Uma
noite com Valquíria
Marco Albertim, no Vermelho
Nas primeiras chuvas do inverno,
o canto da praça, sob o oitizeiro, ficou vazio. Na véspera, um mudo grupo de
moços, sem saber o que falar, sorvera um tubo plástico de cola; cada um com o
seu.
Com a chuva,
abrigaram-se sob a marquise do Suíça Hotel; sem correria, posto que a rotina
enfadonha nunca lhes reservara surpresas, a não ser a certeza de que uma brisa
noturna insinuar-se-ia nos narizes, trazendo um feliz embrulho para os
estômagos vazios. O porteiro olhou-os, pôs nos olhos a tolerância de um cão de
guarda. Conhecia-os, tinha-os como cinco cheira-cola vadios; recontou-os para
reafirmar o instinto canino. A menina de quinze anos, cabelos soltos, peitos
crescidos, coagidos na blusa apertada; muda, pedindo para não ser expulsa dali.
Pusera o tubo de cola entre um peito e outro, cruzando os braços. Nos olhos o
efeito da droga, inda que os braços, as p ernas mostrassem pelos eriçados sob o
frio. Era a única com um colchão de espuma, sem tecido, o mais confortável
entre as esteiras de papelão trazidas pelos outros.
Na
segunda-feira, pouco ou nenhum registro na portaria do hotel. O porteiro
entrou, deixou a porta da frente entreaberta, sentou na cadeira de costume,
fechou os olhos para dormir... Ou para fingir familiaridade com a noite. Até o
começo da madrugada, nenhum casal alugara os lençóis rotativos do hotel. Menos
mal, ele urdiu. Logo o sol cobriria as árvores da Praça 13 de Maio, os moleques
voltariam para o oitizeiro junto com o mascote, o vira-lata pulguento.
Às cinco horas,
o moleque mais velho se deu conta do mundo. Pálpebras inchadas, cílios
remelosos, coçou os olhos e viu o colchonete de Valquíria vazio. Quis acordar
os outros. Não foi preciso, a narina suja e o fedor da rua acordaram o resto.
Não tinham hora para comer, vez que queriam comer a toda hora. Mas os quiosques
com guaranás, coxinhas, o cheiro, deram-lhes sustento nas pernas. Ficaram mais
uma hora, o tempo imaginado para o chão de grama e areia, sob o oitizeiro,
enxugar. Valquíria deixara a própria cama, por certo dormira numa melhor, longe
da friagem.
De volta à
sombra do oitizeiro, repuseram os minguados trapos. A cama da loura Valquíria,
enrolada num cordão de barbante. Cada um seguiu para um lado, catando sobras
nos quiosques, nas lanchonetes. Os tubos de cola, escondidos entre os panos. O
vira-lata submisso, intimidado com os motores dos ônibus, aquietara-se entre as
raízes da árvore.
O Parque 13 de
Maio enchera-se de estudantes. Havia faixas alusivas ao aniversário da cidade.
O moleque mais
velho, de volta ao quiosque vizinho à marquise do hotel, não se surpreendeu
quando viu Valquíria saindo da portaria. Atrás dela, o porteiro; tomara um
banho, o zeloso porteiro. Valquíria também se banhara, mas os cabelos estavam
revoltos e o tubo de cola ainda entre um peito e outro.
[Ilustração: Pedro Dias]
"Definitivamente, um plebeu provinciano" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_12.html

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