À sua imagem e semelhança
No futuro, cada um poderá ser o deusinho de seu
próprio mundo. Graças ao 'prompt' a minha amiga pode se vestir como quiser
Antonio Prata/Folha
de S. Paulo
Uma amiga manda três fotos, com três roupas, "qual você sugere pro meu LinkedIn?". Antes de reparar nas roupas, respondo impressionado: "Como você conseguiu exatamente o mesmo ângulo e a mesma cara nas três fotos?". "É IA." Ela pegou uma foto em que estava bonita e pediu: "Um vestido preto básico, braços à mostra". "Camiseta branca, gola rulê." "Uma blusinha bege, colar verde com pingentes."
Essas ordens,
eu não sabia, se chamam "prompt". "Prompt" é o pedido que
você faz pra inteligência artificial criar algo. "Quero um urso azul com
cara de bonzinho dançando lambada e comendo um cachorro-quente na quadra da
Portela." "Quero Einstein lutando MMA com Leonardo da
Vinci na praça Benedito Calixto."
A máquina faz.
Faz tudo errado no começo, porque ela ainda é mais artificial do que
inteligente, mas quanto mais você afina o "prompt", mais ela afina a
resposta. Minha amiga, depois de alguns "prompts" tava pronta nas
três fotos —embora na última estivesse com três orelhas. Bugs que logo serão
consertados.
Fiquei
pensando: hoje minha amiga pode se vestir como quiser numa foto pro LinkedIn.
Daqui a pouco, quando todos usarem óculos ou lentes de contato da Meta ou da Open IA, não será apenas nas fotos que nos
vestiremos como quisermos, mas aos olhos (ou às lentes) dos outros. Imagino um
casamento.
Tem que ir de
terno. Detesto vestir terno. Vou de bermuda, regata e pantufas. Mas programo
minha IA para emitir pras IAs alheias um terno muito chique –e é assim que
todos me verão no casamento.
A não ser, é
claro, que algumas pessoas tenham filtros em suas IAs visuais. Digamos que meu
amigo Rodriguêra, com quem eu andava de skate na adolescência, se recuse a ver
qualquer pessoa de terno. Ele é contra terno. Odeia terno. Tem "skate or
die" tatuado no peito. Decidiu viver num mundo sem ternos. Suas lentes
mudarão as roupas de todos que ele cruzar para as que mais lhe agradarem.
Rodriguêra é palmeirense roxo. (Verde, no caso).
Pode programar a ferramenta para, em dias de jogos do Palestra, ver todo mundo
que olhar com roupas do Palmeiras. O papa com camisa do Palmeiras.
A Monalisa com
a camisa do Palmeiras. Jesus, na cruz, com uma tanguinha do Palmeiras. E pode
ver todos os são-paulinos (sua IA saberá quem é são-paulino, a não ser que a IA
dos são-paulinos tenham filtros) com focinhos e chifres de Bambi.
Talvez haja um
filtro nos óculos e lentes da IA, lei do país, que proíba a programação para
ver todos os são-paulinos de Bambi, pois seria considerado homofobia. Talvez este filtro converta
automaticamente todos os são-paulinos que o Rodriguêra quisesse ver
transformados em Bambi numa mensagem "A homofobia é crime hediondo,
procure ajuda".
Pode ser que
as lentes da IA puxem, a partir desse alerta anti-homofobia, vários stand-ups
homofóbicos ou anti-woke. Pode ser que a pessoa seja processada pelo que os
algoritmos a fizeram ver, afinal, os algoritmos são um chorume de tudo o que
ela pensa.
Conto pro
Márcio, meu amigo, essa visão de futuro. Ele discorda. As pessoas não quererão
ver todo mundo numa festa com as roupas que ela gosta. As pessoas querem ser
surpreendidas, ver coisas diferentes, aprender. Infelizmente, discordo. O
primeiro "prompt", o "prompt" mais eficiente da história da
humanidade, dizia que Deus nos fez à sua imagem e semelhança.
Com nossos
óculos ou lentes "inteligentes", poderemos enxergar o mundo à nossa
"imagem e semelhança". Cada um pode ser o deusinho de seu próprio
mundo. Enxergar só o que quiser. Da forma que quiser. Igualzinho a si. Pensando
bem, é exatamente como já é. Só com melhor tecnologia.
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