25 abril 2026

"Caminhada dos Cravos"

A cidade que não recua: há 17 anos Niterói marcha contra o fascismo
Evento se inspira na Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, que derrubou a ditadura salazarista em Portugal
Leonardo Giordano/Revista Forum      

Há 17 anos, Niterói realiza uma experiência política singular. Todos os anos, a cidade ocupa suas ruas com uma “Caminhada dos Cravos”, mobilização pública, aberta e coletiva, que afirma, na prática, valores socialistas: solidariedade, organização popular, justiça social e compromisso com a transformação da realidade. Trata-se de uma construção contínua, feita a céu aberto, onde o povo que vem se reconhece como sujeito político, participa e reafirma que a democracia só existe quando é vivida, disputada e sustentada coletivamente.

Essa mobilização tem origem em uma referência histórica que atravessou fronteiras e ganhou novo sentido no território. A Revolução dos Cravos, ocorrida em 25 de abril de 1974, foi um levante militar e popular que pôs fim à ditadura salazarista em Portugal e abriu caminho para a redemocratização do país. Em 2026, esse marco completa 52 anos e permanece como uma das mais potentes referências de ruptura democrática construída a partir da ação coletiva, quando o povo ocupou as ruas e decidiu intervir diretamente nos rumos da história. É essa experiência que inspira, orienta e atualiza, no presente, a Caminhada dos Cravos em Niterói. 

Ao caminhar juntos, não ocupamos apenas o espaço físico das ruas. Ocupamos a história, reabrimos caminhos e lembramos ao tempo que ele também pode florescer. A Caminhada dos Cravos se consolidou, ao longo dessas quase duas décadas, como um espaço de encontro, mobilização e construção política, onde memória e ação se entrelaçam e produzem sentido coletivo.

Em um país marcado por ciclos de desmobilização, a permanência dessa iniciativa por 17 anos revela a existência de um campo social ativo, que se organiza, ocupa as ruas e sustenta a defesa da democracia como prática cotidiana. A caminhada foi realizada em conjunturas muito difíceis como a época do impeachment de Dilma, a prisão de Lula e os anos de Bolsonaro, sem interrupções.

Não por acaso, a Caminhada dos Cravos se sustenta em valores que historicamente estruturam o campo socialista: a centralidade do coletivo, a organização popular e a ideia de que a transformação social direta, é construída. É nesse terreno que a democracia deixa de ser apenas forma institucional e passa a ser prática concreta de igualdade e camaradagem.

Essa ação anual nos conecta a uma das imagens mais potentes da história contemporânea. Os cravos vermelhos, colocados nos fuzis dos soldados em Portugal, se tornaram símbolo de uma ruptura histórica conduzida sem a lógica da violência e baseada na ação coletiva.

Os cravos naquela revolução simbolizavam uma decisão política consciente de retirar da violência o controle sobre o destino do povo e devolver à sociedade a liberdade. A afirmação de que a paz não é passividade, mas ação organizada contra a violência com método.

A praça pública transforma a política em prática viva, rompe o isolamento imposto pelo medo e faz chamado à luta para devolver ao povo a condição de protagonista da história. Cada passo coletivo é um gesto de resistência e uma afirmação de que a luta só se sustenta com participação, organização e disposição para defendê-la.

O Brasil conhece o peso do autoritarismo. Sobreviveu a uma ditadura e a governos autoritários que perseguiram, censuraram e tentaram silenciar gerações inteiras. Sobreviveu porque houve resistência. E é essa mesma disposição que segue sendo exigida no presente. Mesmo após a redemocratização, o país nunca deixou de conviver com tentativas recorrentes de ruptura, o que revela que a democracia brasileira é uma construção permanente, marcada por conflitos e disputas.

Hoje, esse cenário se intensifica. O país atravessa um novo ciclo eleitoral em que forças autoritárias voltam a disputar espaço com intensidade. O fascismo reaparece adaptado às linguagens contemporâneas, operando pela desinformação, pela normalização da violência e pela tentativa de deslegitimar instituições e direitos. Trata-se também de uma disputa de sentidos. De um lado, projetos que operam pela exclusão, pela violência e pela desinformação. De outro, práticas coletivas que reafirmam a democracia como construção social e cultural.

Em abril, os cravos voltam a brotar novamente em Niterói. Não apenas nas mãos, mas na coragem de quem não se rende, na esperança de quem insiste e na luta de quem sabe que um outro mundo não é sonho, é construção. Há um fio vermelho que não se rompe, o fio da dignidade, da rebeldia e do povo organizado que transforma medo em movimento. No próximo dia 26, estaremos em marcha!

Leonardo Giordano é vereador de Niterói e presidente da Comissão de Cultura e Patrimônio da Câmara Municipal. Ex-secretário das Culturas do município, é também o idealizador da marcha, iniciativa que reafirma seu compromisso com a cultura como direito e com a ocupação das ruas como expressão de democracia e resistência.

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