01 dezembro 2025

Palavra de poeta

Sou meu hóspede
Mario Benedetti 

Sou meu hóspede noturno
em doses mínimas
e uso a noite
para despojar-me
da modéstia
e outras vaidades
procuro ser tratado
sem os prejuízos
das boas-vindas
e com as cortesias
do silêncio
não coleciono padeceres
nem os sarcasmos
que deixam marca
sou tão-só
meu hóspede
e trago uma pomba
que não é sinal de paz
mas sim pomba
como hóspede
estritamente meu
no quadro-negro da noite
traço uma linha
branca

Leia também: "As grades e os sonhos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/palavra-de-poeta-alberto-vinicius.html 

Lula na TV: Imposto de Renda Zero


Lula: “Isenção do IR ataca privilégios de uma pequena elite financeira”
Em cadeia de rádio e tevê, o presidente disse que há pessoas que ganham 10, 20, 100 vezes mais do que 99% do povo brasileiro, e que vai contribuir com 10% do imposto sobre a renda para dar um alívio às famílias
Iram Alfaia/Vermelho
 

Em pronunciamento na cadeia nacional de rádio e tevê neste domingo (30), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que isenção do Imposto de Renda para os trabalhadores que ganham até R$ 5 mil vai atacar os “privilégios de uma pequena elite financeira” e ajudará o Brasil a avançar na justiça tributária.

Com zero do IR, o presidente disse que uma pessoa com salário de R$ 4,8 mil pode fazer uma economia de R$ 4 mil em um ano, ou seja, quase 14º salário.

“E o mais importante: a compensação não virá de cortes na educação ou na saúde, mas da taxação dos super-ricos, que ganham mais de R$ 1 milhão por ano e hoje não pagam nada ou quase nada de imposto. Estamos falando de 0,1% da população”, disse  

Lula lembra que há pessoas no Brasil que ganham 10, 20, 100 vezes mais do que 99% do povo brasileiro, e que vai contribuir com 10% do imposto sobre a renda para dar um alívio às famílias que trabalham, lutam e movem este país

Leia mais: Lula destacará isenção do IR em cadeia de rádio e tevê neste domingo

“140 mil super-ricos pagando um pouco mais para que muitos milhões de brasileiros e brasileiras deixem de pagar”, justifica.

O presidente observa ainda que mais do que uma correção da tabela do imposto de renda, a nova lei ataca a principal causa da desigualdade no Brasil, a chamada injustiça tributária.

“Ao longo de 500 anos de história, a elite brasileira acumulou mais e mais privilégios, que foram passados de geração em geração, até chegar aos dias de hoje. Entre os muitos privilégios, talvez o mais vergonhoso seja o de pagar menos Imposto de Renda do que a classe média e os trabalhadores”, diz.

Lula ainda deu exemplo: “Quem mora em mansão, tem dinheiro no exterior, coleciona carros importados, jato particulares e jet-sky paga dez vezes menos do que uma professora, um policial ou uma enfermeira. Imagina uma pessoa lutar para ter uma moradia digna, andar de ônibus, se esforçar para comprar um carro e pagar dez vezes

De acordo com ele, a Receita Federal calcula que, no próximo ano, o dinheiro extra nas mãos do povo brasileiro deve injetar R$ 28 bilhões na economia. “Um estímulo extraordinário para o comércio, para a indústria, o setor de serviços e o empreendedorismo, que vai gerar mais empregos, mais oportunidades e mais renda. O país inteiro vai ser beneficiado”, revela.

Programas sociais

Lula ainda destacou os avanços dos programas sociais. “Fortalecemos o Bolsa Família. Criamos o Pé-de-Meia. Reajustamos o valor da alimentação escolar. Abrimos as portas das universidades para a juventude negra, indígena e das periferias. Aumentamos o Plano Safra e os recursos para a agricultura familiar. Criamos o programa Luz do Povo, que zera ou reduz a conta de luz das famílias mais necessitadas. E lançamos o Gás do Povo, porque não é justo que as famílias que mais precisam paguem até 10% do salário mínimo por um botijão de gás”.

Desse modo, o presidente diz que o Brasil vem reduzindo as desigualdades socias. “Graças a essas e outras políticas, a desigualdade no Brasil é hoje a menor da história. Mesmo assim, o Brasil continua a ser um dos países mais desiguais do mundo. O,1% mais rico acumula 63% da riqueza do país. Enquanto a metade mais pobre da população detém apenas 2% da riqueza. É riqueza demais concentrada nas mãos de uma pequena parcela de super-ricos”, critica.

Por fim, considera a mudança no Imposto de Renda um passo decisivo para transformar essa realidade, mas é apenas o primeiro. “Podem ter certeza de que não vamos parar por aí. O que nós queremos é que a população brasileira tenha direito à riqueza que produz com o suor do seu trabalho”.

[Qual a sua opinião?]

Leia: Paulo Nogueira Batista Jr.: "Pluto-, clepto- e kakistocracia"  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/paulo-nogueira-batista-jr-opina.html 

Postei nas redes

Polícia Federal apreende em um dos endereços ligados ao dono do Banco Master, sob intervenção, Daniel Vorcaro, um envelope com o nome de um deputado do PL da Bahia contendo documentos sobre um negócio imobiliário. A terra treme em Brasília porque se especula sobre mais parlamentares envolvidos em transações ilícitas. Acompanhemos. 

Lobby mais do que suspeito https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/minha-opiniao_24.html 

Minha opinião

A influência que fica* 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

Passado o desastroso governo do ex-capitão Jair Bolsonaro, e agora o dito cujo encarcerado para cumprimento de pena de quase 30 anos, discute-se que influência poderá ainda ter no desenrolar da cena política do país. 

Em certa medida, uma discussão bizantina. Alguma influência terá sempre, o que muda é o tamanho dessa influência. 

A conjugação de um conjunto de fatores maléficos produziu as condições para que um bisonho e boquirroto deputado que há 30 anos vinha defendendo a ditadura militar e a eliminação dos seus oponentes e mais uma meia dúzia de opiniões tresloucadas chegasse ao mais alto cargo da República.

Tudo o que se sucedeu, incluindo a criminosa conduta diante da pandemia de Corona vírus e a condenação pela trama golpista, a um só tempo desmascara o falso “mito” e permite a manutenção, ainda que residual, de certa influência sobre parcela da extrema direita mais radicalizada. 

Entretanto, não terá o peso que muitos imaginam, pois circunscrito à camada capaz de rezar em torno de um pneu. 

Demais, o capital financeiro dominante, o grande agronegócio exportador e os monopólios do varejo, que dele se serviram, cuidam de construir uma alternativa, dita confiável e eleitoralmente competitiva, na ânsia de bloquear uma nova vitória de Lula nas urnas. 

Nas novas circunstâncias, o chamado bolsonarismo mais atrapalha do que ajuda. O que não impede que o núcleo familiar e alguns empedernidos correligionários do indigitado ex-presidente sigam espalhando diatribes e conspirando contra a nação. 

Do outro lado da ponta, há que se ampliar mais ainda a conjugação de forças ora reunida em torno de Lula e seguir produzindo bons resultados através da obra de governo e preparar, com esmero e competência, o embate eleitoral vindouro. 

Na agenda, inescapável é enfrentar o desafio de eleger deputados federais e senadores comprometidos com a democracia e com a nação, na dimensão necessária para alterar a correlação de forças no parlamento, hoje tão adversa.

*Texto da minha coluna no portal Vermelho

[Qual a sua opinião?]

Leia também: Sem norte e sem razão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/minha-opiniao_25.htm

Humor de resistência

 

Enio

Sem norte e sem razão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/minha-opiniao_25.html 

Resistência social e código aberto

A repórter que desnudou o ChatGPT
Ao lançar nova edição de seu livro sobre a OpenAI, Karen Hao sustenta: corporação de Sam Altman quer transformar tecnologia promissora em máquina de alargar desigualdades e eliminar direitos. Respostas: resistência social e código aberto
Entrevista a Carles Planas Bou, em El Periodico | Tradução: Antonio Martins/Outras Palavras  

No final de 2019, Karen Hao tornou-se a primeira jornalista a visitar os escritórios da OpenAI. Naquela época, a startup de inteligência artificial era desconhecida fora do Silicon Valley. Seu líder, Sam Altman, insistia que sua missão era criar uma máquina com a capacidade de aprendizagem e raciocínio da mente humana para salvar o mundo, mas Hao soube detectar muitas fissuras nesse discurso idealista. Após publicar sua reportagem crítica e rigorosa, a empresa proibiu que ela voltasse a entrar em sua sede. “No começo me senti muito mal (…) mas o importante não é manter o acesso, e sim dizer a verdade”, explica a El Periodico. Dois anos depois, o lançamento do ChatGPT desencadeou uma competição comercial e geopolítica que já alterou nossa realidade.

Hao usou o desprezo da OpenAI como motivação. Suas habilidades jornalísticas e conhecimentos técnicos profundos — ela é engenheira mecânica formada pelo MIT — cristalizaram-se em The IA Empire [O Império da IA, recém-publicado na Espanha pela Edições Península], uma pesquisa enciclopédica que disseca com precisão cirúrgica o impacto global da indústria de IA. Baseia-se em mais de 200 entrevistas, documentos internos e uma lucidez narrativa que transforma o primeiro livro de Karen hao, um ensaio de quase 600 páginas, numa leitura fascinante. Sam Altman ficou tão perturbado que tuitou que ninguém deveria ler a obra.

Você compara a indústria da IA com os antigos impérios. Por quê?

Porque essas empresas estão acumulando uma quantidade histórica de poder econômico e político.

Como?

Faço quatro paralelos. O primeiro é a apropriação de recursos que não são delas, como os dados que coletam da internet para treinar seus modelos. O segundo é a exploração de trabalhadores que não recebem quase nada em troca e que também se manifesta no desenho de sistemas que automatizam o trabalho e corroem os direitos trabalhistas. Isso não é uma característica inerente à IA, e sim uma escolha política. O terceiro é que monopolizam a produção de conhecimento, capturam o talento dos pesquisadores em IA e distorcem a compreensão fundamental que o público tem das limitações e capacidades dessas tecnologias, permitindo apenas determinados tipos de pesquisa e censurando a pesquisa crítica. E o quarto é que recorrem a um discurso moral imperativo sobre sua existência.

Ganhar a corrida para evitar que a China o faça.

Dizem que são os impérios bons com uma missão civilizatória de levar o progresso e a modernidade a toda a humanidade. Precisam de acesso sem restrições a todos esses recursos porque estão imersos numa intensa corrida existencial com o suposto império malvado: a China, segundo o Vale do Silício. E se os maus chegarem primeiro à meta, isso levará ao desaparecimento da humanidade. Em contrapartida, se os Estados Unidos vencerem, a humanidade terá a oportunidade de elevar-se a uma utopia ou a um paraíso da IA.

Muitos políticos abraçam acriticamente essa narrativa de que a IA equivale a progresso. Mas para um império prosperar, sempre é preciso sacrificar uma parte da população.

Exato. Devemos rebater a crença de que precisamos de impérios e das zonas de sacrifício que acarretam para obter os benefícios da IA. Há certos tipos de IA que podem ser profundamente benéficos para a Saúde ou as oportunidades econômicas. Mas é preciso separar isso da concepção que o Vale do Silício vende – a de que se requer uma forma imperial para controlar toda a terra, a energia, a água, os dados, a mão de obra e o capital e produzir algo que, em última instância, não gera tantos rendimentos e não é realmente um modelo de negócio viável. Por isso creio que, quando os políticos caem na armadilha de que só há um caminho para o desenvolvimento da IA, também caem no erro de que há certos tipos de danos planetários que temos que aceitar.

Danos ambientais, trabalhistas… 

Não apenas. O que está ocorrendo é muito perigoso porque não falamos de danos isolados, e sim de um perigo para a democracia. Com o governo Trump 2.0 temos visto como estas corporações estão despojando tanta gente de seus recursos, de sua capacidade de ação, a ponto de pensarem que já não podem controlar seu futuro. E então voltamos a uma época em que um pequeno grupo de pessoas no topo pode ter uma profunda influência na vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. E essa erosão fundamental da liberdade é o que permite a proliferação desses impérios.

A OpenAI passou da promessa de curar o câncer à criação de algo parecido com um chatbot pornô. A empresa está a caminho de perder 27 bilhões de dólares nos próximos dois anos. O boom de investimentos em IA são sete empresas fazendo empréstimos umas às outras de forma circular. E o investidor Michael Burry, que antecipou a crise hipotecária de 2008, vendeu suas ações na Nvidia. É um negócio viável?

Não é de forma alguma um negócio viável. As corporações já estão ficando sem meios para monetizá-lo. Testaram com assinaturas, mas a maioria das pessoas e empresas não quer pagar por esta tecnologia. Por isso, agora estão tentando montar uma estratégia para oferecer anúncios. Mas nem mesmo isso funciona para o Google, que tem o maior negócio publicitário da história. A OpenAI está tentando tapar um buraco de 1,4 bilhão de dólares. Também estão tentando lançar um monte de produtos de consumo que, como o Sora 2, viralizaram e depois decaíram. Não vejo como vão fechar este buraco, porque nunca existiu um modelo de negócio na indústria tecnológica que tenha gerado os rendimentos necessários. A coisa não parece nada bem.

Com as redes sociais nos acostumamos a ceder nossa privacidade. O que muda com a IA?

No passado, as pessoas forneciam todos os seus dados sem se dar conta de que essas empresas podiam corroer as democracias em todo o mundo. Depois vimos como a Meta estava fomentando uma limpeza étnica em Mianmar e a violência em todo o mundo. Os impérios da IA elevaram os danos a outro nível. O ritmo atual de construção de data centers está provocando um aumento histórico da demanda energética tanto nos EUA quanto na Europa, e está começando a colocar em perigo os objetivos de luta contra a mudança climática, a reverter todos os avanços climáticos que conseguimos, a aumentar a contaminação atmosférica nas comunidades, a agravar a crise da água.

O que você diria então aos usuários do ChatGPT?

Que quando fornecem dados a essas empresas, o que realmente estão fazendo é fornecer poder aos impérios, para que sejam cada vez mais fortes e menos responsáveis. Não estão apenas erodindo nosso meio ambiente, nossa saúde, nossa privacidade, nossa propriedade intelectual e nossa capacidade futura de ter oportunidades econômicas. Também estão erodindo as liberdades e capacidades fundamentais para determinarmos nosso futuro. Que ferramenta pode valer nossa liberdade?

É preciso apostar em alternativas?

Há muitas formas de desenvolver tecnologias de IA benéficas que não requerem impérios, nem esse comportamento exploratório e extrativista. Quanto mais se reforça a imagem de marca de empresas como a OpenAI, menos investimento é destinado a alternativas que não nos prejudiquem. No primeiro trimestre de 2025, quase 50% do capital de risco foi destinado unicamente à OpenAI e à Anthropic. O investimento em tecnologias climáticas diminuiu drasticamente porque os mesmos investidores estão retirando seu dinheiro e destinando-o à ampliação desses modelos de IA. Esses impérios estão prejudicando nosso futuro de muito mais formas do que pensamos.

O código aberto é essa alternativa?

Claro que sim. Quando se utilizam modelos de código aberto, não se cede poder ao império. Os dados não saem do seu dispositivo. Não vão parar no servidor de alguma empresa que depois os utiliza para construir modelos cada vez maiores. A forma-chave de desafiar os impérios é minar sua monopolização do conhecimento. O código aberto permite isso, porque pesquisadores independentes que não são financiados por essas empresas, podem investigar os modelos, compreender as limitações e capacidades das tecnologias e criar conhecimento de interesse público sobre como queremos utilizar essas ferramentas, como regulá-las e governá-las. Precisamos de mais dessa produção de conhecimento independente para minar o monopólio narrativo que os impérios possuem.

Os gigantes que querem implantar seus centros de dados vendem, a políticos locais que não entendem de tecnologia e só pensam em ciclos eleitorais, promessas de grandes investimentos e criação de postos de trabalho. Essa assimetria de poder é uma ameaça para as comunidades?

Sem dúvida. Vão às cidades mais vulneráveis e economicamente subdesenvolvidas, para seduzir o governo local de plantão. E o fazem a portas fechadas, ocultando suas atividades, de modo que os moradores não possam protestar. Nos EUA já estão pedindo aos funcionários públicos que assinem acordos de confidencialidade antes mesmo de negociar esses acordos sobre data centers. Estão tornando impossível o funcionamento da democracia. Negam que as pessoas possam se opor a como utilizam enormes quantidades de recursos públicos, como a água, ou a como aumentam as contas de energia das pessoas. Atuam na obscuridade porque querem instalar sua infraestrutura antes que os cidadãos reajam, o que demonstra até que ponto suas ações são impopulares.

Não podemos falar de IA sem mencionar que as tarefas cruciais são terceirizadas de forma precarizada no Sul Global. Qual é essa outra realidade que tentam ocultar?

O usuário médio do ChatGPT não percebe que a razão pela qual não é inundado por discursos de ódio tóxicos, e por assédio, é o fato de haver outras pessoas expostas a isso – cujo papel é ensinar aos filtros de moderação de conteúdo o que bloquear. A OpenAI contratou esses trabalhadores no Quênia. Sua tarefa é similar à dos moderadores de conteúdo das redes sociais – ou até pior, porque não só lhes é mostrado o mais daninho que as pessoas publicam na internet, mas também o mais prejudicial criado pelos próprios modelos de IA. É como um espaço infinito de dor.

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Arte é vida

 

Maurício Arraes 

Presente e futuro na luta cotidiana: a reforma urbana, por exemplo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html