07 novembro 2026

Carlos Albérico opina

“Trabalhador, olha pra cá, eu tô na rua pra seu filho estudar”
A vitória nas urnas foi importante e teve alcance mundial, mas seu êxito será medido pela transformação da mobilização popular em direitos, oportunidades e conquistas concretas.
Carlos Albérico Medeiros/Vermelho   

A Unidade

A frase que intitula este artigo foi uma das principais palavras de ordem nas manifestações pela reeleição do presidente Lula no segundo turno das eleições brasileiras, concluídas no domingo, 25 de outubro. Entoada com vigor por estudantes secundaristas e universitários e por milhões de manifestantes, ela traduzia o protagonismo dessa juventude, decisivo para a virada entre os dois turnos, um desfecho que muitos julgavam improvável.

Adotada por trabalhadores, trabalhadoras e milhões de pessoas em todo o Brasil, a frase revela seu caráter de classe desde a primeira palavra: dirige-se a quem produz a riqueza do país que, naquele momento, acompanha a manifestação do ponto de ônibus, do balcão do comércio, ao volante ou de um andaime.

Ao chamar os trabalhadores para “olha pra cá”, os jovens os convidam a reconhecer as dificuldades do momento e os graves riscos de retrocesso. O chamado incentiva os trabalhadores a assumir a tarefa de ir às ruas e fortalecer a composição de uma aliança “operária-estudantil” para preservar os direitos conquistados e avançar em novas conquistas.

O verso “tô na rua” ressaltava a importância de ocupar o espaço público como forma legítima de pressão popular, coletiva e combativa.

Por fim, “pra seu filho estudar” resume o sentido desse chamado: defender uma escola pública de qualidade e uma universidade acessível ao povo, para garantir às próximas gerações o acesso ao conhecimento, à dignidade e à mobilidade social que lhes foram historicamente negados.

A força política dessas mobilizações vai além do número de pessoas nas ruas e de sua contribuição à vitória eleitoral: está também no que expressam, nas expectativas que alimentam e nas transformações que reivindicam. Ao defender o direito de o filho do trabalhador estudar, o jovem não apenas convoca à mobilização, mas expressa um desejo coletivo de futuro: educação, trabalho digno, renda, oportunidades e justiça social como direitos garantidos, não promessas. Essas expectativas populares devem orientar os compromissos e desafios do quarto mandato de Lula.

Então a pergunta que fica: como o  Lula 4 pode garantir que todo o engajamento, a vibração, a determinação e as expectativas da recém organizada aliança “operária-estudantil” somada a diversidade de homens e mulheres não sejam frustradas antes do alvorecer de 2027?

A Disputa

Essa pergunta ganha força com as primeiras manifestações dos grandes “jornalões”, porta-vozes da elite brasileira. Em editoriais publicados logo após o encerramento da votação, esses veículos retomam a desgastada agenda fiscalista, defendendo cortes de gastos, austeridade, medidas relativas ao Banco Central e outras propostas que vão na direção contrária às reivindicações dos jovens, dos trabalhadores e do povo mobilizado nos mais de 5.500 municípios do país.

Em reportagem do dia 29 de outubro, a  BBC News do Brasil  traz um vídeo e um breve texto abaixo que ilustra bem o terrorismo, o golpismo e a velha tática de impor ao governo a agenda derrotada nas urnas. Com o título “Economia será ‘calcanhar de Aquiles’ do 4º mandato de Lula; entenda os desafios” a repórter Thais Carrança em um vídeo de 2 minutos e 57 segundos oferece uma visão catastrófica que o mercado projeta para o Lula 4.

A reportagem começa com uma afirmação contundente: “a reação negativa do mercado foi a pior registrada em um pós-eleição desde 2002”. Segundo os analistas ouvidos pela repórter, essa reação decorreu, em grande parte, da expectativa dos investidores de que Flávio Bolsonaro venceria, o que não aconteceu. Se ainda havia dúvidas sobre quais interesses o candidato derrotado serviria, essa reação as dissipou.

A reportagem aponta quatro desafios: pressão fiscal e financeira por cortes e metas, que limita investimentos públicos e políticas sociais; custo de vida e inflação de alimentos, energia e serviços básicos, que geram insatisfação popular com impacto eleitoral e social; endividamento recorde e inadimplência das famílias, que restringem o consumo como impulso imediato à economia; e previsão de menor crescimento do PIB no próximo ano, que reduz o espaço para empregos formais. 

No outro lado estão os que pensam e agem com base no sentimento popular expresso nas maiores manifestações ocorridas desde os movimentos pela “Diretas Já” em 1984, e o “Fora Collor”, 1992, esse último comandado também pela juventude.

O economista Elias Jabbour, deputado federal eleito pelo PCdoB do Rio de Janeiro e voz de destaque no debate sobre os rumos do Brasil, reafirmou em podcasts e entrevistas recentes três prioridades para sua atuação a partir de janeiro do próximo ano: enfrentar a política monetária de juros altos; promover a reindustrialização e o planejamento estatal; e conquistar a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.

Essa posição se reflete na crítica do deputado à recente decisão do Copom de manter a Selic em 13,75. Em matéria publicada no portal da TV 247, ele classifica a taxa de juros como “o maior esquema de corrupção legalizado do mundo”.

A sua futura colega de bancada, Deputada Jandira Feghali, participando do programa “Entrelinhas Vermelhas”, destacando os desafios do próximo governo Lula, observa que para obter sucesso o Presidente Lula precisa focar seu quarto mandato no desenvolvimento econômico, com forte investimento público, reindustrialização, autonomia cientifica e tecnológica fortalecendo a nossa soberania nacional.  

A Deputada Jandira reforça que levar a cabo esse projeto exige enfrentar a pressão dos fiscalistas, leia-se Faria Lima, mantendo a constante mobilização do povo para defender direitos nessa disputa de rumos para o país.

No artigo “Choque… nos outros: ajuste fiscal e estelionato eleitoral”  Carta Capital de 29 de outubro, o respeitado e experiente economista Paulo Nogueira Batista Jr., com passagem pelo FMI e NDB, o banco do BRICS, adverte que ceder ao clamor do mercado por um ajuste fiscal drástico configuraria estelionato eleitoral e empurraria o país para a recessão. Desmente o pânico do colapso das contas públicas ao demonstrar que o verdadeiro rombo fiscal decorre dos juros exorbitantes, que consomem quase 9% do PIB, e não do déficit primário.

Em contrapartida, ele defende um ajuste gradualista baseado na redução da taxa Selic, viabilizada pela elevação da meta de inflação para 4%. Com o alívio no custo da dívida, combate à sonegação dos super-ricos e estímulo ao crescimento econômico, torna-se viável equilibrar as contas públicas sem penalizar a classe trabalhadora e os investimentos sociais.

Lados definidos, “que fazer?”

Unidade, Vigilância e Avançar

A vitória de Lula abriu uma nova etapa política e, a meu ver, encerrou o ciclo eleitoral iniciado em 2002. A unidade contra a extrema direita deve ser preservada e ampliada em torno de uma agenda que atenda às necessidades e expectativas da maioria. Mais que garantir governabilidade, é preciso criar condições políticas, econômicas e sociais para que o quarto mandato construa um Brasil desenvolvido, democrático, socialmente justo e soberano. Isso exige enfrentar os interesses de quem historicamente se apropria da riqueza nacional e busca subordinar o Estado ao capital financeiro.

Unidade não elimina divergências nem subordina organizações populares ao governo: exige autonomia dos sindicatos, movimentos sociais e entidades estudantis, além do fortalecimento dos partidos do campo popular e de esquerda comprometidos com transformações sociais.

A vigilância popular permanente deve impedir retrocessos, cobrar compromissos, propor soluções e disputar prioridades. Para transformar estruturalmente o país, o governo precisa da mobilização popular como fonte primária e contínua de sustentação política e legitimidade social.

A energia da campanha nas ruas e nas redes deve continuar na organização da sociedade. Reduzir a jornada e pôr fim à escala 6×1, valorizar salários, ampliar investimentos em educação e saúde, reduzir o custo de vida, reindustrializar o país, garantir autonomia científica e tecnológica e fortalecer a soberania nacional devem compor uma agenda comum de desenvolvimento, não reivindicações dispersas. Essa agenda deve unir as necessidades imediatas dos trabalhadores às transformações estruturais necessárias ao Brasil.

O cenário internacional, marcado pela transição para uma ordem multipolar, pela emergência de novos centros de poder econômico e tecnológico e pela reorganização das relações internacionais, oferece oportunidades históricas ao Brasil. Nossa participação ativa no BRICS, a aproximação mais refinada com o Sul Global e a capacidade de estabelecer relações internacionais mais diversificadas podem contribuir para ampliar nossa autonomia e abrir novos caminhos para o desenvolvimento.

Mas nenhuma oportunidade geopolítica terá sentido pleno se não resultar em melhores condições de vida para o povo brasileiro. Desenvolvimento, soberania e justiça social precisam caminhar juntos.

Voltemos ao jovem que dizia ao trabalhador nas ruas: “eu tô na rua pra seu filho estudar”. Mais do que pedir um voto ou defender a reeleição, ele reivindicava um futuro em que filhos e filhas da classe trabalhadora tenham oportunidades negadas a seus pais. O quarto mandato de Lula não pode frustrar essa esperança.

A vitória nas urnas foi importante e teve alcance mundial, mas seu êxito será medido pela transformação da mobilização popular em direitos, oportunidades e conquistas concretas. A palavra de ordem permanece: unidade para construir, vigilância para defender e avançar para transformar.

Vencemos. E agora? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/minha-opiniao.html 

Nenhum comentário: