04 abril 2026

Subserviência desavergonhada

Patriotismo de propaganda e soberania em liquidação
Flávio Bolsonaro vai aos Estados Unidos e põe o Brasil à venda
Ricardo Mello/Liberta   

Há momentos na história de um país em que uma fala revela mais do que um programa inteiro de governo. Não porque seja detalhada, técnica ou sofisticada, mas porque é direta demais. Transparente demais. Sem disfarce. A declaração de Flávio Bolsonaro, feita em solo americano, de que o Brasil pode ser a “solução” para os Estados Unidos na disputa por minerais estratégicos contra a China é um desses momentos.

Ali, diante de uma plateia estrangeira, não houve ambiguidades. Não houve cautela diplomática. Não houve um esforço mínimo de revestir o discurso com a linguagem da soberania ou do interesse nacional. O que se viu foi a apresentação do Brasil como fornecedor de riqueza estratégica para uma potência estrangeira. Um país que se oferece sem impor qualquer contrapartida ou condição para impulsionar o desenvolvimento nacional.

E é aqui que a frase de Flávio ganha densidade histórica. Porque não se trata de um episódio isolado, um deslize. É a continuidade de um projeto de poder do bolsonarismo. O senador está prometendo terminar o que Paulo Guedes começou.

Relação de subordinação

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o então ministro da Economia conduziu um dos processos mais agressivos de abertura e desmonte de ativos estratégicos do Estado brasileiro. Refinarias da Petrobras foram vendidas. A política de preços foi alinhada ao mercado internacional, mesmo com produção interna abundante. Empresas públicas foram colocadas na vitrine. O discurso era sempre o da eficiência, modernização e integração ao mercado global.

Mas, por trás dessa narrativa, havia uma escolha política muito clara: reduzir a capacidade do Brasil de controlar seus próprios recursos e ampliar o espaço para grandes grupos econômicos internacionais, muitos deles sediados, justamente, nos Estados Unidos.

O que Flávio faz agora é retirar o véu dessa estratégia. Ao falar de terras raras, minerais fundamentais para a indústria tecnológica, militar e energética, ele não está apenas reconhecendo a importância do Brasil no cenário global. Ele está sinalizando disposição para alinhar esses recursos aos interesses dos EUA e dizendo, com todas as letras, que o Brasil pode ser peça de reposicionamento geopolítico dos Estados Unidos.

O grande problema é que a proposta da extrema direita para os EUA não é uma parceria entre iguais, é subordinação. Nenhum país soberano apresenta suas riquezas estratégicas dessa forma. Nenhum líder comprometido com a soberania e o desenvolvimento nacional vai ao exterior oferecer recursos naturais como solução para outro país. Países desenvolvidos protegem seus ativos, regulam seu acesso, negociam com base em interesse próprio e, sobretudo, mantêm controle sobre cadeias produtivas estratégicas.

O Brasil, sob essa lógica apresentada por Flávio Bolsonaro, faria o oposto: renunciaria ao controle, entregaria valor agregado e se posicionaria como fornecedor de matéria-prima numa disputa que não é sua.

No palco do CPAC, Flávio falou como um americano, com um discurso alinhado. Não se trata apenas de afinidade ideológica com o trumpismo ou com setores da extrema direita americana. Trata-se de uma aderência perfeita ao que os próprios Estados Unidos desejariam ouvir. Se um político americano subisse ao palco para defender os interesses industriais e estratégicos dos EUA, dificilmente construiria uma narrativa tão conveniente quanto a apresentada por Flávio Bolsonaro.

Escolha de modelo de país

É por isso que a fala repercute com tanta força no Brasil. Não apenas pela oposição política (que, rapidamente, apontou o risco de “entreguismo”), mas porque toca num nervo histórico da formação econômica brasileira: a tensão permanente entre desenvolvimento autônomo e dependência externa. Desde o período colonial, passando pela industrialização tardia e chegando à inserção contemporânea na economia global, o Brasil oscila entre projetos que buscam construir soberania e projetos que aceitam ou até promovem uma posição subordinada no sistema internacional.

O bolsonarismo, nesse sentido, não inaugura essa lógica. Mas a radicaliza. Ao se apresentar como patriótico, enquanto defende abertura irrestrita de ativos estratégicos, ele produz um fenômeno curioso: um nacionalismo de discurso e uma prática de subordinação. Uma retórica inflamada sobre soberania, acompanhada de decisões que a enfraquecem.

Flávio Bolsonaro, ao falar nos Estados Unidos, sintetiza esse paradoxo. Ele fala em nome do Brasil, mas organiza seu discurso a partir das necessidades de outro país. Ele se apresenta como defensor da nação, mas oferece seus recursos como solução externa. E isso tem consequências concretas.

Entregar o controle de minerais estratégicos não é apenas uma decisão econômica, é uma decisão sobre o futuro industrial, tecnológico e geopolítico do país. É renunciar a cadeias produtivas de alto valor, e aceitar um lugar de fornecedor de insumos brutos na divisão internacional do trabalho. É, em última instância, abdicar de um projeto de desenvolvimento.

Por isso, o debate que se abre não é apenas eleitoral. Não se trata apenas de disputa narrativa entre governo e oposição. Trata-se de uma escolha de modelo de país. De um lado, a ideia de que o Brasil deve controlar suas riquezas, agregar valor, negociar em pé de igualdade e construir autonomia estratégica. De outro, a proposta cada vez menos disfarçada de integração subordinada, em que recursos naturais são moeda de troca para alinhamento político e apoio internacional para que a extrema direita retorne ao poder.

Flávio Bolsonaro, ao discursar no exterior, deixou claro de que lado está. E ao fazê-lo, revelou que o projeto de destruição do Estado brasileiro, iniciado por Paulo Guedes, não terminou.

Ele apenas aguarda continuidade. A diferença é que agora, sem o verniz técnico e com menos preocupação em disfarçar intenções, a proposta aparece em sua forma mais explícita: o Brasil como solução para outros. Nunca para si mesmo.

Direita dividida x Lula? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_27.html

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