01 abril 2026

PCdoB na luta contra a ditadura

Do golpe à resistência: como o PCdoB leu 1964 e enfrentou a ditadura
Documentos históricos do partido com maior número de vítimas pela ditadura militar trazem análise do golpe, leitura do regime e os quais foram os caminhos de resistência articulados pelo PCdoB
Leandro Melito/Portal Grabois     


Em 1º de abril de 1964, uma ofensiva articulada entre militares, elites conservadoras e o imperialismo norte-americano derrubou o governo de João Goulart e impôs ao Brasil uma ditadura que duraria mais de duas décadas (1964-1985). Nos meses seguintes, já sob a repressão do novo regime, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) tornou pública sua análise dos acontecimentos no documento O Golpe de 1964 e seus ensinamentos, divulgado em agosto daquele ano pela Comissão Executiva. O texto resgata os fatores que levaram ao golpe, examina a situação do país nos primeiros meses da ditadura e aponta caminhos para enfrentá-la.

A caracterização da ditadura

Para o PCdoB, não se tratava de uma “revolução”, como sustentavam os militares:

“Embora a ditadura militar procure, desde o início, mascarar-se com aspectos legais, proclamando hipocritamente sua obediência à Constituição de 1946, no país não se respeita a lei.”

O novo regime se expressou rapidamente em medidas de exceção: cassações, intervenções em sindicatos, repressão a estudantes e perseguições políticas. O governo chefiado pelo marechal Castelo Branco também se alinhou aos interesses dos Estados Unidos, tanto na política econômica quanto na política externa.

A preparação do golpe

Nos anos anteriores a 1964, ampliavam-se as mobilizações sociais e o debate público em torno de reformas estruturais, como a reforma agrária, enquanto cresciam as críticas à presença do capital estrangeiro no país. Para os comunistas:

“Esse clima de certas liberdades e o avanço do movimento democrático e antiimperialista preocupava seriamente os reacionários do país e dos Estados Unidos. Sob o falso pretexto de que Goulart favorecia os comunistas, há muito grupos militares e de civis tinham iniciado a conspiração para derrubar o governo e deter o ascenso das lutas populares.”

O documento cita algumas ações:

“A Escola Superior de Guerra transformou-se em antro de conjura. Latifundiários armados realizavam violenta repressão aos camponeses. Lacerda e Ademar de Barros pregavam abertamente a destituição do presidente da República. Setores reacionários do clero mobilizavam fiéis em passeatas e procissões.”

O imperialismo norte-americano também atuou diretamente para viabilizar o golpe, apoiando política e materialmente os setores golpistas.

Ainda assim, predominavam a passividade do governo e a crença de que o Exército garantiria a legalidade. “O povo estava despreparado para enfrentar a ação combinada dos imperialistas e dos reacionários.”

O resultado foi a ausência de resistência. “O governo e o povo foram tomados de surpresa. (…) Nenhuma resistência foi oferecida ao golpe.”

Para o PCdoB, João Goulart confiou que poderia levar adiante algumas reformas e manter-se na Presidência apoiado no movimento sindical e nos principais comandos militares. Contudo, “os acontecimentos de março-abril vieram demonstrar o quanto era ilusória a orientação do caminho pacífico.”

“Os trabalhadores, os estudantes, os intelectuais indagam por que não se resistiu ao golpe quando se tinha tão fortes posições. Os responsáveis principais são os que pregavam aquela orientação. Tivesse prevalecido a linha revolucionária, outro teria sido o curso dos acontecimentos.”

A linha do PCdoB no pré e no pós-golpe

Dias antes do golpe, entre 27 e 30 de março, o Comitê Central do PCdoB reuniu-se e decidiu manter-se na oposição à esquerda ao governo João Goulart, considerado reformista, ao mesmo tempo em que apoiaria a luta pelas reformas de base em debate no Congresso Nacional. O partido vivia um período de reorganização após a cisão com o antigo PCB, em 1962.

A leitura dos acontecimentos após o golpe e do arbítrio instaurado no país pelo governo Castelo Branco reforçou a convicção que havia orientado essa reorganização.

“A tese revisionista, defendida pelo PC Brasileiro, da revolução pelas reformas, redundou em completo malogro. Os militares golpistas, ao galgar o poder, acabaram com as liberdades, voltaram-se contra o povo e deram seu apoio aberto ao imperialismo ianque.”

Como enfrentar a ditadura

“A amplitude da frente única é condição indispensável da vitória da revolução, uma vez que são fortes os inimigos a derrotar.”

Naquele agosto de 1964, o PCdoB apontou a necessidade de reorganizar o movimento popular e construir uma ampla frente de forças democráticas e patrióticas para enfrentar a ditadura:

“Mobilizar o maior número de brasileiros contra a ditadura e contra os direitistas mais extremados é uma necessidade premente. Desta tarefa participam tanto revolucionários quanto reformistas, tanto militantes do PC do Brasil quanto do PC Brasileiro, tanto católicos quanto socialistas. Lado a lado podem atuar trabalhistas, brizolistas, comunistas, elementos do PTB, PDC, PSD e até da UDN. Na luta por objetivos concretos é preciso unir todas as forças capazes de ser unidas e neutralizar todas as que possam ser neutralizadas.”

A luta pelas liberdades — como a libertação de presos políticos, o fim das intervenções nos sindicatos e nas universidades e a reabertura de jornais — aparece como eixo imediato de mobilização. Ao mesmo tempo, o PCdoB indica que o enfrentamento ao regime exigiria formas mais profundas de organização e resistência.

A luta nas páginas de ‘A Classe Operária’

Veículo histórico do Partido Comunista do Brasil fundado em 30 de abril de 1925, sob a repressão do governo Arthur Bernardes, o jornal A Classe Operária resistiu à perseguição do Estado Novo (1937-1946) e circulou legalmente, sendo vendido em bancas de jornal até março de 1964. Sua circulação foi retomada em abril de 1965 e permaneceu com circulação mensal durante os anos de arbítrio (1964-1985) quando, mesmo na clandestinidade, publicou 159 edições.

Preservadas no Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois, as edições do jornal referentes a esse período ajudam a analisar as principais movimentações do PCdoB.

Em 1966, o partido realizou a VI Conferência Nacional, que aprovou o documento União dos brasileiros para livrar o país da crise, da ditadura e da ameaça neocolonialista, no qual destaca “a necessidade de organizar a mais ampla união patriótica, sob o lema de independência, progresso e liberdade”.

Em maio de 1968, o documento Preparar o partido para as grandes lutas destaca que consideráveis setores das massas ganharam confiança nos embates com a reação e “sentiram que é possível enfrentar com êxito a tirania”, com destaque para os movimentos grevistas de trabalhadores. A edição de A Classe Operária de novembro daquele ano denuncia o ataque dos militares ao XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), com a prisão de centenas de estudantes, e prenuncia o movimento que desaguaria no Ato Institucional número 5, AI-5, em dezembro daquele ano.

“Os ministros militares exigem a cassação dos mandatos de deputados oposicionistas, o ministro da Justiça ameaça implantar o estado de sítio e fala da aplicação de outras medidas de exceção. Acham-se em execução, portanto, planos de provocação e atentados contra os líderes do movimento popular, enquanto atinge caráter mais brutal e sanguinário, com novos assassinatos de estudantes e trabalhadores, o regime de violência instaurado em abril de 1964”.

Preparação da luta armada e guerrilha do Araguaia

Em resposta à instituição do AI-5 no dia 13 de dezembro de 1968, a Comissão Executiva do PCdoB respondeu com o documento A ditadura não conseguirá deter as lutas do povo, reproduzido na edição de A Classe Operária de janeiro de 1969, em que o partido fala explicitamente em recorrer à luta armada para combater o arbítrio.

“O povo brasileiro não poderá se livrar de seus opressores sem recorrer à luta armada. Os generais dizem abertamente que as armas estão em suas mãos e que as utilizarão contra os patriotas e democratas para defender o injusto regime vigorante no país. Se o povo não quiser viver como escravo, sob o tacão dos generais fascistas e sob o guante do imperialismo ianque, precisa também dispor de armas e preparar-se para usá-las contra seus inimigos.”

Em dezembro de 1969, os comunistas lançam o documento Responder ao banditismo da ditadura com a intensificação da luta do povo, que destaca que “o sentimento popular em favor da revolução é muito grande”.

Em julho de 1970, o Partido aprova o documento Mais audácia na luta contra a ditadura, em que atribui aos comunistas o papel de “organizar e levar a cabo ações revolucionárias”. “A passividade, o conformismo, as posições contemplativas, o espírito burocrático e os debates estéreis são atitudes inteiramente alheias ao revolucionário proletário”, destaca o texto.

Em junho de 1971, A Classe Operária publica o documento Ampliar e radicalizar as ações populares. “Aos comunistas cabe o dever de colocar-se à frente das lutas do povo, ajudá-lo a encontrar as adequadas formas de lutar e de se organizar que possibilitem ampliar suas ações e radicalizá-las de acordo com o nível de consciência e de organização já alcançados pela oposição popular que se reforça no curso dos combates”, destaca o texto.

No dia 12 de abril de 1972, mais de dois mil soldados iniciaram os ataques às bases do PCdoB na Guerrilha do Araguaia, organizada no sul do Pará. O conflito durou mais de dois anos e envolveu cerca de 10 mil homens das Forças Armadas. “Tropas do Exército, da Marinha, Aeronáutica e Polícia Militar do Pará realizaram vasta operação armada na região ao sul da cidade paraense de Marabá, ocupando trechos da Transamazônica e locais às margens do rio Araguaia. Nessa operação, iniciada nos primeiros dias de abril, empregaram grande número de helicópteros, veículos anfíbios e soldados treinados em combates na selva”, denunciou a edição de abril de 1972 de A Classe Operária.

“A ditadura cerrou os caminhos da luta pacífica. Que outro recurso resta ao povo senão empunhar as armas e combater firmemente a tirania? Os que lutam de armas nas mãos merecem o mais amplo apoio das massas. As pessoas simples que reagiram ao ataque das Forças Armadas, em território paraense, assim como noutros lugares, interpretam o sentimento profundo dos brasileiros de ódio à ditadura e de amor à liberdade, ao progresso e à independência nacional.”

O movimento, organizado por militantes do PCdoB e camponeses da região, resistiu por quase dois anos a três grandes ofensivas do Exército antes de ser dizimado em 1974, com a morte de 54 guerrilheiros ligados ao partido. Um dos principais movimentos de enfrentamento à ditadura, a Guerrilha do Araguaia desencadeou uma feroz perseguição do aparelho de repressão contra o partido, sigla política com o maior número de vítimas do regime militar, 86 ao todo.

Chacina da Lapa

Considerada a última ação de extermínio da ditadura militar (1964-1985), a Chacina da Lapa, assassinato brutal de três dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), completa 50 anos em 2026.

Militantes históricos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) Ângelo Arroyo e Pedro Ventura de Araújo Pomar foram assassinados por agentes da repressão que metralharam a casa número 767 da Rua Pio XI, no bairro da Lapa, em São Paulo (SP), na manhã do dia 16 de dezembro de 1976. O Comitê Central do PCdoB estava reunido naquele endereço desde o dia 14 de dezembro para discutir a derrota da Guerrilha do Araguaia pela repressão da ditadura militar (1964-1985).

Um dos comandantes da Guerrilha do Araguaia, Arroyo, havia recém-completado 48 anos. Ex-deputado pelo PSP, Pedro Pomar estava com 63 anos. Integrante mais novo da direção do PCdoB, João Batista Franco Drumond foi detido pelos militares e morto sob tortura aos 34 anos.

“O II Exército, em colaboração com o I Exército e o CENIMAR, incumbiu-se de levar a cabo uma operação terrorista contra aqueles elementos que culminou com o assassinato frio e calculado dos camaradas Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drumond e com a prisão de outros quadros do Partido, entre os quais, Elza Monnerat, Aldo Arantes, Haroldo Rodrigues de Lima e Wladimir Torres Pomar”, denunciou A Classe Operária.

“O sangue de Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drumond não correu em vão. Transforma-se num apelo eloquente aos operários, camponeses, estudantes, intelectuais, aos democratas e patriotas para levar adiante a gloriosa tarefa de livrar o Brasil da peste militar-fascista e conquistar o direito a uma nova vida de liberdade, progresso, independência e justiça social.”

O governo brasileiro entregou, na terça-feira (31), certidões de óbito retificadas de 27 pessoas assassinadas pelo regime militar, em cerimônia realizada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador. Entre as vítimas, cinco eram integrantes do PCdoB, mortos na Guerrilha do Araguaia e que até hoje não tiveram seus restos mortais localizados: Maurício Grabois, dirigente histórico do partido; Dinaelza Santana Coqueiro (Maria Dina); Dinalva Oliveira Teixeira (Dina); Uirassú de Assis Batista; e Vandick Reidner Pereira Coqueiro, marido de Dinaelza.

Segundo a Comissão Nacional da Verdade, o Brasil registra ao menos 434 mortos e desaparecidos durante o período autoritário.

Referência bibliográfica

BUONICORE, Augusto. O PCdoB e a ditadura militar. Revista Princípios, São Paulo, n. 129, p. 10-18, 2014.

Luta que segue https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Humor de resistência

 

Galvão Bertazzi

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Enio Lins opina

A tenebrosa sombra do 1º de abril de 1964 paira sobre o Brasil
Enio Lins     

RECORDAR É VIVER, e a Democracia brasileira, para sobreviver, precisa nunca esquecer do golpe de 1º de abril de 1964. Até porque aquele Dia da Mentira que se espalhou por 21 anos nunca morreu de fato, apesar do atestado de óbito lavrado em 15 de março de 1985. Perambula, como morto muito vivo, por becos e avenidas, livre e fagueiro, sem temer a luz do meio-dia. É um Drácula tropical, adaptado ao sol, dispensando até os óculos escuros que fizeram parte da farda dos ditadores latino-americanos nos anos 60/80.

NÃO É O GOLPE DE 1964 um acontecimento passado. Esta é a questão. Como diz aquele presidiário famoso: “Ustra vive!”. Algo está muito podre quando um político berra a todos pulmões sua admiração por um torturador abjeto, criminoso hediondo, militar insubordinado, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Conhecido nos porões da ditadura como “Doutor Tibiriçá”, imortalizou seu nome e codinome como o mais desumano dentre os torturadores. Ustra foi um covarde juramentado, especializado em seviciar vítimas que lhes eram entregues imobilizadas, sem lhe oferecer riscos. As mulheres eram seu alvo predileto, especialmente se estivessem grávidas. Na época, a própria extrema-direita militar teve o cuidado de evitar a subida de seu mais notório torturador a mais um degrau na hierarquia. Jamais permitiram que alcançasse o generalato. Congelaram-no como coronel e o esconderam. Jair B, como presidente da República, em agosto de 2021, aventou promover – postumamente – Ustra à Marechal. A “promoção” topou em problemas legais, mas foi a reafirmação de um compromisso entre bandidos.

NA BARAFUNDA DE INTEGRANTES 
do golpe de 64, existiam descontentes com o governo Jango, gente ressabiada com o trabalhismo, carolas tementes do comunismo, empresários ressentidos, proprietários ruais assustados com a Reforma Agrária etc. Sim, mas essa plêiade de interesses foi apenas o caldo de cultura, nunca a força dirigente. Quem dirigiu o processo e assumiu inteiramente o poder foi a extrema-direita militar, por sua vez dividida em alas que se aliavam e se combatiam internamente, disputando o leme do barco pirata. A facção mais criminosa era a “dos porões”. Esse grupo praticava crimes políticos do tipo prisão, tortura e assassinato de militantes da oposição, ao mesmo tempo em que, "nas horas vagas", praticavam delitos comuns como assaltos, tráfico e serviços gerais prestados para o crime organizado. Do pouquíssimo que veio à público, é educativo ler os resumos (disponíveis na internet) dos processos movidos contra o então Capitão Guimarães, nos anos 1970. Quando, em 2005, o então deputado estadual carioca Flávio Bolsonaro homenageou o capitão Adriano da Nóbrega, notório miliciano e assassino com vários processos em andamento – reafirmou a existência e vitalidade dessa ligação entre os herdeiros dos porões de 1964 e o crime organizado. E não é um tributo isolado a um militar criminoso por parte do hoje presidenciável Flávio: em 2004 ele homenageou o então capitão Ronald Pereira, atualmente condenado a 56 anos de prisão por participar dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

USUALMENTE, AS ANÁLISES
 do golpe de 1964 centram o foco nas questões ideológicas. Restringem-se ao inequívoco fato de os golpistas serem de extrema-direita, fascistas, antipatrióticos... sim, foram. São. Seus herdeiros seguem sendo. Mas a corrupção e o crime organizado são outras características intrínsecas aos donos do poder entre 1964 e 1985. Ocorrências como o Escândalo da Mandioca – ocorrido no interior de Pernambuco, entre 1979 e 1981, culminando com o assassinato do procurador federal Pedro Jorge em agosto de 1982 – unindo agentes da repressão política ao crime organizado, eram tão comuns e quanto rigorosamente ocultadas pela censura prévia à imprensa e pelo impedimento das investigações. Assim aconteceu nos escândalos da Itaipu Binacional, da Ponte Rio-Niterói, Transamazônica, Coroa-Brastel, Capemi, Luftalla-Maluf etc. Ocorrências jamais elucidadas, ligando líderes golpistas da extrema-direita ao roubo sistemático de recursos públicos e privados. Isso não ficou no passado. Nem é mera coincidência a fusão num mesmo personagem da tentativa de venda de joias desviadas do acervo da República e a tentativa de golpe de Estado quando da passagem de governo depois das eleições de 2022. Os herdeiros da bandidagem 1964/1985 estão presentes, e fortes, nessas eleições de 2026.

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Palavra de poeta

REFLEXÕES
Maurílio Rodrigues        

 

Ai daquele, que ao final 
De sua jornada, não percebe 
O seu rosto dizendo 
Sim, valeu a pena.
 
Ai daquele, que carrega
No seu cáustico dorso,
O peso enorme da desilusão,
E não é capaz de pedir ajuda.
 
Ai daquele, que com o coração 
Oprimido, sente a vida 
Como um inevitável naufrágio,
Por não ter cortado as asas 
De seus desejos.
 
É essa dor, que na alma crepita, 
Como os ciprestes que queimam
Sabendo que seu único destino,
Será as cinzas, que o vento as levará,
Em qualquer direção.
 
Ai daquele que sequer
Tem uma débil esperança
De encontrar um arbusto
Que possa lhe oferecer
Uma mínimo de sombra.
 
Ai daquele, que sofrendo
Imensurável dor, 
Não encontra palavras 
Para amenizar seus sofrimentos
Após uma vida de desventuras.
 
Ai daquele que não tem a fé
Para montar esse cavalo selvagem,
Chamado vida, o qual demonstra
Fortes sinais que jamais será 
Domesticado.

[Ilustração: Noemia Prada]

"Assim vejo a vida", poema de Cora Coralina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_31.html 

Minha opinião

O conteúdo do debate eleitoral

Luciano Siqueira

instagram.com/lucianosiqueira65 

Pesquisas pré-eleitorais sugerem que os temas educação, segurança e saúde devem centralizar o debate na eleição presidencial deste ano. É o que a grande mídia neoliberal sugere.

Será uma lástima se assim ocorrer. 

Inegável que esses três temas, ao lado de tantos outros relacionados com a condições de vida do nosso povo têm relevância. Entretanto, não podem obscurecer a questão central: que modelo de desenvolvimento o Brasil deve adotar?

Ou seja, o debate sobre os rumos do país.

Esse pretendido reducionismo serve à elite dominante, não serve ao nosso povo. Sobretudo neste instante em que o mundo se mostra conturbado e a própria soberania das nações postas em risco.

Assim, o debate sobre os rumos estratégicos do país há que encarar questões essenciais e não apenas políticas publicas setoriais. É preciso lançar luz e cotejar alternativas sobre os condicionantes macroeconômicos e estruturais que, em última análise, viabilizam — ou impedem — até mesmo o investimento nessas políticas específicas.

É preciso debater se ao Brasil cabe se constituir como potência agrícola, hub de tecnologia ou um centro industrial autosuficiente e moderno, em sintonia com as transformações que se operam no mundo.

Demais, o Estado democrático de direito concebido na Assembleia Nacional constituinte tem sido transfigurado mediante PECs e mesmo através de legislação infraconstitucional. Este também é um tema central, não pode permanecer debaixo do tapete.

É indispensável que os candidatos e as coalizões político-partidárias se posicionem sobre a soberania nacional, a política externa e a integração regional. É preciso encarar o desafio de uma inserção global soberana. Definir que país pretendemos ser nas próximas décadas.

A frente ampla que pugna pela reeleição do presidente Lula não pode fugir a essa dimensão do debate. Argumentar com os inegáveis avanços recentes de politicas públicas específicas é válido, mas não suficiente. 

A elevação do nível de consciência política do eleitorado guarda intima e indissociável relação com a conquista do voto para vencer.

Leia também Política externa altiva e propositiva https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_6.html 

Postei nas redes

Verdadeiras "viúvas da terceira via" colunistas da grande mídia neoliberal que agora lamentam que Ronaldo Caiado (PSD) é mais do mesmo, situando-se ao lado de Flávio Bolsonaro (PL) ambos da extrema direita. 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Arte é vida

 

Newton Rezende

"Aprendamos, amor" - poema de José Saramago https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_13.html

Sylvio: mesmo time

A confirmação pelo presidente Lula da chapa para concorrer à reeleição, com Alckmin na vice, é a realização do dito popular "em time que está ganhando não se mexe".

Sylvio Belém 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Governo que segue

Sem perda de continuidade 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65      

A troca de ministros neste início de abril é uma imposição legal para aqueles e aquelas que disputarão as eleições. Não implica em solução de continuidade da ação administrativa uma vez que já se foram três anos e três meses de gestão, o suficiente para consolidar políticas públicas específicas em sua implementação. Tanto mais quanto sejam bem entrosadas as equipes gestoras de cada ministério.

São 14 os ministros que se afastam de suas funções. Geraldo Alckmin permanece no governo porque é o vice-presidente da República e continuará compondo a chapa com o presidente Lula sem necessidade de desincompatibilização.

Nem todos retornarão às suas pastas sendo eleitos ou não. Após o pleito, a gestão estará praticamente no fim. Vitorioso, Lula montará novo ministério no próximo governo.

Os que saem serão coprotagonistas nas articulações tendo em mira construir frentes eleitorais em seus estados capazes de reforçar a luta pela reeleição do presidente. 

É a engrenagem da política eleitoral em nosso país.

Direita dividida x Lula? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_27.html 

Postei nas redes

"A oportunidade de vencer surge quando nos preparamos para ela." (Sun Tzu, A arte da guerra) 

Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html 

Enio Lins opina

Um presidiário cercado de luxo, privilégios e cumplicidades
Enio Lins      

EM MANCHETE na página de abertura, o portal globo.com publicou a seguinte pérola: “Moraes nega livre acesso de filhos à casa de Bolsonaro”. A platitude foi ao ar, com tremendo destaque, às 9h22 (sic) do sábado, 28. Reportagem com assinatura coletiva de Márcio Falcão, Gustavo Garcia, TV Globo e G1, redigida em Brasília. O destaque seguiu presente na tela inicial, em menor espaço, durante o domingão, 29. Numa boa.

GENTE, POR FAVOR: Jair B é um presidiário! A residência dele, numa generosidade excessiva do STF, foi convertida – provisoriamente – em carceragem. Tanto que o nome da benesse é “prisão domiciliar”. O ministro Alexandre de Moraes, atendendo às súplicas da defesa e dos familiares do condenado, concedeu o privilégio do apenado cumprir, da sua pena de 27 anos e três meses em regime fechado, 90 (noventa) dias no extremo conforto de sua mansão. Assim, o criminoso sobre o qual falamos está em cana. Em casa, mas devidamente preso, e as normas, no aconchego de seu lar, são iguais às normas de qualquer presídio Brasil afora. É isso, talkey? Filhos e demais familiares de Jair B que estejam soltos – por enquanto – não podem entrar e sair em ambientes prisionais quando bem entenderem. Não podem the Bolsonaro’s terem livre acesso – por exemplo – aos parceiros e amigos Ronnie Lessa, irmãos Brazão e Rodrigo Bacellar, atualmente encarcerados (em Bangu 8, se não me engano) por crimes diversos – os três primeiros, pelos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e o deputado (bolsonarista ex-presidente da ALERJ) por ligação com o Comando Vermelho.

TEM A MANSÃO DE JAIR B
 400 m² (quatrocentos metros quadrados) de área construída, dois andares, jardins, piscina, área de lazer privativa. Não é esse endereço um dos 101 imóveis adquiridos pelos Bolsonaros durante os recentes anos de fartura (desses, 50 foram comprados com dinheiro vivo, conforme as escrituras passadas em cartório). O domicílio seria alugado, dizem. Localizado no luxuoso Condomínio Solar de Brasília, por sua vez encravado no Jardim Botânico da Capital Federal, área verdejante cortada por ruas arborizadas, perímetro exclusivo, numa das mais aprazíveis e privilegiadas glebas urbanas do Brasil. Lembra o G1: “Entre 4 de agosto e 23 de novembro, Bolsonaro já cumpriu prisão domiciliar no condomínio Solar de Brasília (...). Ele foi transferido para a Superintendência da Polícia Federal em novembro após tentar violar a tornozeleira eletrônica que usava na domiciliar. E, dias depois, passou a cumprir [na Papudinha] a pena definitiva de 27 anos e 3 meses de prisão a que foi condenado pelo STF no inquérito da trama golpista”.

“COM 1.258 LOTES,
 o condomínio é tão extenso que foi dividido em três quadras: Solar de Brasília I, II e III. O urbanismo é semelhante ao dos condomínios em redor: lotes grandes, ruas internas arborizadas, guaritas com vigilância 24 horas e controle rígido de entrada e saída. Além disso, o conjunto oferece aos moradores e visitantes: ruas de bloquetes, avenidas pavimentadas e sinalizadas, pistas de caminhada, ciclovias, área de lazer com quadras para esportes, churrasqueiras, pista de skate, parquinhos, quatro igrejas cristãs de diferentes denominações, central de monitoramento de segurança, espaço de lazer para idosos” – assim descreve o G1 a ambiência do mito presidiário noutra reportagem, publicada em 27 de março, assinada por Ana Lídia Araújo, Fernanda Bastos e Ygor Wolf. Pergunta-se: é prisão ou premiação? Mas – provisoriamente – é uma Casa de Detenção e não uma Casa de Mãe Joana. Insisto: cadeias são locais nos quais não pode entrar e sair quem quiser na hora que quiser. Nem familiares, nem cúmplices. E no caso em tela – Zero Um, Zero Dois, Zero Três, Zero Quatro et caterva – são familiares/cúmplices que querem livre acesso a Zero Zero, o líder da quadrilha. Não dá, né?
 

Leia também: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html  

Palavra de poeta

Delírio
Cyl Gallindo     

Ando pelas ruas tendo vertigens.
Veementes delírios:
Rodam as casas,
as ruas unem seus vértices,
as pessoas voam
como papagaios de papel.

E os mendigos ficam mais altos,
aqueles que confidenciam o corpo ao chão.

Mantêm-se acima dos edifícios,
deitados no ar.
Seus corpos vazios,
suas almas vazias...(?)
Deitados naqueles edredões
de roupas velhas
recheados de poeiras.

Um manto listrado
(de vermelho e branco)
vem cobrindo o céu.
Outras estrelas
comem as estrelas do meu céu.

- Eu tenho céu?

- No meu delírio fica abaixo da terra,
ou na flor da terra,
ou no papo dos urubus.

Destes urubus que enfeitam o céu!

Lá está meu céu,
e de milhões de irmãos,
voando aos pedacinhos,
sob o manto,
vermelho e branco,
que lhes dá a festa.
Festa de minha fome,
da minha própria carniça!

Já comeram o Cruzeiro
e as Três Marias
(e tantas Marias e tantos Joãos)
e todas as estrelas inferiores
à ordem e progresso.

Só se mantém viva a Espiga,
desvirginada por Ursa Maior.
Essas estrelas não entram no céu,
porque camelo não passa em fundo de agulha.

Só entram os mendigos:
Os que não comem,
os que não vestem,
dormem no chão
e não se revoltam.

Suas almas vão aos céus:
esfaceladas,
aos pedacinhos,
nos vôos dos urubus,
que estão no céu
voando, voando...

Talvez meu delírio
seja o caminho desse céu!

[Ilustração: Jaime Lauriano]

Leia também: "Autobiografia", um poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_68.html 

31 março 2026

Minha opinião

Chapa Lula-Alckmin reafirma frente ampla
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Lula anunciou hoje, em reunião ministerial, a manutenção de Geraldo Alckmin na chapa que concorre à reeleição. Bom sinal. Não parecia haver razão para uma mudança.

É a reafirmação de que a Frente Ampla permanece como o pilar central de sustentação do atual projeto de governo.

Alckmin foi um adversário histórico da e possibilitou o posto de vice ao lado de Lula. No exercício do governo, mostrou sensato, equilibrado e produtivo. Ajudou no diálogo com segmentos econômicos que dão sustentação ao centro-direita. Ampliou possibilidades de gestão.

Neste instante, enquanto a extrema direita ainda não superou contradições e disputas, agora acentuadas com o lançamento de Ronaldo Caiado pelo PSD, a ampla coalizão que governa sinaliza para a opinião publica maturidade e equilíbrio. Isto é fundamental inclusive para o relacionamento com a Câmara dos Deputados e o Senado marcados por forte presença oposicionista.

Leia: Alianças híbridas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_30.html 

Humor de resistência

Guga

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Postei nas redes

Colunista do Estadão diz que Caiado, embora com intenção de voto menor no primeiro turno (cerca de 3,6%), possui a menor rejeição entre os principais candidatos, o que o torna um "agregador de votos de centro-direita". Análise superficial e precipitada de quem torce contra Lula. 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Máfia digital milionária

O gabinete das bets
Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso
Leandro Demori/Liberta      

Há algo de profundamente errado e perigosamente naturalizado no ecossistema digital brasileiro. Não se trata mais apenas de desinformação, nem de militância disfarçada de entretenimento. O que está em curso é mais sofisticado e vem turbinado por uma máfia bilionária, que não mede dinheiro para chegar aonde quer: uma engrenagem que mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso como se fossem meras espectadoras.

Perfis de fofoca com dezenas de milhões de seguidores abandonaram, sem qualquer constrangimento, o conteúdo que os tornou populares (o novo jet-ski da Ana Castela, o pet da Cláudia Leitte, o carrão do sertanejo do momento) para operar como canais de influência política. Não é uma guinada editorial espontânea, como mostrei no ICL Notícias esta semana. É um método financiado por uma bet de um conhecido “rei do tigrinho”, um esquema que atinge todos os dias dezenas de milhões de pessoas com propaganda anti-governo. Vem deste ecossistema, tenho certeza, parte relevante da corrosão da imagem do governo Lula.

A engrenagem funciona assim: páginas como a Alfinetei (25 milhões de seguidores, mais do que o padre Fábio de Melo) publicam ataques sistemáticos ao governo federal e promovem figuras da direita e da extrema direita, como Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Fazem isso enquanto exibem, sem pudor, a logomarca de casas de apostas. Entre elas, a 7games.bet, ligada a Fernando Oliveira de Lima, vulgo Fernandin OIG, “empresário” associado à expansão predatória do jogo do “Tigrinho” no Brasil e próximo de Ciro Nogueira. Foi Fernandinho que levou o senador para Mônaco. No jatinho do tigreiro, os amigos foram ver um GP de F1.

Esse mesmo perfil e outros como ele já haviam sido apontados por atuarem em campanhas coordenadas, envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, em ataques ao Banco Central do Brasil. Estava, como se diz, “no bolso do Vorcaro”, detonando a imagem do BC a pagamento. Agora, repetem o padrão: conteúdo político disfarçado de entretenimento, impulsionado por dinheiro publicitário de origem opaca. Enquanto corroem a imagem do governo e do BC, essas mesmas contas aplaudem Tarcísio de Freitas. Entre um pet e um carrão de luxo, elas encontram espaços para posts sobre a inauguração do Rodoanel em São Paulo.

E aqui entra o ponto central e talvez mais grave de todos: nada disso existiria sem as plataformas. O Instagram sabe quem são esses perfis. Sabe quem paga pelos anúncios, pois são perfis “verificados”. Sabe quais conteúdos são impulsionados e consegue “ver” o logotipo da bet nos posts. Sabe, inclusive, quando se trata de propaganda política – tanto que bloqueia campanhas de veículos jornalísticos sob esse pretexto, inclusive os documentários do ICL, alegando (falsamente) que se tratam de campanha política.

Mas, quando o dinheiro vem travestido de publicidade de apostas, quando o conteúdo político é embalado como fofoca, quando o ataque é lucrativo para os tech bros, a plataforma não apenas permite, ela monetiza e se associa ao crime. Cada curtida, cada comentário indignado, cada compartilhamento amplifica não só a mensagem, mas o faturamento das empresas. As plataformas recebem sua parte. São intermediárias financeiras dessa engrenagem.

Quando uma rede social aceita dinheiro para impulsionar conteúdo político disfarçado, financiado por agentes com interesses diretos no debate público, ela deixa de ser uma infraestrutura neutra e passa a ser um agente econômico do processo. Sócia, ainda que indireta, do resultado.

E o resultado está aí: distorção do debate público, manipulação de percepção, artificialização de popularidade política e muito, muito dinheiro. No ICL N1, mostramos uma tabela de preços. Cada posts pode chegar a custar 40 ou 50 mil reais. São milhares de posts por ano que tornaram perfis de fofoca uma espécie de cabos eleitorais do submundo. É o gabinete das bets. Casas de aposta viram financiadoras de discurso e plataformas de redes sociais viram o caixa registrador de tudo isso.

Há uma pergunta que precisa ser feita com clareza, sem rodeios: por que o Instagram bloqueia a promoção de documentários jornalísticos, mas permite (e lucra com) campanhas políticas disfarçadas, pagas por empresas envolvidas em controvérsias ou até mesmo em crimes?

Alguma esperança poderia residir no TSE. O tribunal eleitoral poderia, por exemplo, derrubar as contas. Será? Acontece que no fundo do poço tem um alçapão, mais precisamente um episódio exposto na CPI das Bets que adiciona uma camada surreal ao debate público. Fernandin OIG admitiu ter dado carona em seu jatinho (o mesmo que levou Ciro Nogueira) ao ministro do STF Kassio Nunes Marques para uma viagem à Grécia, onde ambos participariam de uma festa do cantor Gusttavo Lima.

Segundo OIG, trata-se de uma “amizade antiga, nascida no Piauí”. O episódio – revelado sob indagação do senador Alessandro Vieira na CPI das Bets – levanta claros questionamentos óbvios sobre a proximidade entre figuras com interesses econômicos relevantes e membros da mais alta Corte do país, mas não acaba aí: Nunes Marques assume a presidência do TSE (que poderia acabar com o gabinete das bets) em junho deste ano.

Pois é.
Dá pra rir ou chorar.
Escolha aí.
Talvez nem faça diferença.

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Postei nas redes

Minas gerais concentra 11% dos votos de todo o país. É o segundo colégio eleitoral após São Paulo. Toda habilidade é necessária para construir uma alternativa eleitoral que beneficie a reeleição do presidente Lula. 

Alianças de quem com quem? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/fator-de-instabilidade.html 

Solidariedade a Cuba

Rússia fura bloqueio e leva petróleo a Cuba
Solidariedade internacional ignora Trump e alivia crise energética na ilha por 10 dias
Davi Molinari/Vermelho   

A chegada do petroleiro russo Anatoly Kolodkin ao porto de Matanzas, neste domingo (29), marca um ponto de inflexão na pressão econômica exercida pelos Estados Unidos contra a ilha caribenha. Carregada com aproximadamente 730 mil barris de petróleo bruto, a embarcação russa atracou em porto cubano após recuo do governo de Donald Trump, que declarou publicamente “não ver problemas” no envio de combustível para fins humanitários. 

O movimento ocorre em um cenário de severa crise energética em Cuba, agravada pela interrupção dos suprimentos venezuelanos e pelo endurecimento das sanções de Washington desde janeiro de 2026. A carga russa é estimada como suficiente para suprir a demanda de diesel por cerca de dez dias, garantindo o funcionamento de hospitais e do transporte público. 

O recuo de Washington e a Ordem Executiva 

Em 29 de janeiro, a Casa Branca estabeleceu uma Ordem Executiva de emergência nacional, autorizando tarifas retaliatórias contra países que fornecessem petróleo a Cuba. No entanto, diante do agravamento das condições de vida na ilha e de uma conjuntura internacional de crescente contestação às políticas de sanções unilaterais, Trump foi obrigado a recuar também nesta frente. 

Embora a Ordem Executiva permaneça vigente no que tange a barreiras comerciais de longo prazo, o presidente estadunidense modificou verbalmente a diretriz para permitir este envio específico, priorizando necessidades básicas e serviços essenciais. A Guarda Costeira dos EUA, que monitora a região com navios patrulha (cutters), não interferiu na trajetória do Anatoly Kolodkin.

Uma Rede Global de Solidariedade 

O aporte russo não é uma ação isolada, mas parte de uma união internacional que busca mitigar o impacto do bloqueio sobre a população cubana. O governo chinês de Xi Jinping oficializou a doação de 60 mil toneladas de arroz, das quais 15.600 toneladas já desembarcaram em Havana em março. O pacote inclui ainda uma assistência financeira de US$ 80 milhões destinada à recuperação econômica. 

O coordenador residente da ONU em Cuba, Francisco Pichón, apresentou um plano de emergência de US$ 94,1 milhões. O projeto foca na importação de combustível com rastreabilidade total para manter serviços de saúde e saneamento em oito províncias, beneficiando cerca de 2 milhões de pessoas. 

A caravana Nuestra América — uma iniciativa de ONGs, centrais sindicais, entidades de direitos humanos e partidos políticos —, com apoio de ativistas de mais de 30 países, entregou em março 20 toneladas de ajuda humanitária. 

O destaque do carregamento foi a doação de 73 painéis solares e geradores, avaliados em US$ 500 mil, voltados para a autonomia energética de centros médicos. A secretária de Relações Internacionais do PCdoB, Ana Prestes, que também participou da missão, descreveu a situação da ilha provocada pelo bloqueio norte-americano como “guerra sem bombas”.

Solidariedade Internacional 

O Kremlin, por meio do seu Ministério dos Transportes, reiterou que os suprimentos enviados a Cuba possuem caráter humanitário e condenou as tentativas de “sufocamento” econômico da ilha. Em Cuba, o presidente Miguel Díaz-Canel tem enfatizado a resiliência do país diante de um hiato de três meses sem importações regulares de combustível. 

A convergência de esforços entre potências como Rússia e China, aliada a mecanismos multilaterais da ONU e a movimentos de solidariedade da sociedade organizada, demonstra que o isolamento pretendido pela política externa de Washington enfrenta limites práticos e éticos diante da iminência de um colapso humanitário na região.

"O erro de cálculo do século: aventura de Trump no Irã" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/inconsequencia-norte-americana.html

Dica de leitura


O livro "Arraes", de Tereza Rozowykwiat, publicado em 2006 pela Editora Iluminuras, é a das sensível e circunstanciada do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes.

O texto aborda a trajetória de Arraes desde suas origens no Ceará até sua ascensão em Pernambuco. Relata os acontecimentos de 1º de abril de 1964, destacando a postura altiva do então governador ao se recusar a renunciar ao cargo com o Palácio das Princesas sob cerco militar; o retorno ao Brasil com a Lei da Anistia em 1979, o movimento que o reelegeu governador por duas oportunidades 1986 e 1994.

Uma leitura sempre necessária e oportuna.

O mundo gira. Saiba mais https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Palavra de poeta

Assim vejo a vida
Cora Coralina   

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

[Ilustração Chris Cisneiros]

Leia também: "Bolas de vidro", poema de Cida Pedrosa  "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_63.html 

30 março 2026

Arte é vida

 

Sophia Heeres

Graça Graúna: "Geografia do poema" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_69.html 

Postei nas redes

Ronaldo Caiado é confirmado pré-candidato pelo PSD e diz que primeiro ato na Presidência será anistia a Bolsonaro. Desde quando isso é "terceira via"? 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Misoginia & negócios digitais

Machosfera e ódio às mulheres como modelo de negócio
Influenciadores do ódio faturam milhões e prometem vida endinheirada aos seguidores
Nina Lemos/Liberta   

Quem quer ser um milionário? “Aprenda a fazer seu primeiro milhão”. Esse tipo de promessa é atraente desde que o capitalismo é capitalismo e já seduziu muita gente para golpes e promessas vazias.

Mas, agora, o buraco está mais embaixo. Silvio Santos, que perguntava “Quem quer dinheiro?”, parece até inocente.

Alguns homens, principalmente os jovens, têm um novo plano de riqueza: seguir os passos de  influenciadores da chamada “machosfera” (ambiente virtual que reúne red pills e outras variedades de misóginos) e, assim, alcançar dinheiro, fama e, por consequência, mulheres. Para esses influenciadores, é assim que funciona, já que “mulheres só querem saber de dinheiro”.

Para quem os segue, eles vendem a possibilidade de alcançar uma vida  parecida com a deles: cheias de luxo, carros esportivos, mulheres bonitas, propriedades em Miami e Dubai.

Não é novidade para quem se debruça sobre o tema que odiar as mulheres é hoje um negócio lucrativo. Os influenciadores do ódio faturam milhões. O que muitas vezes passa batido é que eles prometem a mesma vida endinheirada para seus seguidores. Uma fórmula que pode parecer irresistível para muitos homens insatisfeitos.

Se você quer sentir o quanto o dinheiro é farto e importante na cena red pill, vale assistir ao documentário Por Dentro da Machosfera, disponível no Netflix. Ali, fica claro como a promessa de uma vida de riqueza e ostentação pode ser uma porta de entrada para meninos nesse mundo perigoso (principalmente para as mulheres, vítimas).

Com esses influenciadores, jovens aprendem que odiar mulheres é um negócio lucrativo. Tudo funciona por exemplos e modelos, sabemos.

Se você tiver estômago para ouvir os principais podcasts red pills do Brasil, como o Red Cast, vai ver que boa parte da conversa ali é sobre relógios caros, carros importados, apartamentos de 200 metros quadrados e outros bens de luxo que eles dizem, com orgulho, possuir. O resto do tempo é usado para exaltar homens como Donald Trump, subjugar mulheres e falar “assuntos de homem”. Se eles estão ricos e falam disso com tanta naturalidade, seus seguidores acham que também podem ficar.

O ódio a mulheres é um modelo de negócios. Como resultado, temos essa tragédia que vemos todos os dias. Um dia, um grupo de um colégio progressista de São Paulo troca mensagens com a lista das meninas “mais estupráveis”. No outro, um policial é acusado de feminicídio e, nas mensagens que trocava com a mulher, a polícia encontra recados onde o homem, o tenente-coronel Geraldo Neto, se denominava um “macho alfa” e dizia que a mulher precisava se comportar como uma “mulher beta”, um discurso totalmente alinhado com o dos red pills.

É claro que a cultura difundida pela machosfera não é a única culpada pelo momento trágico que vivemos. Mas faz parte do caldo. Vamos lembrar também que homens com perfil red pill, como Trump, foram eleitos e governam os países mais poderosos do mundo. O presidente dos EUA é um exemplo clássico de um homem da machosfera. Vende a imagem do “self made man”, do que desafia o “sistema” (seja lá o que seja isso) e é abertamente misógino.  O ódio a mulheres, veja só, ajuda a ganhar dinheiro e eleições.

E a raiva das mulheres?

E nós mulheres? Como ficamos? A gente fica com raiva, claro, já que somos vítimas dessa guerra. Só que a nossa raiva não é lucrativa. Pelo contrário. Mulheres com raiva são vistas como “mal comidas”, mal amadas e por aí vai. A única raiva que somos autorizadas a sentir é a raiva de nós mesmas, aquela que nos leva a nos submetermos a regimes de fome e a ficarmos caladas por acharmos que “não somos capazes”.

Quando nossa raiva é do mundo e do atual estado péssimo das coisas, ela não é bem vista.

Mesmo sendo vítimas da guerra atual (em 2025, 1568 mulheres morreram assassinadas por feminicídio no Brasil, o maior número em dez anos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública), temos que mostrar a nossa indignação com suavidade. Se não, estamos “afastando os homens da conversa” (ou seja, continuamos sendo obrigadas a agradá-los). A gente é vítima do ódio (literalmente, muitas de nós morrem), mas, quando manifestamos nossa revolta, não somos bem vistas.

A nossa raiva não monetiza. Como jornalista, já ouvi mais de uma vez que nós, que cobrimos pautas “femininas”, estávamos “sempre com muita raiva” ou “sempre gritando”. A raiva feminina, pelo que entendi em muitos anos, afasta anunciantes e público. Será mesmo? Ou será que essa é mais uma desculpa para nos manter obedientes?

Conselho para as mulheres: continuem com raiva. Como diria uma antiga música punk: a raiva é uma energia.

[Foto: Marcelo Camargo/Liberta]

Violência contra as mulheres é estrutural https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/violencia-sexista_19.htm