John Maynard Keynes e os mistérios do dinheiro
A incerteza radical e
o comportamento financeiro moldam decisões de investimento além dos modelos
matemáticos
Manfred Back & Luiz
Gonzaga Belluzzo*
Em um seminário realizado sobre o livro Teoria geral, do juro,
do emprego e da renda na Universidade de Campinas, um dos escribas
desse artigo teve contato com a grande economista inglesa Joan Robinson,
professora em Cambridge.
Conseguiu através dela o contato de John Maynard Keynes, que topou fazer
uma entrevista por e-mail. Nesse artigo, vamos destacar alguns pontos dessa
entrevista histórica, sobre um dos capítulos fundamentais da Teoria
geral, o capítulo XII – “O estado da expectativa a longo prazo”.
Nesse capítulo John Maynard Keynes nos brinda com a psicologia,
incerteza, estado de confiança, limitação da matemática e importância da
liquidez e o mercado financeiro.
Lord Keynes, ao sair em 1944, da reunião de Bretton Woods foi
visionário, ao declarar: I am not a Keynesian (Eu não sou
keynesiano), quando percebeu que os ditos keynesianos estavam transformando sua
teoria em dogma, ficando marcado como o economista do estímulo de déficit. Essa
banalidade não considera que John Maynard Keynes rompeu com as simplificações
da ortodoxia.
1.
Nós: Prezado Lord, hoje vemos o predomínio da escola de expectativas
racionais, onde as expectativas são formalizadas estatisticamente e
matematicamente. Você, que é um grande matemático e estatístico, como vê essa
crença de reproduzir dados do passado para prever o futuro?
John Maynard Keynes: “É, portanto, razoável que nos deixemos guiar, em
grande parte, pelos fatos que merecem nossa confiança, mesmo se sua relevância
para os resultados esperados for menos decisiva do que a de outros fatos a
respeito dos quais o nosso conhecimento é vago e limitado. Por essa razão, os
fatos atuais desempenham um papel que, em certo sentido, podemos julgar
desproporcional na formação de nossas expectativas a longo prazo, sendo que o
nosso método habitual consiste em considerar a situação atual e depois
projetá-la no futuro, modificando-a apenas na medida em que tenhamos razões
mais ou menos definidas para esperarmos uma mudança”.
John Maynard Keynes: posso me alongar nessa questão? Nós:com certeza!
John Maynard Keynes: “O estado da expectativa a longo prazo, que serve
de base para as nossas decisões, não depende, portanto, exclusivamente do
prognóstico mais provável que possamos formular. Depende, também, da confiança
com a qual fazemos este prognóstico – na medida em que ponderamos a
probabilidade de o nosso melhor prognóstico revelar-se inteiramente falso”.
Nós: o que deve ser observado com profundidade?
John Maynard Keynes: “Nossas conclusões devem fundamentar-se,
principalmente, na observação prática dos mercados e da psicologia dos
negócios”.
Nós: por quê? Mesmo com computadores, banco de dados?
John Maynard Keynes: “O fato de maior importância é a extrema
precariedade da base do conhecimento sobre o qual temos que fazer os nossos
cálculos das rendas esperadas. O nosso conhecimento dos fatores que regularão a
renda de um investimento alguns anos mais tarde é, em geral, muito limitado e,
com frequência, desprezível. Se falarmos com franqueza, temos de admitir que as
bases do nosso conhecimento para calcular a renda provável dentro de dez anos de
uma estrada de ferro, uma mina de cobre, uma fábrica de tecidos, a aceitação de
um produto farmacêutico, um navio transatlântico ou um imóvel no centro
comercial de Londres pouco significam e, às vezes, a nada levam”.
2.
Nós: sentimos uma tentativa contemporânea de parte dos economistas de
quererem reinventar a roda. A moda é caracterizar tudo como financeirização,e
na formação binária da corrente majoritária nos cursos de economia, essa coisa
de lado real x lado monetário. E um total desconhecimento da importância do
mercado financeiro como elemento constituinte do sistema. Estamos corretos?
John Maynard Keynes: “Mas a bolsa de valores reavalia, todos os dias, os
investimentos e estas reavaliações proporcionam a oportunidade frequente a cada
indivíduo (embora isto não ocorra para a comunidade como um todo) de rever suas
aplicações. É como se um agricultor, tendo examinado seu barômetro após o café
da manhã, pudesse decidir retirar seu capital da atividade agrícola entre as
dez e as onze da manhã, para reconsiderar se deveria investi-lo mais tarde,
durante a semana”.
Nós: Lord, no seu entendimento avaliações diárias a respeito da
liquidez, podem interferir e mudar as expectativas de investimento?
Keynes: “Todavia, as reavaliações diárias da bolsa de valores, embora se
destinem, principalmente, a facilitar a transferência de investimentos já
realizados entre indivíduos, exercem, inevitavelmente, uma influência decisiva
sobre o montante do investimento corrente. Isso porque não há sentido em criar
uma empresa nova a um custo maior quando se pode adquirir uma empresa similar
existente por um preço menor, ao passo que há indução a aplicar recursos em um
novo projeto que possa parecer exigir uma soma exorbitante, desde que esse
empreendimento possa ser liquidado na bolsa de valores com lucro imediato”.
Nós: Lord, ao longo do capítulo XII, nos indica que devemos ter
humildade para fazer previsão futuro e que a incerteza não é exata, como creem
muitos economistas?
John Maynard Keynes: “Os resultados reais de um investimento, no
decorrer de vários anos, raras vezes coincidem com as previsões originais.
Também não podemos racionalizar a nossa atitude argumentando que para um homem
em estado de ignorância, os erros em qualquer sentido são igualmente prováveis
e que, portanto, subsiste uma esperança estatística baseada em probabilidades
iguais. Isso porque podemos facilmente demonstrar que a hipótese de
probabilidades aritmeticamente iguais, baseada em um estado de ignorância,
conduz a absurdos… o mercado estará sujeito a ondas de sentimentos otimistas ou
pessimistas, que são pouco razoáveis e ainda assim legítimos na ausência de uma
base sólida para cálculos satisfatórios”.
*Luiz Gonzaga Belluzzo, economista,
é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo
de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]
*Manfred Back é graduado em economia pela PUC
–SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.
Leia também: "Quem controla a tecnologia controla o jogo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ciencia-tecnologia-desenvolvimento.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário