O Brasil financia a própria dependência digital
A digitalização do Estado tem sido
conduzida como contratação de serviços, e não como política de formação de
capacidades
Celso
Pinto de Melo/Jornal GGN
“O poder é exercido, cada vez mais,
por meio do controle dos dados
e das arquiteturas que os organizam”
Adaptado de Manuel Castells
Como têm destacado pesquisadores brasileiros como Virgílio Almeida [2, 3], Silvio Meira [4] e Sérgio Amadeu da Silveira [5], a transformação digital do setor público não é apenas uma questão de eficiência administrativa. Trata-se de um problema de arquitetura de poder, capacidade estatal e controle sobre infraestrutura, dados e governança – dimensões centrais para a autonomia dos países na economia digital contemporâne.
Como discutido em análises anteriores [6, 7], esse padrão de financiamento público indireto das grandes plataformas não é episódico, mas persistente, articulando orçamento estatal e acumulação privada em escala global.
Uma dependência que se
consolida
Esse
movimento não é pontual. Ele se reproduz em toda a administração pública e se
aprofunda ao longo do tempo.
É isso que podemos
chamar de dependência digital estrutural: uma situação em que o funcionamento
do Estado passa a depender, de forma contínua, de infraestruturas tecnológicas
que ele não controla.
Cada
renovação de licença, integração de sistemas ou migração para ambientes
proprietários amplia os custos de saída. Os sistemas passam a funcionar no escopo
desses ecossistemas, e os dados passam a obedecer aos seus padrões [8, 9].
Ao
longo do tempo, a dependência deixa de ser uma escolha e passa a ser uma
condição.
Como o dinheiro público
sai do país
É
nesse ponto que a dimensão econômica da dependência digital se torna mais
evidente.
Os
pagamentos são realizados em moeda forte, os dados passam a submeter-se a
jurisdições externas e o valor agregado gerado por essas tecnologias é
apropriado fora do país – configurando, assim, um déficit estrutural na conta
de serviços digitais.
Esse fluxo remunera o
núcleo do capitalismo financeiro global, dominado por grandes gestoras como
BlackRock, Vanguard e State Street[10, 11].
Recursos
públicos deixam de gerar encadeamentos produtivos internos e passam a alimentar
cadeias de valor externas – o que se apresenta como despesa operacional é, na
prática, uma transferência contínua de renda.
O Estado já opera dentro
dessas plataformas
O Brasil possui hoje
mais de 150 milhões de usuários cadastrados na plataforma gov.br, que integra
centenas de serviços públicos digitais. O Sistema Único de Saúde registra
bilhões de interações acumuladas, enquanto a Receita Federal e o INSS operam
bases de dados em escala continental.
A
digitalização recente desses sistemas tem se apoiado, em grande medida, em
infraestruturas de computação em nuvem e em plataformas corporativas globais.
O
Estado brasileiro não apenas utiliza essas plataformas – ele já opera, de fato,
dentro delas.
Não se trata apenas de
ferramentas, mas da própria infraestrutura de funcionamento do Estado
contemporâneo.
Não é inevitável – é
resultado de escolhas
Nos
Estados Unidos, o uso de soluções privadas não gera dependência externa, uma
vez que essas empresas integram um complexo industrial-digital nacional
articulado ao poder de compra do Estado [12, 13]. Na União Europeia, a
soberania digital tornou-se uma política explícita [14].
No Brasil, ocorreu o
oposto: o poder de compra do Estado deixou de induzir capacidades produtivas e
passou a reproduzir dependência tecnológica.
Não
é uma fatalidade técnica – é uma escolha institucional reiterada.
O que está realmente em
jogo
O que esses fluxos de
gasto revelam é apenas uma parte do problema.
Se
o orçamento público mostra quem financia essa infraestrutura, resta uma
pergunta ainda mais decisiva: o que está sendo operado sobre ela?
Em
outras palavras, se o financiamento revela a direção do fluxo de recursos, os
dados revelam o conteúdo do que está sendo transferido.
Uma escolha de rumo
A
dependência digital brasileira não começa na tecnologia – começa na forma como
o Estado organiza seus investimentos.
O
Brasil não enfrenta apenas um desafio de modernização tecnológica.
Enfrenta um problema de
organização estratégica.
Bibliografia
1.
Silva, E.C.M. et al., Entre licenças bilionárias e nuvens
internacionais: um mapeamento sistemático de contratos do setor público
brasileiro com fornecedores internacionais de tecnologias. InterAção,
2025. 16(4).
2.
Almeida, V.A.F., Desafios da IA responsável na pesquisa
científica. 2019: São Paulo.
3.
Almeida, V.A.F. et al., Governança de dados e inteligência
artificial: desafios para o Brasil. Revista USP, 2020(124): p.
10–21.
4.
Meira, S., Transformação digital no Brasil e nas organizações. Revista
do TCU, 2020.
5.
da Silveira, S.A., Democracia e os códigos invisíveis:
como algoritmos estão modulando comportamentos e escolhas políticas.
2019, São Paulo: Edições Sesc.
6.
de Melo, C.P., O Estado que financia o Vale do Silício. Substack,
2026. https://substack.com/home/post/p-190117729
7. de
Melo, C.P., Soberania digital: o novo campo de disputa do poder no
século XXI. Substack, 2026. https://substack.com/home/post/p-192425211
8.
Srnicek, N., Platform Capitalism. 2017, Cambridge: Polity
Press.
9.
Varoufakis, Y., Technofeudalism: What Killed Capitalism.
2023, London: Bodley Head.
10. Fichtner, J.,
E. Heemskerk, e J. Garcia-Bernardo, Hidden power of the Big Three? Passive
index funds, re-concentration of corporate ownership, and new financial risk. Business
and Politics, 2017. 19(2): p. 298–326.
11.
Bebchuk, L.A. e S. Hirst, Big Three Power, and Why It Matters. Boston
University Law Review, 2022. 102: p. 1547–1600.
12.
Mazzucato, M., The Entrepreneurial State: Debunking Public vs. Private
Sector Myths. 2013, London: Anthem Press.
13. Block, F.L. e M.R. Keller, State of Innovation: The
U.S. Government’s Role in Technology Development. 2011, Boulder: Paradigm
Publishers.
14. United Nations Conference on Trade and Development, Digital
Economy Report 2021: Cross-border data flows and development. 2021, United
Nations: Geneva.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador
1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências
Como Paulo Guedes e o BTG construíram uma bolha bilionária em precatórios https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/a-bolha-dos-precatorios.html

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