Sua Excelência Inteligência Artificial, a
nova contadora de histórias na literatura
Dona IA sorri com a nossa sede em aparentar ler, mais do que ler de
verdade
Eliana Alvez Cruz/Liberta
Então, aconteceu a Bienal do Livro de São Paulo com números superlativos,
animadores, demonstradores de possibilidades. Durante dez dias, de 4 a 13 de
setembro, 760 mil pessoas circularam no Distrito do Anhembi atrás de livros,
autores e editoras. Troca-se Bienal de São Paulo por Festa Literária de Paraty,
realizada em julho, e o começo deste texto também conteria um recorde: cerca de
40 mil visitantes, o maior público de sua história. Na verdade, poderíamos
trocar os nomes para os de vários outros eventos literários e os números também
espantariam, mas há algo subterrâneo: quem conta qual história?
Em tempos de
ferramentas de Inteligência Artificial, um passeio rápido pelos corredores da
Bienal não deixava dúvida de que a IA chegou com tudo nas capas, ilustrações,
banners, logos. Obviamente que nem todos, mas muitos, em um show de mesmos
traços, mesmas cores, mesma lógica reconhecível, previsível. Ela avança no
conteúdo também e, não é preciso ser um grande especialista, basta ter um olho
mais atento para identificar.
Esta
colunista, escritora formada antes da existência de tais ferramentas, tem uma
esperança: o enjoo. Tudo o que é muito igual, com o tempo entedia e cansa. Em
alguns casos, já está cansando, pois quem lê enxerga. O problema está aí. Quem
realmente lê?
Segundo a
pesquisa Retratos da Leitura de 2024, o Brasil
perdeu cerca de 6,4 milhões de leitores. Ainda assim, segundo a mesma pesquisa,
somos cerca de 93,4 milhões de pessoas que leram pelo menos um livro (inteiro
ou em partes) nos três meses anteriores.
Esse número é
o famoso “tem, mas acabou” ou “é pouco, mas é muito”. É pouco, considerando que
mais de 200 milhões de pessoas vivem por aqui, mas é muito se pensarmos que
mais de 90 milhões de habitantes correspondem a populações de diversos países…
juntos.
As big techs
devem olhar para essa nação com a gula de quem se vê diante de um grande
banquete gratuito, pois as coisas em terras brasileiras são assim, nos fazem
perder a noção do tamanho, das distâncias, das quantidades e dos impactos. Nos
fazem distorcer a realidade facilmente, porque – seja para um lado ou para
outro – não há número por aqui que não seja impressionante.
Dona IA sorri também com a nossa sede em aparentar ler, mais do que ler de verdade. Aí ela faz a festa, pois de estética ela entende. A aparência é o terreno onde ela dita o que é e o que não é perfeito. Com seus parâmetros bem específicos, ela encaixa, retoca, dita, plastifica e padronizada imagem, texto e gente.
A multidão ávida por mostrar que lê e o racismo algorítmico
Durante a
lotada Bienal de São Paulo, um jovem saiu pedindo para algumas pessoas citarem
dois autores negros. Topou com algumas jovens que não conseguiram responder de
jeito algum, mesmo forçando muito a memória. Uma delas tirou da cartola Machado
de Assis e por aí ficou. A experiência deu conta do que já sabemos, ou seja,
vivemos em bolhas e, mesmo dentro de um ambiente supostamente letrado, é
flagrante que o país tem uma questão séria com a imagem de quem é escritor ou
escritora.
Imediatamente,
instalou-se um serviço de utilidade pública nas redes sociais com listas e mais
listas de autoria negra. A maioria misturava ficção com não ficção, autores do
Brasil com outros do exterior (a maioria estadunidenses). Como dona IA não
poderia ficar de fora desta história, ela tratou de formatar ao seu gosto
posts, fotos, imagens… Foi um espetáculo de cabelos crespos não tão crespos,
narizes reformatados, lábios diminuídos, gente preta não tão preta.
Como autora,
sei bem, pois todos os dias postam alguma coisa sobre meus livros feita com
Inteligência Artificial. Apareço completamente diferente do que sou na
realidade em fotos que estão lotando as minhas redes. Parece impossível para os
algoritmos que autores negros possam querer suas peles retintas, suas marcas
fora do padrão embranquecido. O conteúdo acompanha a forma, pois volta e meia
também aparecem modificados meu nome, sinopses dos livros, resumos… um caos.
Quem lê é o
último elo de uma grande corrente e pode refletir um mercado excludente de
séculos, que agora conta com mais um auxílio tecnológico para seguir sua
prática de apagamento, silenciamento, confusão e predomínio de narrativas, ou
seja, dona IA anda contando a mesma história, mesmo quando a intenção é dizer
que existe outra.
Os números das festas literárias, das bienais de São Paulo, da Bahia, do Rio de Janeiro etc. são muito bons, sim. Apenas precisamos começar a pensar em casá-los com a formação real de leitores e os desafios do século em que vivemos.
Quando Buenos Aires viu “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/buenos-aires-o-filme.html

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