Festa popular
Cícero Belmar
As mulheres parecem meninas dançando o pastoril, representando os cordões azul e encarnado; a indecisa Diana sem partido; a ciganinha que vem do Egito; a doce camponesa que distribui flores; a borboleta de asas com luzinhas que piscam como árvore de natal. Quando cantam e dançam, vivem o que devem viver e não há nada mais bonito do que a fantasia de serem felizes.
Todas são idosas, no grupo organizado pelo promotor cultural Júnior Baladeira. As suas pastorinhas não têm limite de idade e a alegria é senhora de transformações: elas viram crianças e o riso fácil daquele instante as leva até onde elas querem ir.
Já os homens, representando os três Reis Magos do pastoril, são sérios demais. Justamente por serem homens têm uma certa melancolia e não são capazes de abrir mão da suposta seriedade masculina.
Espero que alguém no mundo me diga: o que a melancolia, usada na hora errada, é capaz de fazer pela vida? Os homens serão sempre mais sérios e tristes do que as mulheres sem saber que a melancolia é o princípio do insucesso no pastoril ou na vida.
O Pastoril Aricuri, com idosos, fez bonito nos festejos de Santos Reis, evento de encerramento do Ciclo Natalino na comunidade da Várzea do Meio, na sertaneja e distante Bodocó (PE). Mas uma festa popular emenda uma alegria na outra. Logo em seguida foi a hora e a vez do Reisado de Couro, mostrando que ainda está firme e forte, apesar de ser a última agremiação do gênero que se tem registro em Pernambuco.
Ao contrário de outros grupos de reisado, os brincantes desse usam máscaras de couro, como faziam os ancestrais, e se utilizam de vários personagens de diversos folguedos. Ao mesmo tempo que têm características próprias, incorporou elementos de outras folias.
No Reisado de Couro da Várzea do Meio cabem muitas reinações e sonhos: o Bumba meu Boi, a burrinha solitária, o Careta, a Cabeçuda, a Mãe Velha, o Pai Tomaz, o Bode Cheiroso, entre outros. É como se os brincantes da Várzea dissessem que, através do seu reisado, há espaços para outras comunidades, outros mundos, outras alegrias.
Assim, fazem, a seu modo, uma teatralização das coisas que estão a sua volta. As irreverências e críticas são ditas em letras de músicas populares feitas para aquela brincadeira, com base nas suas vivências. Os cantadores do reisado falam direto ao público porque tudo ali é pertencimento e identidade.
Quem não está no papel do artista popular pode ser plateia. As pessoas têm o mesmo cotidiano. Acompanham as ironias musicadas, que provocam novos olhares para a vida de sempre, achando tudo muito engraçado e criativo. Terminam levando para casa a crítica, a leveza, a noitada alegre. E feliz.
Até um dia desses, o Reisado de Couro estava quase inativo. Não se ouvia falar do folguedo. Mas, passou a receber incentivos do Sesc Ler, da Secretaria de Cultura Municipal e das leis de incentivo. Assim, sobreviveu; está produzindo e se reproduzindo. É “madeira que cupim não rói”. Hoje, mostra até onde a cultura popular é capaz de chegar.
Leia: Os clarins de Momo se aproximam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/minha-opiniao_24.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário