07 fevereiro 2025

Enio Lins opina

Correntes, algemas, eugenia, supremacismo: a velha cara da nova América
Enio Lins   

NÃO É NOVO O DRAMA da imigração nos Estados Unidos, afinal aquele país foi criado e tornou-se uma potência graças a sua capacidade permanente de atrair (e trair) migrantes de todas as partes do mundo. O próprio Donald Trump é filho e neto de estrangeiros cujos processos de assentamento em território americano são inferiores a duas gerações. A mãe, Mary Anne MacLeod, era escocesa, e o pai, Frederick Christ Trump, nascido em Nova York, era filho de um casal de alemães, Elizabeth Christ e Frederick Trump. A questão da legalidade do migrante é um agravante, sim, mas está longe de ser o centro do problema. O grave é que a atual cruzada contra imigrantes radicaliza motivações racistas, econômicas, diversionistas e demagógicas.

SE ESTIMA QUE 11 MILHÕES de imigrantes ilegais vivam atualmente em território dos EUA, e destes, cerca de 230 seriam brasileiros, segundo o Pew Research Center, citado em reportagem de Luiza Palermo, publicada pelo Valor Econômico, em 29 de janeiro. A matéria destaca: “Trump critica frequentemente o governo de Joe Biden por ter sido ‘fraco na fronteira’ e por ter reduzido o ritmo das deportações. No entanto, Biden realizou aproximadamente 4,7 milhões de repatriações — um número superior ao registrado tanto nos mandatos de Trump quanto de Obama”. Ressalta ainda: “De acordo com dados da Polícia Federal, os EUA deportaram mais de 7 mil brasileiros desde o ano de 2020. O maior número foi registrado em 2021, no primeiro ano do governo Biden, quando cerca de 2,1 mil brasileiros foram deportados”. Ou seja, mesmo que ao fim e ao cabo deste seu mandato Trump tenha expulsado mais gente que seus antecessores do Partido Democrata, a política americana é a mesma em relação aos imigrantes; o que muda e a retórica demagógica, espalhafatosa – e diversionista, chamando a atenção do público para desviar o olhar de outros malfeitos – do atual presidente.

MAS É UM PERIGO REAL
 a retórica de ódio e desumanidade adotada por Trump e seus áulicos. A tônica dos discursos dos líderes do atual governo ianque trilha os descaminhos do supremacismo, do autoritarismo, do desrespeito aos direitos humanos. Propagam o culto do “lucro máximo acima de tudo e os ricos americanos acima de todos” somando isso ao velho mito da “raça superior”. Sobra uma pesada conta para milhões de viventes (migrantes ou não) considerados pela eugenismo americano como etnicamente inferiores. Paga essa massa trabalhadora discriminada pelo rancor dos que veem os Estados Unidos “poluídos” por tons de pele “colored”. Pagam por ocuparem postos de trabalho antes considerados impróprios para “gente branca”. Ocupações essas, há anos, alvo do interesse dos WASP (
White Anglo-Saxon Protestant) que, desempregados, almejam as vagas dos cucarachos na limpeza de pratos e banheiros.

É CENA TÍPICA AMERICANA 
gente acorrentada e algemada nos pés e mãos. Não foi Donald quem inventou isso, mas é ele quem usa essa cena como peça publicitária de um marketing de guerra, voltado para chocar e disseminar teorias e práticas da supremacia e da opressão. É o circo dos horrores de Trump, cujo espetáculo apenas principia. No fundo, a velha hipocrisia americana está detonando alguns de seus mais preciosos mitos – patéticos, mas muito populares no mundo da ignorância – como “a maior democracia do mundo”, “a terra das oportunidades”, “o lugar mais feliz da terra”, “o país da liberdade” e bazófias do tipo. Em qualquer país do mundo são preocupantes as cenas de um governante fanfarrão, provocador, atrabiliário; e, em este país sendo os Estados Unidos da América, a maior potência militar e econômica do planeta, tais bufonarias precisam ser denunciadas e combatidas sem vacilação, pois o mundo todo corre perigo.

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