21 setembro 2026

IA & literatura

Sua Excelência Inteligência Artificial, a nova contadora de histórias na literatura
Dona IA sorri com a nossa sede em aparentar ler, mais do que ler de verdade
Eliana Alvez Cruz/Liberta    

 

Então, aconteceu a Bienal do Livro de São Paulo com números superlativos, animadores, demonstradores de possibilidades. Durante dez dias, de 4 a 13 de setembro, 760 mil pessoas circularam no Distrito do Anhembi atrás de livros, autores e editoras. Troca-se Bienal de São Paulo por Festa Literária de Paraty, realizada em julho, e o começo deste texto também conteria um recorde: cerca de 40 mil visitantes, o maior público de sua história. Na verdade, poderíamos trocar os nomes para os de vários outros eventos literários e os números também espantariam, mas há algo subterrâneo: quem conta qual história?

Em tempos de ferramentas de Inteligência Artificial, um passeio rápido pelos corredores da Bienal não deixava dúvida de que a IA chegou com tudo nas capas, ilustrações, banners, logos. Obviamente que nem todos, mas muitos, em um show de mesmos traços, mesmas cores, mesma lógica reconhecível, previsível. Ela avança no conteúdo também e, não é preciso ser um grande especialista, basta ter um olho mais atento para identificar.

Esta colunista, escritora formada antes da existência de tais ferramentas, tem uma esperança: o enjoo. Tudo o que é muito igual, com o tempo entedia e cansa. Em alguns casos, já está cansando, pois quem lê enxerga. O problema está aí. Quem realmente lê?

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura de 2024, o Brasil perdeu cerca de 6,4 milhões de leitores. Ainda assim, segundo a mesma pesquisa, somos cerca de 93,4 milhões de pessoas que leram pelo menos um livro (inteiro ou em partes) nos três meses anteriores.

Esse número é o famoso “tem, mas acabou” ou “é pouco, mas é muito”. É pouco, considerando que mais de 200 milhões de pessoas vivem por aqui, mas é muito se pensarmos que mais de 90 milhões de habitantes correspondem a populações de diversos países… juntos.

As big techs devem olhar para essa nação com a gula de quem se vê diante de um grande banquete gratuito, pois as coisas em terras brasileiras são assim, nos fazem perder a noção do tamanho, das distâncias, das quantidades e dos impactos. Nos fazem distorcer a realidade facilmente, porque – seja para um lado ou para outro – não há número por aqui que não seja impressionante.

Dona IA sorri também com a nossa sede em aparentar ler, mais do que ler de verdade. Aí ela faz a festa, pois de estética ela entende. A aparência é o terreno onde ela dita o que é e o que não é perfeito. Com seus parâmetros bem específicos, ela encaixa, retoca, dita, plastifica e padronizada imagem, texto e gente.

A multidão ávida por mostrar que lê e o racismo algorítmico

Durante a lotada Bienal de São Paulo, um jovem saiu pedindo para algumas pessoas citarem dois autores negros. Topou com algumas jovens que não conseguiram responder de jeito algum, mesmo forçando muito a memória. Uma delas tirou da cartola Machado de Assis e por aí ficou. A experiência deu conta do que já sabemos, ou seja, vivemos em bolhas e, mesmo dentro de um ambiente supostamente letrado, é flagrante que o país tem uma questão séria com a imagem de quem é escritor ou escritora.

Imediatamente, instalou-se um serviço de utilidade pública nas redes sociais com listas e mais listas de autoria negra. A maioria misturava ficção com não ficção, autores do Brasil com outros do exterior (a maioria estadunidenses). Como dona IA não poderia ficar de fora desta história, ela tratou de formatar ao seu gosto posts, fotos, imagens… Foi um espetáculo de cabelos crespos não tão crespos, narizes reformatados, lábios diminuídos, gente preta não tão preta.

Como autora, sei bem, pois todos os dias postam alguma coisa sobre meus livros feita com Inteligência Artificial. Apareço completamente diferente do que sou na realidade em fotos que estão lotando as minhas redes. Parece impossível para os algoritmos que autores negros possam querer suas peles retintas, suas marcas fora do padrão embranquecido. O conteúdo acompanha a forma, pois volta e meia também aparecem modificados meu nome, sinopses dos livros, resumos… um caos.

Quem lê é o último elo de uma grande corrente e pode refletir um mercado excludente de séculos, que agora conta com mais um auxílio tecnológico para seguir sua prática de apagamento, silenciamento, confusão e predomínio de narrativas, ou seja, dona IA anda contando a mesma história, mesmo quando a intenção é dizer que existe outra.

Os números das festas literárias, das bienais de São Paulo, da Bahia, do Rio de Janeiro etc. são muito bons, sim. Apenas precisamos começar a pensar em casá-los com a formação real de leitores e os desafios do século em que vivemos. 

Quando Buenos Aires viu “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/buenos-aires-o-filme.html

Nenhum comentário: