08 novembro 2026

Boa notícia

Diplomacia brasileira ganha mais mulheres, indígenas e quilombolas
Mulheres representam 45% dos aprovados, enquanto indígenas e quilombolas conquistam espaço inédito na formação diplomática
Natália Padalkko/Vermelho     

A presença dos povos indígenas e quilombolas nos espaços de decisão do Estado brasileiro ganhou um marco histórico nesta semana. Pela primeira vez, representantes desses segmentos ingressaram na formação diplomática do Instituto Rio Branco, responsável pela preparação dos diplomatas do país. Dois indígenas e uma mulher quilombola tomaram posse na quarta-feira (4), em cerimônia no Palácio Itamaraty, em Brasília.

Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, são os primeiros indígenas a ingressar na carreira. Helen Jaine Gomes Borgens, integrante da comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia (GO), tornou-se a primeira aprovada na vaga reservada a quilombolas.

Política de inclusão muda perfil da diplomacia brasileira

A conquista foi possível com a inclusão de vagas específicas para indígenas e quilombolas no concurso de admissão à carreira diplomática de 2026. A medida integra o conjunto de ações afirmativas que buscam enfrentar as barreiras históricas de acesso ao serviço público. O Ministério das Relações Exteriores também ampliou o Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a contemplar mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência, além de pessoas negras.

A mudança se reflete no perfil da nova turma. Dos 60 aprovados, 27 pertencem a grupos historicamente sub-representados na diplomacia: 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, dois indígenas e uma quilombola. As mulheres correspondem a 45% dos ingressantes, maior participação feminina já registrada pelo Instituto Rio Branco e pelo Itamaraty.

Na cerimônia, a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, classificou a chegada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas como um ato de resistência. Ela ressaltou que a instituição precisa refletir a diversidade brasileira e reconhecer o papel desses grupos na definição dos rumos do país no cenário internacional.

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, associou a conquista ao conceito de “Aldear o Estado”, que defende a presença de lideranças originárias nas estruturas públicas e nos espaços técnicos de decisão. Para ele, a posse representa uma reivindicação histórica dos povos indígenas e um avanço que ultrapassa as conquistas individuais. “É um ganho de toda a nação e do Estado brasileiro”, afirmou.

Convidado de honra da solenidade, o escritor Ailton Krenak, integrante da Academia Brasileira de Letras, também celebrou a chegada dos novos diplomatas. Ao destacar a presença das famílias e das crianças indígenas na cerimônia, falou sobre a capacidade de construir novos horizontes mesmo diante das dificuldades: “Que mesmo diante das quase impossibilidades, eles sejam capazes de exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido”.

A entrada de indígenas e quilombolas no Itamaraty leva para dentro de uma instituição bicentenária vozes que por muito tempo foram mantidas longe das decisões sobre o país. É também um passo para que a diversidade brasileira deixe de ser apenas parte da identidade nacional e passe a ocupar os lugares onde se definem seus caminhos. 

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