A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
05 maio 2012
Dica de poeta
A dica de sábado é de Antonio Maria: “Em cada flor, o amor,/Em cada amor, o bem/O bem do amor faz bem/Ao coração...”.
04 maio 2012
Agrega e une quem tiver proposições consistentes
Ramires, a derrota do Barcelona e as eleições municipais
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Folha
E assim pode ocorrer em muitas outras cidades, na medida em que o eleitorado urbano é cada vez arredio ao controle do que aqui no Recife sempre se chamou de “coronéis do asfalto”, para caracterizar os detentores de nichos eleitorais mantidos sob controle por meio do assistencialismo. O ambiente urbano brasileiro dos nossos dias vive certa efervescência, lócus de transformações econômicas e sociais e de acúmulo de demandas sociais e infra estruturais não satisfeitas. Quem não souber se mover nesse ambiente pode dar com os burros n’água.
Moral da história: vale aprender com Ramires e, com serenidade, conhecimento de causa e sensibilidade para com o que sente e pensa o cidadão comum, apresentar sob a forma de programa de governo o projeto político-administrativo que se pretende necessário para a cidade.
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Folha
Outro dia, após ler um artigo meu com título assim curioso, aparentemente desconectado, uma amiga sapecou: “Li porque me pareceu estranho e me surpreendi porque alhos tinha tudo a ver com bugalhos...”.
Mas é isso mesmo. A dialética nos demonstra que tudo se relaciona, nós é que às vezes não percebemos – ou não queremos perceber.Veja as declarações do meio-campista Ramires, do Chelsea, ao comentar a vitória sobre o Barcelona: “O Chelsea não quis agradar”; “o Barcelona era favorito. A gente transformou a desconfiança em motivação.” Tudo a ver com o ambiente das disputas eleitorais, onde a arrogância, a presunção de que a vitória é certa e a subestimação do adversário frequentemente contribuem para derrotas surpreendentes.
Subestimar o adversário, numa peleja eleitoral, confunde-se com certo desprezo pelo eleitor. Porque o que ocorre, na prática, em toda eleição, sobretudo no caso de eleições para cargos executivos, quando há polarização, é que qualquer que seja a correlação de forças inicial há sempre a possibilidade de deslocamento da parcela majoritária do eleitorado, aquela situada no meio entre os dois extremos contendores.Então, tal como fez o Chelsea, uma boa dose de humildade diante do eleitor e de competência para transformar a adversidade inicial em desafio e fator de motivação, cabe a todos os que buscam a vitória com consciência da realidade e determinação. Sem querer “agradar”, como disse Ramires – ou seja, sem muita firula nem pirotecnia, com os pés no chão e o discurso objetivo e certeiro, que corresponda aos anseios e inquietação dos eleitores e que emocione.
O pleito de outubro vindouro certamente será palco de vitórias surpreendentes. Em São Paulo, por exemplo, fala-se que Serra é favorito e se espera uma polarização entre ele e Haddad, do PT. Será? Devagar com andor que a maioria do eleitorado paulistano, embora de inclinação meio que conservadora, tem a insatisfação à flor da pele e pode optar por uma alternativa de extração popular. E assim pode ocorrer em muitas outras cidades, na medida em que o eleitorado urbano é cada vez arredio ao controle do que aqui no Recife sempre se chamou de “coronéis do asfalto”, para caracterizar os detentores de nichos eleitorais mantidos sob controle por meio do assistencialismo. O ambiente urbano brasileiro dos nossos dias vive certa efervescência, lócus de transformações econômicas e sociais e de acúmulo de demandas sociais e infra estruturais não satisfeitas. Quem não souber se mover nesse ambiente pode dar com os burros n’água.
Moral da história: vale aprender com Ramires e, com serenidade, conhecimento de causa e sensibilidade para com o que sente e pensa o cidadão comum, apresentar sob a forma de programa de governo o projeto político-administrativo que se pretende necessário para a cidade.
Bom dia, Vinicius de Moraes
De repente
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Palavras que o vento não leva
A inconveniência do discurso sem volta
Luciano Siqueira
Luciano Siqueira
Publicado no Blog de Jamildo
Na política, como na vida, nunca é demais deixar uma porta aberta – ou pelo menos uma janela – quando a situação é complexa. Não se trata de esperteza, antes de uma compreensão dialética dos acontecimentos.
Na política, então, basta firmeza de princípios. Além disso, cabe o máximo de flexibilidade porque a realidade – e o posicionamento dos atores em cena – dá muitas voltas. Sobretudo quando se trata de personalidades ou partidos pouco afeitos a compromissos programáticos e mais sintonizados com objetivos de curto prazo. Estes, em geral batizados de centristas, oscilam conforme o evolver da situação, podendo aliar-se à esquerda ou à direita. E são sempre importantes, pois pesam na correlação de forças políticas e, por extensão, na contabilidade eleitoral.
Demais, numa abordagem tática consequente, cabe sempre atrair apoios de correntes mais próximas e identificadas com o ideário comum; conquistar a adesão de correntes situadas ao centro e neutralizar as que, por razões diversas, não sejam suscetíveis de serem atraídas, de modo a isolar, enfraquecer e derrotar o polo oposto.
Postas essas considerações oriundas da experiência acumulada, vale sempre alertar para inconveniência do discurso sem volta. Ou seja, advertir os que proclamam posições ou inimizades definitivas e inarredáveis para o risco de terem, adiante, que refazer o discurso, agora numa situação de todo inconveniente.
Cá na província há exemplos emblemáticos. O atual senador Jarbas Vasconcelos, por exemplo, sempre foi pródigo em epítetos depreciativos e impropérios contra adversários com os quais, ao se reposicionar na cena política, terminou por se aliar. Cid Sampaio era “o usineiro de Roçadinho”, Joaquim Francisco “o mentiroso amarelo” e assim por diante. Mais tarde, convivendo com este e outros personagens num mesmo palanque, certamente as palavras agressivas pronunciadas em passado recente terá gerado algum constrangimento entre os novos aliados.
Na postura oposta, Miguel Arraes. O ex-governador jamais proferiu ataques pessoais ou destilou diatribes contra oponentes, deixando sempre uma margem possível de entendimento numa circunstância futura. E assim obteve êxitos importantes.
São lições sempre válidas, que quadros mais jovens e ainda iniciantes na prática da relação entre a unidade e a luta, o contencioso e a busca de convergências possíveis bem que poderiam valorizar. Porque na política, tanto quanto no cotidiano de nossas vidas, difícil é superar barreiras artificialmente criadas pela intolerância dos refratários ao respeito mútuo e à convivência com as diferenças de opinião.
Fator pró-Dilma
Banco do Brasil + Caixa Econômica Federal = mais de 50% da oferta de crédito no País: ponto para Dilma na peleja com bancos privados.
Contraste no mundo de hoje
O Primeiro de Maio lá e cá
Luciano Siqueira
Tanto que as estatísticas sobre a entrada de trabalhadores estrangeiros no Brasil engordam mês a mês. Uma significativa parcela deles vindos da Europa.
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da revista Algomais
É óbvio que não vivemos em nenhum paraiso. Mas está na cara que os trabalhadores brasileiros comemoram o Primeiro de Maio hoje em condições bem melhores do que seus irmãos europeus e norte-americanos. Lá crise, regressão de direitos, desemprego, falta de perspectivas imediatas e de médio prazo. Aqui crescimento econômico, ampliação das oportunidades de trabalho e de contratações com carteira assinada, perspectiva de superação dos entraves macroeconômicos, possibilidade novas conquistas.
Tanto que as estatísticas sobre a entrada de trabalhadores estrangeiros no Brasil engordam mês a mês. Uma significativa parcela deles vindos da Europa.
É o tortuoso e às vezes surpreendente evolver da realidade concreta mundo afora. A situação dos trabalhadores dos países centrais em crise em contraste com a dos que labutam no Brasil e em outros países emergentes (e até mesmo em algumas partes do subcontinente sul-americano) é uma componente do mundo em transição da atual unipolaridade (sob hegemonia imposta pelos EUA) a uma multipolaridade que se avizinha.
Entretanto não cabe apenas comemorar. O crescimento econômico que ora experimentamos ainda carece de bases sólidas, a julgar pela persistência de condicionantes macroeconômicos – como a política cambial – que a duras pelas começam a ser superados – como a política de redução das taxas de juros, a que o setor rentista reage. Tanto que estamos diante de ameaça real de desindustrialização.
Além disso, para que o crescimento atual ganhe sustentabilidade econômica e seja duradouro, e efetue consistentes alterações na matriz produtiva do País, cabe acrescentar o indispensável item valorização do trabalho – seja fortalecendo a massa salarial, seja garantindo direitos fundamentais, seja ainda abrindo perspectiva de redução da jornada de trabalho. Além disso, descortinar novos horizontes futuros de superação da contradição trabalho versus capital e de construção de uma sociedade justa e solidária.
Assim, aqui como lá, guardas as diferenças, Primeiro de Maio é dia de luta.
Por isso cabe às nossas centrais sindicais e demais organizações populares renovarem a disposição de fazer valer suas proposições nos fóruns tripartites; junto ao governo e ao Congresso Nacional. Ocupar ruas e praças é necessidade inarredável.
Os trabalhadores são a força motriz da construção de uma não nação soberana e democrática.
Dilma X banqueiros
Cutucando o diabo com vara longa
Luciano Siqueira
Em palavras mais simples, o conflito é entre usura versus produção; entre os bancos versus setores produtivos da economia e os interesses do povo e da nação.
Uma questão técnica, sem dúvida; porém essencialmente política, que envolve convicção, vontade e correlação de forças. Diz-se que Lula compreendia o problema, mas hesitava sob a influência da que equipe que formara no Banco Central, liderada por Meireles, e inseguro quanto à correlação de forças. Por isso promoveu redução gradual da taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), usada como referência pela política monetária, entretanto lenta e sujeita a recidivas.
Dilma, que no interior do governo Lula sempre esteve entre os defensores de uma maior rapidez na redução da Selic – na ala dos “desenvolvimentistas”, em contraposição aos “monetaristas”-, dá um passo adiante. Em seu pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, no último dia 30, cobrou, de forma enérgica, esforços dos bancos privados para diminuir as taxas de juros cobradas em empréstimos, cartões de crédito e no cheque especial.
“É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo. Esses valores não podem continuar tão altos. O Brasil de hoje não justifica isso. Os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos”, disse a presidenta.
Ela argumenta que com a queda da taxa básica de juros e inflação estável, os bancos privados não têm como justificar a manutenção dos altos juros cobrados dos clientes. Antes já havia promovido uma redução significativa dos juros praticados pelos bancos públicos – Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal -, sobre os quais o governo tem ingerência, como efeito demonstração e fator de concorrência.
Enquanto a presidente dá mostras de determinação nesse sentido, centrais sindicais e entidades representativas da indústria tem se manifestado na mesma direção.
A despeito da reação oferecida pela rede Globo & Cia, para quem a presidenta deseja “satanizar” os banqueiros, ou para certos analistas mais do que suspeitos, para os quais o governo “cutuca o diabo com vara curta”, o que se vê é uma mudança gradativa da correlação de forças, isolando-se os rentistas.
Luciano Siqueira
Publicado no portal Vermelho
Romper ou não com os condicionantes macroeconômicos herdados da era FHC tem sido, desde o primeiro governo Lula, a um só tempo, necessidade objetiva e dilema político. Uma espécie de tabu: mexer na política de juros altos, no câmbio sobrevalorizado e no rígido sistema de metas inflacionárias e fiscais seria antes de tudo uma irresponsabilidade. Isto na cantilena reverberada pela grande mídia conluiada com o grande capital financeiro.
Em palavras mais simples, o conflito é entre usura versus produção; entre os bancos versus setores produtivos da economia e os interesses do povo e da nação.
Uma questão técnica, sem dúvida; porém essencialmente política, que envolve convicção, vontade e correlação de forças. Diz-se que Lula compreendia o problema, mas hesitava sob a influência da que equipe que formara no Banco Central, liderada por Meireles, e inseguro quanto à correlação de forças. Por isso promoveu redução gradual da taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), usada como referência pela política monetária, entretanto lenta e sujeita a recidivas.
Dilma, que no interior do governo Lula sempre esteve entre os defensores de uma maior rapidez na redução da Selic – na ala dos “desenvolvimentistas”, em contraposição aos “monetaristas”-, dá um passo adiante. Em seu pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, no último dia 30, cobrou, de forma enérgica, esforços dos bancos privados para diminuir as taxas de juros cobradas em empréstimos, cartões de crédito e no cheque especial.
“É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo. Esses valores não podem continuar tão altos. O Brasil de hoje não justifica isso. Os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos”, disse a presidenta.
Ela argumenta que com a queda da taxa básica de juros e inflação estável, os bancos privados não têm como justificar a manutenção dos altos juros cobrados dos clientes. Antes já havia promovido uma redução significativa dos juros praticados pelos bancos públicos – Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal -, sobre os quais o governo tem ingerência, como efeito demonstração e fator de concorrência.
Enquanto a presidente dá mostras de determinação nesse sentido, centrais sindicais e entidades representativas da indústria tem se manifestado na mesma direção.
A despeito da reação oferecida pela rede Globo & Cia, para quem a presidenta deseja “satanizar” os banqueiros, ou para certos analistas mais do que suspeitos, para os quais o governo “cutuca o diabo com vara curta”, o que se vê é uma mudança gradativa da correlação de forças, isolando-se os rentistas.
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