22 abril 2026

Uma crônica de Enio Lins

Dias de feriar, dias de estudar e trabalhar com a história
Enio Lins    

BEM QUE 21 E 22 DE ABRIL poderiam germinar como feriados geminados. Oficialmente. Apesar da paixão nacional pelos feriadões, isso não aconteceu oficialmente até agora. Mas o “imprensamento” da segunda-feira, 20, possibilitou quatro dias de folga neste ano de 2026. Aproveitando a deixa, vamos comentar algo sobre essas duas datas.

TIRADENTES
 é digno de mais homenagens, e mais estudos. Provavelmente terá sido em vida um personagem sem a relevância desejada e expressada nas crônicas post mortem. Mas é personagem indiscutivelmente importante, complexo, exemplar do inconformismo e da coragem brasileira, ao arriscar postos sociais destacados – oficial militar e dentista prático – numa sociedade colonial que oferecia pouquíssimas oportunidades. Arriscou, não se acovardou. Perdeu as posições, as poucas propriedades que tinha, e a vida. É merecedor de mais que um feriado.

MAIS ATENÇÃO 
merece o achamento do Brasil. A romantizada narração oficial é típica de uma Europa que cambiava da Idade Média para a Idade Moderna, e dos esforços de dois reinos vizinhos, rivais e aliados de acordo com o momento – Espanha e Portugal – em avançarem como protagonistas nas disputas contra estados-nações mais poderosos, mas que ignoravam o papel de um universo desconhecido, supostamente incivilizado, num cenário onde a invasão e o saque de civilizações menos armadas era a regra. As possibilidades da prata, do ouro e outros produtos valorizados (como o pau-brasil) existentes no outro lado do Atlântico justificaram aos ibéricos o refazer roteiros antigos, desbravados e abandonados, ainda no século X, por povos como os vikings.

É A CONJURAÇÃO MINEIRA
 um tema para se aprofundar. Não pretendeu tornar o Brasil independente, e sim construir uma república apenas em Minas Gerais. Apesar de se inspirar na Independência dos Estados Unidos, o plano não possuiu largueza nacional. Na América do Norte foram 13 as unidades coloniais que se rebelaram – unidas – contra a metrópole. Não teve também a Inconfidência o apoio popular que caracterizou a revolução estadunidense. Essa distinção se percebe ao comparar o pensado para Vila Rica no dia em que fosse decretada a “derrama”, com a “Festa do Chá em Boston” (Boston Tea Party). A revolta norte-americana, em dezembro de 1773, foi gesto imaginado para se irradiar muito além da colônia de Massachusetts. Mas é a Inconfidência Mineira – assim como a rebelião recifense de 1817, malgrado o elitismo e o desenraizamento popular de ambas – um movimento essencial para a compressão do país que estamos construindo até hoje.

PERO VAZ DE CAMINHA,
 ao lavrar a certidão de nascimento do Brasil, cravando 22 de abril de 1500, em Porto Seguro, deu fé pública – como todo tabelião tem o mister de fazer – a um acontecimento que pode não ter sido bem assim. As teses de que o Brasil teve achamentos outros não alteram esses marcos, consolidados depois de 526 anos. Mas são hipóteses que devem ser esmiuçadas com paixão e critério. A chegada do espanhol Vicente Yáñez Pinzón ao Cabo de Santo Agostinho (Pernambuco) em 26 de janeiro de 1500 é dada como certa pelas enciclopédias Britânica e Barsa. Por sua vez, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte publicaram, em 2025, estudos afirmando que Cabral teria alcançado o litoral potiguar na altura do rio Punaú. Por nossa vez, Jayme de Altavila, em seu livro “História da Civilização Alagoana”, de 1938, apresentou tese – baseada nos relatos do cientista alemão Alexander von Humboldt (que visitou e estudou a América Latina, entre 1799 e1804) – indicando o ponto da descoberta de Pedr’Alvares como a 10º de latitude sul, ou seja, no litoral alagoano, nas imediações da praia de Coruripe.

TEMOS, PORTANTO,
 que dar muito mais atenção aos dias 21 e 22 de abril, independentemente de feriá-lo-emos ou não.

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O Agente Secreto tratou o Recife como se fosse Paris https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/o-filme-e-cidade.html 

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