Saudade do glamour imaginário da infância
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Não devia ter mais do que cento e cinquenta metros a distância entre a mercearia do meu pai, Renato, e a padaria Moderna, do seu Antenor, na Lagoa Seca, em Natal. Mas eu achava uma distância imensa! Questão de perspectiva, no olhar do menino de 9 anos apenas, numa época em que nessa idade se sabia muito menos do que meu neto Miguel, de 8 anos, sabe hoje. Ir comprar o pão para mim era uma aventura, me sentia Flash Gordon explorando o Universo.
É que a dimensão
das coisas se ampliava nas ondas da imaginação. Por isso o barra-a-barra com
bola de meia, um contra um ou em duplas, equivalia ao clássico ABC X América em
final do campeonato. Na boquinha da noite, de banho tomado, ali na esquina,
sentados na calçada, a resenha dos lances espetaculares fazíamos com binóculos
poderosos.
E as aventuras a
bordo dos caminhões de madeira e latas de óleo Salada, pelas estradas do
Brasil? Sensacionais, plenas de riscos e manobras à margem de despenhadeiros
construídos na areia, próximo ao coreto situado no cruzamento das ruas São João
e Alberto Silva.
Aliás, sob o
coreto, me impressionava ouvir histórias contadas por colegas mais crescidos e
experientes em incursões por outros lugares da cidade. Pouco importava a dúvida
quanto à veracidade do que se dizia, valia a fantasia inspirada nas aventuras
de Zezé Vida Torta, Luís Cambadinho, Carrunda e outros. Eles falavam de brigas
terríveis na saída do cinema, copiadas de Roy Rogers, Hopalang Cassidy, Buck
Jones. Ou ao término dos jogos no Estádio Juvenal Lamartine, no Tirol, quando
levavam às últimas consequências os xingamentos entre torcedores rivais. Eu
sentia inveja daquela turma que se locomovia livremente, sem os limites dos
meninos "de família". Mas não me recordo de ferimentos ou hematomas
no corpo dos nossos heróis.
E o temporal
ameaçador, que enfrentei protegido no banco traseiro de um Renaux Perfect, ao
lado da vovó Neném. Era o veículo particular do tio José Ivo, médico
conceituado, caridoso e amado pelo povo. O chofer foi nos buscar lá em casa e
nos conduziu até a Avenida Rio Branco, onde residia e clinicava o tio Zezé. Na
volta, frustrei-me porque parara de chover e a minha aventura aquática já não
fazia sentido.
O tempo passa, a
maturidade chega e a gente se obriga a enxergar as coisas como são, sem o
glamour imaginário da infância. Agora importa a verdade dos fatos, a realidade
cara a cara. Porque não se deve tomar decisões sem os pés no chão, de olho nas
consequências. São outras às aventuras, ousadas algumas, mas todas contidas
pelo paquímetro do bom senso. É a vida.
Uma crônica de novembro,
2013
Leia: "Especialista em quê mesmo?" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/minha-opiniao_30.html

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