Realismo
mágico
Cícero Belmar
O sertanejo tem um olhar atento para a natureza. É olhar aprendido. Observando atenta e muitas vezes desesperadamente para a paisagem e para os animais, desenvolveu a habilidade de perceber todas as possibilidades dela. Sim, ele lê a linguagem oculta do meio ambiente.
De
geração em geração, foi capacitando essa percepção. Compreendendo e lendo o
tempo. Fazendo previsões de chuvas ou de sua ausência. Ele acredita no que lê.
E sabe se está perto ou longe de haver precipitações.
Digamos
que seja um olhar sobrenatural. Não no sentido da assombração ou da magia. Mas,
do que transcende. Ele olha e, na sensibilidade da percepção, aprendeu a ter
uma expectativa confiante, uma certeza absoluta, e a dizer: “Está longe de
chover”. Ou, “está perto”.
O
sobrenatural do olhar foi entender que a realidade que está posta é apenas um
fragmento dela mesma. Por exemplo, quando, do nada, nasce um fruto de casca
avermelhada no pé do mandacaru, em plena estiagem, o sertanejo sabe que já pode
comemorar. Isso quer dizer que dias chuvosos virão.
Há
outros, diversos sinais. Se as nuvens começam a ficar “escamadas”, como se diz
no semiárido, também é um forte sinal de que muito em breve haverá
precipitações. As nuvens ficam escamadas quando se dividem em pequenos flocos,
uns próximos dos outros. Cristais em flocos na realidade lá em cima. Cá
embaixo, água.
O
que acho fantástico é que essas sabedorias populares nasceram de um olhar
atento, sensível e paciente. De uma memória que, passando de um observador para
o outro, não foi negligenciada. E por não ter sido desprezada, alimentaram
esperanças. Formaram identidade.
Um
dia a minha irmã Socorro viu uns passarinhos, no chão, brincando com a areia
quente. Ela me mostrou e contou que um senhor, residente na zona rural, tinha
lhe revelado que quando os pássaros “tomam banho com areia quente”, é chuva que
está a caminho.
Os
pássaros se esparramavam na terra.
–
Vai chover em três dias. No máximo.
Antes
dos três, “choveu água e não foi brincadeira”. O nome que os sertanejos dão a
esse olhar que transcende o natural é “experiência”. Uma delas comprova
que, neste mês de março, na passagem do Dia de São José, 19, o sertanejo pode
começar a plantar onde chover. Em três meses, haverá fartura de feijão e milho
verdes.
Aqui,
é preciso abrir parênteses. São José é um dos santos católicos mais cultuados
pelos sertanejos, que atribuem a ele a façanha de fazer chover no Sertão.
Quando o pai de Jesus, no seu dia, ou próximo a ele, “abre suas mãos” e “manda
graças”, a festa da colheita estará garantida no São João.
O
certo é que, em março, ocorre um momento astronômico chamado de passagem do
equinócio, que pode influenciar nas chuvas. Aqueles sertanejos antigos e sem
instrução conheciam a ciência? Não. No Sertão, a vida, antes de ser concreta, é
realismo mágico.
"Definitivamente, um plebeu provinciano" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_12.html

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