de beleza mostrando seus produtos favoritos para o verão — mas sem o celular. Por seis minutos seguidos, ela encara o próprio olhar ávido no espelho do banheiro, falando com o reflexo. Ela toca nos produtos, murmurando sobre — sei lá — os benefícios da mucina de caracol. Você chamaria a polícia. Ou pelo menos quem estiver montando o elenco do novo filme do Ari Aster.

Há algo de inquietante em ser ao mesmo tempo orador e espectador, em representar a própria identidade para si mesmo, em vez de simplesmente vivê-la. Quando assumimos os papéis de ator, público e crítico simultaneamente, isso inevitavelmente produa desgaste psicológico.

Historicamente, nós, humanos, tivemos muito pouco acesso à nossa própria imagem, por mais que sempre o desejássemos. Os espelhos de cobre e bronze do antigo Egito, Grécia e Roma — culturas obcecadas pela beleza — eram objetos de luxo produzidos para os ricos. Durante o Renascimento, os retratos a óleo encomendados eram destinados à aristocracia e eram notoriamente pouco confiáveis. Qualquer fã da história dos Tudor já ouviu a história de Ana de Cleves enganando o rei Henrique VIII com um retrato tão impreciso que ele alegou não conseguir consumar o casamento.

Os espelhos não eram objetos domésticos comuns até meados de 1800. Então, vieram as imagens estáticas de nós mesmos, as imagens em movimento de nós mesmos e a onipresente câmera do smartphone que combina as três, além de tornar essas imagens acessíveis em qualquer lugar, por qualquer pessoa. Em quase toda a história da humanidade, as pessoas não estavam olhando em seus próprios olhos, e certamente não estavam assistindo a si mesmas em loop nos stories do Instagram, tomando taças de espumante em um brunch de despedida de solteira.

Sejamos honestos: eu não deveria saber como fico quando levo o lixo para fora de casa. Mas sei, porque minha câmera de segurança Google Home me alertou recentemente sobre uma “Pessoa Vista – Câmera Traseira”. “Pessoa” é um termo generoso para o que eu vi: uma figura fantasmagórica e abatida, com o cabelo oleoso preso para trás, curvada sobre um saco de lixo como uma velha bruxa.

Somos constantemente filmados: em público, pelo Estado, por empresas privadas tentando nos vender coisas, até mesmo por estranhos. Eu me arrepio só de pensar em todas as fotos minhas que existem nos celulares de desconhecidos. No meu próprio filme de terror pessoal, lá estou eu, comendo um bagel, e algum turista de 17 anos dá um zoom no meu rosto pixelado, tira um print e manda para o grupo da família no WhatsApp — “a cara dessa mulher kkkk” — e eu me torno a piada interna que define aquele feriado em Nova York pelos próximos anos.

É curioso, especialmente considerando o quão pouco nos olhávamos no passado e o quão raros e imperfeitos eram os espelhos durante milhares de anos, que a sabedoria tradicional nos ensine a ter cautela com o ato de nos observarmos. As três religiões com mais seguidores no Ocidente — cristianismo, islamismo e judaísmo — alertam contra os perigos dos espelhos, da vaidade, do orgulho e da preocupação excessiva consigo mesmo.

Durante o shiva, o período de luto judaico de sete dias, os espelhos são cobertos para incentivar a reflexão sobre a relação entre Deus e o homem e para desencorajar a vaidade e o egocentrismo. O Livro de Provérbios ensina que o orgulho é espiritualmente prejudicial: “O orgulho precede a ruína, / A arrogância, o fracasso.”

Muitos cristãos acreditam que o orgulho não é apenas um pecado, mas o pecado original e o pior de todos. É demoníaco, “o estado de espírito completamente anti-Deus”, como escreveu C.S. Lewis em “Cristianismo Puro e Simples”. O orgulho é um afastamento de Deus e uma exaltação de si mesmo. O espelho é um símbolo de orgulho e vaidade, mas também simboliza nosso conhecimento terreno incompleto. Como escreveu o apóstolo Paulo sobre Deus em sua primeira carta aos Coríntios: “Agora vemos como em espelho, de modo obscuro; então veremos face a face”.

A tradição profética islâmica (hadith) desencoraja a representação de seres vivos em contextos religiosos. No entanto, no misticismo islâmico, um espelho embaçado é uma metáfora para a alma humana. Somente quando o ego é aniquilado e a superfície é polida e limpa, o divino se torna visível. O Alcorão também é explícito sobre o orgulho e a vaidade social: “Não desprezeis as pessoas, nem andeis sobre a terra com arrogância”.

A mensagem é clara: a auto-obsessão é espiritualmente perigosa e precisamos manter-nos vigilantes. Nas três religiões, o espelho é uma forma pobre e incompleta de ver. É coberto, escuro e embaçado. Não revela a verdade ou mesmo a nós mesmos como somos. É somente através da contemplação privada, de encontros face a face e de uma transformação espiritual interior que chegamos a conhecer a verdade.

Se ao menos fosse tão fácil. Como Narciso, somos facilmente seduzidos por nossos próprios reflexos, por nossos eus imaginados e idealizados. Diariamente, somos incentivados a essa auto-sedução. Mas seduzir a si mesmo… Francamente, não é assim que a sedução deveria funcionar.

A psicologia convencional, e praticamente todos os aspectos da vida moderna, enfatizam bastante a importância de um ego saudável. É uma ideia reconfortante e harmoniosa, essencial para qualquer personalidade equilibrada. Todos sabemos que precisamos de amor-próprio e autocuidado.

Sim, priorize-se, estabeleça limites, use uma máscara facial hidratante… A mensagem oposta, de que existe amor-próprio ou preocupação excessiva consigo mesmo, não é muito difundida no TikTok. Mas obviamente, tudo tem seus limites.


O que acontece quando os limites são ultrapassados? Coisas ruins, infelizmente. Coisas terríveis. O reflexo de si mesmo raramente é reconfortante por muito tempo. Em diversas culturas, espelhos têm sido usados por adivinhos, feiticeiros e bruxas para adivinhação, vidência e tentativas de vislumbrar além do mundo visível. No folclore e nas práticas ocultistas, o espelho não é meramente reflexivo, mas permeável — um portal onde algo pode aparecer ou alguém pode retornar.

Até mesmo os pós-modernistas têm seus próprios alertas. Em 1967, Michel Foucault descreveu o espelho de forma sombria como uma espécie de limiar, uma mistura entre um mundo de fantasia, uma utopia e algum outro lugar estranho à margem — que ele chamou de “heterotopia”. O espelho é um desses lugares estranhos porque descobrimos nossa presença e nossa ausência ao mesmo tempo. “Eu me vejo ali onde não estou”, escreveu ele, “em um espaço irreal e virtual que se abre por trás da superfície”.

Outras heterotopias, segundo Foucault, incluem a lua de mel, hospitais psiquiátricos, resorts, prisões, o teatro, o cinema, museus, bibliotecas, bordéis e o cemitério. Nesses ambientes, a ordem normal das coisas se desfaz e certas verdades são expostas. Cada um desses lugares poderia servir como uma metáfora apropriada para as telas, monitores e aplicativos de redes sociais que nos refletem incessantemente. Essa tecnologia é um espelho, mas também é um museu, um teatro, uma prisão.

Habitar esse reino espelhado e dual, essa existência duplicada, não parece natural. Nem mesmo parece neutro. Algo está errado, e quando algo está errado, Freud provavelmente já tentou explicá-lo. Ele chamou isso de “o estranho”, um conceito que, por sua própria natureza, resiste a uma definição precisa, embora, se você já viu um filme de David Lynch, você o tenha experimentado em primeira mão.

Complexos de castração e fantasias uterinas à parte, Freud faz um trabalho bastante preciso: o estranho, segundo seu ensaio de 1919 com o mesmo título, “é aquela classe do terrível que remete a algo que nos é conhecido há muito tempo, algo que outrora nos era muito familiar”. É fácil que algo novo ou desconhecido nos assuste, mas a sensação de estranheza depende de já o conhecermos de alguma forma.

O estranho é uma versão sombria do familiar. Ele surge quando a fronteira entre imaginação e realidade começa a se confundir, quando mecanismos ocultos parecem estar em ação sob a superfície e quando algo ganha vida quando não deveria. (Ou vice-versa, no caso de influenciadores, que podem ter aquele olhar morto e penetrante.) É marcado pela repetição, por uma sensação de algo predestinado e inescapável. Freud observou que o estranho é frequentemente e facilmente produzido quando um símbolo começa a assumir toda a força daquilo que representa. É difícil imaginar uma descrição mais precisa da vida online.

Os efeitos psicológicos da observação prolongada de si mesmo são realmente perturbadores. Um estudo de 2010 da Universidade de Urbino, na Itália, descobriu que, quando jovens adultos saudáveis olhavam para seus próprios rostos em um espelho sob baixa luminosidade, os resultados eram imediatos e inquietantes. Os participantes relataram ver grandes deformações em seus próprios rostos, uma pessoa desconhecida e até mesmo seres fantásticos e monstruosos. Alguns viram o rosto de um animal, como um gato, um porco ou um leão. Alguns viram seus pais. Todos experimentaram alguma forma de dissociação. Alguns participantes sentiram que o outro rosto no espelho era o que os observava.

Intimamente ligada aos espelhos e ao estranho está a ideia do duplo, ou doppelgänger, um tema há muito explorado na literatura e no cinema, desde a novela “O Duplo”, de Dostoiévski, até o filme de terror “Nós”, de Jordan Peele. No folclore alemão e do leste europeu, o doppelgänger é um presságio, um usurpador, a sombra do eu e um sinal de que a identidade é instável. O eu é dividido, assombrado, imitado e perseguido por sua própria imagem.

Hoje em dia, tratamos nossa própria imagem — tanto no espelho quanto online — como algo psicologicamente protetor: uma forma de estabilizar nossa identidade, gerenciar nossa reputação e garantir um senso de identidade coerente.

Mas tudo isso sugere a possibilidade oposta: quanto mais tentamos nos estabilizar por meio da repetição, da duplicação, da auto-observação e — vou dizer — da publicação na rede social, mais estranhos e frágeis nos tornamos. Uma preocupação com o eu estável produz instabilidade. Hoje em dia, não abordamos nossos duplos com cautela; nós os convidamos e chegamos ao ponto de os selecionar.

É como uma versão invertida de “O Retrato de Dorian Gray”. No romance de Oscar Wilde, Dorian mantém sua bela imagem pública, enquanto seu retrato revela sua corrupção e feiura interior. Sob a cultura da imagem moderna, tentamos a operação inversa: apresentamos um duplo digital perfeito à custa de nosso eu real, que fica a cargo do desconforto e da tensão entre os dois. Se você posta a foto perfeita, pouco importa que se sinta triste por dentro.

A situação é pior que a vaidade, mais sombria que o narcisismo. Os espelhos ao nosso redor, especialmente os tecnológicos, nos dividem uns contra os outros — e isso é desestabilizador e perigoso. À medida em que novos aspectos de nossas vidas se apresentam em um reino virtual, e nos identificamos cada vez mais com as fantasias de nossos sósias digitais, começamos a nos desumanizar. Quando fazemos isso, torna-se sem dúvida mais fácil desumanizar os outros.

Uma pequena forma de como isso acontece todos os dias: o desaparecimento generalizado das boas maneiras. Frequentemente encontro alguém caminhando na calçada em minha direção, absorto no celular, até que percebe a presença de outra coisa vindo em sua direção, que neste caso sou eu, um ser humano. Esse jogo de “quem pisca primeiro” insuportável pode ter algo a ver com a forma como fomos condicionados a enxergar uns aos outros: como coisas, não como pessoas. Vemos as outras pessoas como obstáculos para o que queremos, nas calçadas e em outros lugares. Ou como coisas que podemos usar para conseguir o que queremos. Grande parte da tecnologia nos trata como coisas a serem manipuladas, “usuários” a serem usados. Nos acostumamos com isso, internalizamos essa mentalidade e retribuímos o tratamento às pessoas ao nosso redor.

Quando nos olhamos no espelho, buscamos algo. Queremos ser conhecidos, vistos e compreendidos. Mas estamos olhando para o lugar errado. O espelho nos mostra nosso próprio olhar autoexaltante — o olhar do orgulho, do prazer e do ego. Essa fantasia é poderosa, até mesmo hipnotizante, mas pouco confiável. Quando olhamos apenas para nós mesmos, não encontramos nada que nos resista; não há contradições, nem interrupções. Precisamos do olhar honesto: o olhar dos outros e o olhar voltado para os outros. Para nos enxergarmos com clareza, não usamos espelhos. Usamos relacionamentos.

Antes de ter um filho, eu tinha a impressão de ser uma pessoa muito paciente. Achava que conseguiria limpar ovo mexido do chão sem nenhuma frustração, ler “Filhotes de Coruja” pela enésima vez sem me cansar de Sarah, Percy, Bill e sua mãe coruja sem nome. Mas meu lindo filho expôs minhas inadequações com uma clareza alarmante. (Estou trabalhando nisso.) Em nossos relacionamentos amorosos com os outros, somos levados para fora de nós mesmos e para o mundo.

Os espelhos nos incentivam a escolher nossas fantasias em detrimento da realidade alheia. É melhor desviarmos o olhar.

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html