16 março 2026

Trump tresloucado

Trump não obtém adesão para patrulhar Ormuz e ameaça aliados com tarifas
Tentativa da Casa Branca de terceirizar escolta no Estreito de Ormuz esbarra na desconfiança internacional e aliados recusam enviar navios
Davi Molinari/Vermelho     


O governo de Donald Trump enfrenta um cenário de isolamento diplomático após o fracasso inicial em arregimentar uma coalizão militar para patrulhar o Estreito de Ormuz. Potências da Europa e da Ásia reagiram com evasivas ou negativas diretas à convocação de Washington. O impasse revela uma Casa Branca que, embora proclame “vitória total” sobre o Irã, não consegue projetar a liderança necessária para estabilizar uma das rotas marítimas mais sensíveis do planeta.

Países recusam o chamado

No último sábado (14), Trump utilizou a plataforma da extrema direita Truth Social para exigir que as nações dependentes do petróleo da região assumam os custos e os riscos da navegação. O argumento de Washington é que os EUA não devem mais arcar sozinhos com a proteção de uma rota que beneficia diretamente economias como a chinesa e a japonesa.

O cenário de paralisia diplomática no Estreito de Ormuz expõe a fragilidade da estratégia de “pressão máxima” adotada pelo governo Trump. A França, por meio de seu Ministério das Relações Exteriores, foi taxativa ao manter seu porta-aviões no Mediterrâneo Oriental, sem planos de deslocamento para o Golfo. Seguindo uma linha de cautela semelhante, o Reino Unido e a Coreia do Sul limitam-se a análises técnicas, sem qualquer confirmação de envio de ativos militares para a região. A Austrália também informou que não enviará um navio ao Estreito de Ormuz.

Mesmo nações com dependência vital do fluxo petrolífero hesitam em aderir à coalizão. O Japão, amparado por sua Constituição pacifista, frustrou as expectativas da Casa Branca ao afirmar que tomará decisões “independentes”, apesar de 95% do seu petróleo transitar por Ormuz. A China, por sua vez, evitou compromissos navais, restringindo-se a apelos diplomáticos por um cessar-fogo e responsabilidade compartilhada.

A insistência de Trump em cobrar uma postura ativa de Pequim ganha contornos de provocação ou erro de cálculo estratégico, visto que o Irã já declarou publicamente que não bloquearia petroleiros de parceiros como China e Índia. Esse salvo-conduto torna o pedido norte-americano insólito, sugerindo que a pressão sobre os chineses visa mais o desgaste político do que a segurança energética em si.

Até mesmo os pilares da influência dos EUA no Oriente Médio recuaram. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos sinalizaram que a prioridade é a defesa de seus próprios territórios, rechaçando explicitamente o uso de suas bases para eventuais ataques norte-americanos. Esse isolamento total deixa a proposta de patrulha internacional em um impasse, transformando a tentativa de “terceirizar” a segurança em um gatilho para novas tensões comerciais com a OTAN.

Da diplomacia à chantagem tarifária

A frustração da Casa Branca em Ormuz não ocorre no vácuo e se soma a uma escalada de tensões com a OTAN. Em uma manobra que mistura defesa estratégica com protecionismo econômico, Trump ameaça impor tarifas de 10% a 25% sobre aliados europeus — incluindo França, Alemanha e países nórdicos — como retaliação a exercícios militares realizados na Groenlândia em janeiro deste ano.

Para analistas internacionais, a postura de Trump sinaliza uma fragmentação sem precedentes na aliança atlântica. Ao condicionar a adesão militar a acordos comerciais e tarifas punitivas, Washington opta por uma política de confronto que empurra antigos aliados para a neutralidade ou para a busca de autonomia estratégica.

Repercussão e Perspectivas

A expectativa é que a recusa sistemática dos países em aderir à patrulha de Ormuz gere novas explosões retóricas vindas do Salão Oval. Fontes diplomáticas antecipam que Trump pode utilizar o déficit comercial com Japão e Coreia do Sul como nova moeda de troca para forçar a adesão militar.  Entretanto, o que se vê no horizonte de 2026 é um Estados Unidos cada vez mais agindo de forma unilateral, enquanto o mundo observa, com crescente ceticismo, a eficácia de uma política externa baseada em ultimatos e postagens de rede social.

Irã fecha Estreito de Ormuz, mas não interrompe comércio com a China https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/parceria-resistente.html

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