17 setembro 2026

Pés na lama

“Folha” se soma ao “Estadão” e pede a cabeça de Flávio Bolsonaro
Jornais paulistas questionam não apenas o frágil programa do presidenciável da extrema direita – mas também sua trajetória política e sua experiência para ocupar o cargo máximo da República.
André Cintra/Portal Vermelho 
 

Os jornalões brasileiros vivem uma crise de consciência. Embora mantenham uma linha editorial crítica ao governo Lula e à candidatura do presidente à reeleição, não conseguem confiar na alternativa bolsonarista. Nesta quarta-feira (16), a 18 dias do primeiro turno, a Folha de S.Paulo se somou a seu principal concorrente, o Estadão, e pediu a cabeça de Flávio Bolsonaro (PL).

Em comum, os dois veículos questionam não apenas o frágil programa do presidenciável da extrema direita – mas também sua trajetória política e sua experiência para ocupar o cargo máximo da República. Sem a transferência do capital político do pai – o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso e inelegível –, seria difícil explicar como Flávio chegou à atual condição de candidato competitivo ao Planalto.

Com o título “Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista”, a Folha mostra hoje, em editorial, por que se recusa a chancelar o presidenciável bolsonarista. “Flávio não possui experiência em gestão relevante nem trajetória parlamentar que, por si, o credencie para a Presidência. Mais grave é o projeto político do qual se apresenta como herdeiro”, aponta o texto.

A Folha também acusa Flávio de “preservar o discurso de confronto institucional”, devotar “subserviência” ao presidente norte-americano, Donald Trump, e ter vínculos com nomes “associados a atividades criminosas”. Sem contar os diálogos constrangedores com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que levou Flávio a ser investigado por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Não fica claro, segundo o jornal, qual o ganho que o Brasil teria se elegesse um presidente com esse perfil. “Antes de postular à Presidência, Flávio precisa demonstrar que está preparado para exercê-la – e que aceita sem ambiguidades os limites que a Constituição impõe a quem ocupa o poder”.

“Dinheiro sujo”

No sábado (12), também em editorial, o Estadão já havia usado um tom duro contra Flávio Bolsonaro, “um candidato sob suspeita”. Diante das denúncias contra o senador, o tradicional jornal paulista negava qualquer respaldo ao projeto bolsonarista.

“É gravíssimo o fato de um candidato favorito, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, concorrer à Presidência da República na condição de investigado – e sob tão sérias suspeitas”, avaliou o Estadão. “Isso só reforça que Flávio Bolsonaro não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos, quanto mais para ser chefe de Estado e de governo.”

O texto é mais longo que o da Folha e se debruça sobre o caso Dark Horse – a cinebiografia de Jair Bolsonaro que contou com “dinheiro sujo” de Daniel Vorcaro. Conforme lembra o jornal, “tudo indica” que parte da verba milionária foi desviada para “o sustento da vida de playboy que o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, leva nos Estados Unidos”.

O jornal conclui: “Espera-se que um candidato à Presidência da República saiba distinguir entre o certo e o errado, o público e o privado, o lícito e o ilícito. Alguém que se perde entre essas noções elementares, evidentemente, não está qualificado para governar o Brasil”.

É importante notar que a manifestação dos dois jornalões ocorre num momento em que Flávio Bolsonaro aparece tecnicamente empatado com o presidente em algumas pesquisas de segundo turno. Nem mesmo a perspectiva de uma disputa competitiva parece ter levado os barões da imprensa paulista a abraçar o candidato bolsonarista. Estadão e Folha estão órfãos na corrida eleitoral.

[Ilustração: Aroeira]

A praça ainda é do povo? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_02118984853.html 

16 setembro 2026

Palavra de poeta

Ausência
Carlos Drummond de Andrade     

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

[Ilustração: Salvador Dali]

Um poema de Ana Estaregui https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_4.html 

Dica de leitura

Importa saber
Luciano Siqueira   

Não tenho, obviamente, condições de julgar o desempenho da ministra Cármen Lúcia, do STF. Apenas me causa espécie ver como a mídia a trata, conforme se comporte em favor de tal ou qual interesse.

Daí a oportunidade de ler artigo de Luís Nassif, onde faz uma análise crítica da trajetória da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, destacando a contradição entre a sua imagem pública e sua atuação prática nos processos judiciais https://jornalggn.com.br/destaque-capa/jamais-existira-uma-ministra-como-carmen-lucia-por-luis-nassif/ .

Segundo Nassif, o desempenho da ministra envolve discursos moralistas seguidos de omissões, oscilações de posição e silêncios calculados. Daí a fama de “amiga da imprensa”, o que lhe garantiu uma blindagem midiática ao longo de sua carreira no STF.

Casos de grande repercussão são relembrados e a condutar da ministra em relação a cada um deles. Vale conferir.

[Ilustração: Jildelt]

A sociologia do golpe https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/natureza-do-golpe.html 

Tal pai, tal filho

“Se o pai fez isso, imagina o filho”: relembre alguns dos descalabros de Bolsonaro
Campanha de Lula lembra algumas das principais (e piores) marcas deixadas pelo ex-presidente, presentes também no DNA de Flávio Bolsonaro (PL)
Priscila Lobregatte/Vermelho 
   

Pessoas disputando ossos e carcaças para comer; covas simples abertas às pressas para dar conta dos milhares de mortos da pandemia; desmatamento avassalador; estímulo ao ódio e ao uso de armas; desemprego em alta, renda em baixa e um presidente omisso, irresponsável e cruel. Esses são apenas alguns dos muitos tormentos vividos pelos brasileiros durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).

Com o objetivo de recordar esses fatos e mostrar à população que com Flávio Bolsonaro (PL) a situação pode ser ainda pior, a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou uma peça impactante. Sem citar nomes, a propaganda usa como mote a frase “se o pai fez isso, imagina o filho”, acompanhada de imagens que ilustram essas situações.

A peça vai direto ao ponto. Sob Bolsonaro, o Brasil viveu um de seus piores momentos. E nada indica que seria diferente com Flávio — que não apenas defende as mesmas bandeiras como vai além, por exemplo, em sua sanha entreguista.

Crime contra a nação

Bolsonaro está preso por tentativa de golpe — e esta é mais uma das principais marcas de sua passagem tenebrosa pela presidência da República. Mas, o pior de seus crimes foi cometido contra milhares de brasileiros mortos durante a pandemia e seus familiares e órfãos.

É fato que o mundo todo sofreu com a pandemia, em maior ou menor grau. Mas, também é fato que, com a estrutura de saúde pública que o Brasil tem e com medidas efetivas por parte do governo, o Brasil poderia ter muito menos do que as 700 mil vítimas diretas registradas até o final de 2022. Isso sem contar pessoas que perderam a vida por outros problemas de saúde que não puderam ser devidamente tratados naquele momento.

Com cerca de 3% da população mundial, o Brasil respondeu por 11% das mortes registradas em todo o planeta, dado que explicita a desproporção no número de óbitos acumulados pelo País. Segundo estudo feito pelo epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal, e apresentado durante a CPI da Covid, quatro em cada cinco mortes pela doença no País poderiam ter sido evitadas caso o governo federal tivesse adotado outra postura — apoiando o uso de máscaras, estimulando medidas de distanciamento social, fazendo campanhas de orientação e ao mesmo tempo acelerando a aquisição de vacinas.

Bolsonaro não fez nada disso. Ao contrário: circulava sem máscara, desprezava a gravidade da doença, zombava de quem temia a doença e de quem tentava respirar e não conseguia devido ao vírus e estimulava as pessoas a trabalharem em nome da economia. As medidas tomadas então foram encabeçadas por governadores e prefeitos e pelos servidores públicos que resistiram aos desmandos de Bolsonaro.

Da parte do governo federal, além do descaso, a gestão foi marcada por total desorganização e desrespeito — como aconteceu na crise no Amazonas, em que pessoas morriam sem ar por falta de tratamento e de respiradores.

Relatório da CPI da Covid, aprovado em outubro de 2021, apontou fortes indícios de corrupção e irregularidades nas negociações envolvendo a compra de vacinas oferecidas ao Brasil, o que também ajudou no atraso da aquisição.

A Comissão listou, ainda, outros absurdos que levaram a essa tragédia: a aposta numa suposta “imunidade coletiva”; o incentivo a falsos “tratamentos precoces” com cloroquina e ivermectina; a disseminação, via máquina pública, de desinformação e mentiras sobre a doença; a crise no Amazonas e a formação de um “gabinete paralelo” com pseudo-especialistas que orientavam o presidente à revelia do Ministério da Saúde.

Por fim, a Comissão pediu o indiciamento de Bolsonaro por nove crimes — entre os quais epidemia com resultado morte, infração de medida sanitária preventiva e charlatanismo, entre outros. Como não tem poder para processar, a CPI enviou o documento à Procuradoria-Geral da República (PGR), ao Supremo Tribunal Federal (STF), ao Tribunal de Contas da União (TCU) e a outras autoridades para dar seguimento legal, mas até o momento, não houve nenhuma responsabilização.

Fila de ossos

As chamadas “filas de ossos” foram um dos desdobramentos da dramática situação enfrentada pelos brasileiros mais pobres durante os anos de pandemia sob o governo de Bolsonaro.

A partir de 2021, pessoas passaram a esperar, em açougues e mercados, por carcaças e ossos descartados ou vendidos a preços módicos para usarem para fazer sopas e conseguirem se alimentar.

O caso, porém, não foi apenas resultado dos impactos da pandemia. Deveu-se, sobretudo, ao desmonte de políticas públicas e à falta de medidas por parte do governo Bolsonaro para mitigar as perdas e dificuldades daquele período, marcado por alto desemprego e inflação dos alimentos.

Entre 2019 e 2021, 61 milhões de brasileiros enfrentaram dificuldades para se alimentar, dos quais 15 milhões passaram fome, segundo a ONU. Como resultado, o Brasil voltou ao Mapa da Fome, do qual havia saído em 2014 durante o governo de Dilma Rousseff, que deu continuidade às políticas sociais e de transferência de renda iniciadas por Lula em seu primeiro mandato.

Somente em 2025, após Lula retomar as políticas de geração de emprego e renda e restabelecer uma série de medidas de âmbito social e econômico o Brasil pôde, novamente, abandonar o Mapa.

É preciso lembrar, ainda, que durante a pandemia, Bolsonaro não cogitava sequer conceder auxílio emergencial, mesmo sabendo da grave situação vivida por boa parte da população. Pressionado, passou a considerar a hipótese de pagar um valor ínfimo, de R$ 200. Somente após uma série de articulações, principalmente por parte de movimentos sociais e da esquerda, foi sancionado o valor aprovado pelo Congresso de R$ 600.

Desmatamento liberado

O governo Bolsonaro também ficou conhecido como o que queria “deixar passar a boiada” — como tão bem sintetizou seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Durante reunião em 2020, ele defendeu que o governo deveria aproveitar que a imprensa e a sociedade estavam focadas na pandemia para derrubar normas e alterar regras de proteção ambiental, beneficiando, assim, setores como os do agronegócio e de extração de madeira, bem como o de garimpo ilegal, entre outros.

Segundo o Observatório do Clima, somente na Amazônia houve um crescimento de 60% no índice de desmatamento durante o governo de Bolsonaro ante os quatro anos anteriores. Somados, o Cerrado e a Amazônia concentraram cerca de 90% de todo o desmatamento do país no último ano de sua gestão. E o Pantanal teve recordes sucessivos de queimada. O pior ano para o bioma foi 2020, quando ao menos 30% foi consumido pelas chamas.

Soma-se a isso outros descalabros na gestão ambiental, como o desmonte e a paralisia nos órgãos de fiscalização; o fim de secretarias estratégicas, o esvaziamento do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente); o congelamento de fundos como o da Amazônia e do Meio Ambiente; a flexibilização de regras para o garimpo e para a exploração das florestas.

Bolsonaro também acabou com as demarcações de terras indígenas e enfraqueceu a atuação da Funai, resultando no avanço de invasões a territórios protegidos. Essa política levou ao aumento do desmatamento e da extração ilegal de minérios e, pior, à maior crise humanitária enfrentada recentemente por uma etnia indígena, a Yanomami.

Somente após a posse de Lula, essa população passou a ser atendida dignamente, superando a emergência daqueles anos. Também houve uma série de medidas de desintrusão dos invasores e de retomada da proteção e recuperação ambiental.

Estímulo ao ódio e ao uso de armas

Falar da extrema direita e do bolsonarismo é falar, principalmente, do estímulo ao ódio em todas as suas formas e ao uso de armas de fogo, o que os configuram como movimentos claramente neofascistas.

O estímulo ao uso de armas — traduzido na campanha pela famosa foto de Bolsonaro com uma menina no colo fazendo a arminha que passou a simbolizá-lo — é uma das maiores chagas que o bolsonarismo legou ao Brasil.

Na base da canetada, Bolsonaro destruiu uma série de medidas visando o maior controle na circulação de armas de fogo — cujo maior símbolo fora o Estatuto do Desarmamento — defendendo o suposto direito de os cidadãos se armarem “contra a bandidagem”.

Como consequência, houve aumento no número de armas inicialmente legais em poder de organizações criminosas, seja por meio do roubo, seja pelo aliciamento ou uso de Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) para o fornecimento de revólveres, pistolas e outros artefatos de maior calibre e potência.

O “libera-geral” foi combatido por Lula desde a sua posse. Entre seus primeiros decretos estão o que suspendeu novos registros de armas de uso restrito e o que reduziu o limite de aquisição de armas para civis, entre outras medidas e ações posteriores.

O uso de armas vai ao encontro de outra forte característica do bolsonarismo. Durante sua carreira política e por todo o seu governo, Bolsonaro sempre promoveu o preconceito e banalizou a violência contra mulheres, negros, LGBTs e a esquerda, fosse por meio de ações, falas públicas ou da disseminação de discursos de ódio e fake news pelas redes sociais.

Ladeado pela onda de misoginia alimentada pelas redes sociais, o bolsonarismo ajudou a mergulhar o Brasil numa verdadeira epidemia de feminicídios e violência — inclusive política — contra as mulheres. Ao mesmo tempo, tornaram-se cada vez mais comuns manifestações abertas de racismo e homofobia pelo país.

Mais uma vez, foi somente após o início do terceiro mandato de Lula que uma série de ações e políticas públicas foram desenvolvidas para enfrentar esses e outros problemas legados por Bolsonaro e que ainda estão entranhados em nossa sociedade.

Cesta básica fica mais barata em 25 capitais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/boa-noticia.html

Postei nas redes

Colegiado de qualquer instituição comporta divergências e polêmicas. Por que o STF teria que ser uma exceção? 

Gol contra de André Mendonça https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01494046490.html 

Minha opinião

Abordagem capciosa
Luciano Siqueira   

Vinte e quatros horas por dia a grande mídia neoliberal martela criticas ao governo Lula por não equacionar, segundo dizem, o equilíbrio das contas públicas.

Mas praticam uma omissão grave.

Escondem os juros da dívida pública por um truque focam no Resultado Primário (receitas menos despesas sem contar os juros) e não no Resultado Nominal (que inclui os juros pagos).

A tática tendenciosa se apoia no argumento (falso) de que não cabe incluir os juros da dívida, mas tão somente o que está sob controle direto do Poder Executivo.

Ora, o governo age corretamente quanto gasta com saúde, educação, obras e funcionalismo (despesas primárias). Bons governos, como o de Lula, exercem aí a disciplina fiscal possível.

Entretanto, os juros (Selic) são definidos pelo Banco Central para controlar a inflação (política monetária). A taxa de juros é influenciada por fatores globais e expectativas de mercado, e não apenas de uma decisão orçamentária do governo.  

Nesse jogo pesado de interesses da elite financeira, se o governo gera um superávit primário, lê-se que terá capacidade de pagar ao menos parte dos juros no futuro, o que ajuda a baixar a própria taxa de juros de longo prazo.

Importa destacar que a maior fatia do crescimento do endividamento público vem do pagamento de juros altos aos detentores de títulos da dívida, e não do gasto social ou de investimentos em infraestrutura.  

Governos de direita valem-se do corte de gastos sociais para fechar a conta primária e preservar a remuneração do capital financeiro (juros) enquanto reduz a capacidade do Estado de ofertar serviços públicos básicos.

Há, portanto, um conflito claro entre os interesses dos que vivem da usura e os interesses do povo e da nação, onde ignorar os juros esconde a principal causa do endividamento e beneficia a elite financeira.

A reprimarização do Brasil e a possível virada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/brasil-desafios-do-desenvolvimento.html

Humor e resistência

 

Quinho

Basta à parcialidade golpista de André Mendonça! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_02048106521.html