16 setembro 2026

Ecossistema sociotécnico

Para além da sociedade do desempenho
O avanço da inteligência artificial transforma a autocobrança humana em um ecossistema sociotécnico regulado por métricas implacáveis de eficiência
Helio Miranda Costa Junior*/A Terra é Redonda 

 

1.

Ao longo de sua obra, Byung-Chul Han descreveu diferentes dimensões da transformação contemporânea. Em A sociedade do cansaço mostrou como a lógica do desempenho substituiu a disciplina como princípio organizador da subjetividade. O desaparecimento dos rituais  voltou-se à erosão das formas simbólicas que estabilizavam a vida coletiva. Já em Não coisas o tema passou a ser a crescente substituição do mundo dos objetos por um ambiente constituído por fluxos de informação. Embora cada obra possua um problema específico, elas podem ser lidas como momentos de um mesmo diagnóstico sobre a reorganização da experiência contemporânea.

A hipótese desenvolvida neste ensaio parte desse percurso, mas propõe que uma transformação recente deslocou novamente o objeto da crítica. Se Byung-Chul Han investigou principalmente as mudanças na subjetividade, nos vínculos e na materialidade do mundo, a expansão da inteligência artificial e das arquiteturas algorítmicas parece exigir atenção para outro nível de análise: o próprio sistema que coordena essas transformações.

A sociedade do cansaço foi publicada em 2010, quando sistemas de pontuação de crédito automatizados já operavam havia décadas, plataformas como Uber e Airbnb apenas começavam a se consolidar, e algoritmos de recomendação já organizavam parte relevante do consumo de conteúdo. A mediação algorítmica é, portanto, um fenômeno anterior ao livro. A diferença relevante está em outro ponto: quando a automação passou a ocupar, ela mesma, o lugar de agente avaliado e avaliador dentro do mesmo circuito de desempenho.

Esse deslocamento se intensifica sobretudo com a difusão de modelos generativos e agentes autônomos, distinto do momento anterior, em que sistemas técnicos calculavam e pontuavam ações humanas sem participar diretamente da execução do trabalho cognitivo ou criativo. O pressuposto de que essa produção permanece ancorada, em última instância, no sujeito humano já não parece suficiente.

Hoje, parte significativa das atividades cognitivas é realizada em cooperação com sistemas artificiais: escrevemos com auxílio de modelos de linguagem, decidimos apoiados por algoritmos, e delegamos a agentes computacionais tarefas que antes exigiam julgamento humano direto. Ao mesmo tempo, indicadores e protocolos automatizados como sistemas de pontuação passaram a coordenar o funcionamento de organizações inteiras. O desempenho continua sendo o princípio organizador, ainda que não dependa mais exclusivamente da ação humana.

2.

Um exemplo próximo torna esse deslocamento palpável. O sistema de avaliação por impacto acadêmico (fator de impacto de periódicos, índices de citação, o Qualis brasileiro) nasceu como heurística de relevância: um modo indireto de estimar se uma pesquisa alcançava e influenciava seus pares. Em poucas décadas, essa heurística deixou de acompanhar a pesquisa para passar a orientá-la.

Pesquisadores ajustam temas, métodos e a própria fragmentação de resultados em múltiplos artigos para atender às exigências do índice, e revistas reorientam políticas editoriais para subir no ranking, um ajuste que se propaga até as universidades, que redistribuem recursos e cargos conforme o desempenho agregado desses números. Nenhum agente isolado desenhou esse arranjo ou o controla inteiramente: ele resulta da articulação entre bases de citação, algoritmos de ranqueamento e comitês de avaliação, calibrados por uma mesma lógica.

O efeito é cumulativo: quem já ocupa posição central tende a ser mais citado e mais visível, o que reforça essa centralidade independentemente da qualidade intrínseca de cada contribuição isolada. A arquitetura que sustenta o sistema de impacto acadêmico, distribuída entre agentes humanos e técnicos sem que ninguém a tenha desenhado sozinho, ilustra em escala menor o que este ensaio chama de sistema do desempenho.

A racionalidade descrita por Byung-Chul Han permanece válida, porém seu objeto se ampliou. Se a sociedade do desempenho explicava um momento em que o sujeito ocupava o centro da produção, o presente parece exigir outra categoria analítica: a de sistema do desempenho. A mudança desloca o foco da análise para além do vocabulário. Byung-Chul Han descreve a forma como o sujeito internaliza a exigência de desempenho e passa a explorar a si mesmo.

A hipótese aqui proposta dirige a atenção para a arquitetura que organiza essa exigência: uma propriedade que emerge da articulação entre pessoas, algoritmos, plataformas e protocolos de avaliação, integrados por uma mesma racionalidade operacional, e que ultrapassa qualquer experiência subjetiva isolada.

3.

Essa hipótese encontra uma antecipação parcial em Infocracia, obra em que Byung-Chul Han desloca a análise da psicopolítica do sujeito-empresário-de-si para os regimes de governança algorítmica que organizam a esfera pública em enxame de dados. Sua crítica, contudo, mantém o sujeito como ponto de referência normativo, ainda que dissolvido. O enxame de dados aparece, nesse relato, como aquilo que se perde para o sujeito; a arquitetura que coordena dados, protocolos e agentes de naturezas distintas segundo uma métrica comum permanece em segundo plano.

É esse segundo movimento, o da erosão do sujeito para a descrição da arquitetura que a produz, que a hipótese do sistema do desempenho procura tornar explícito.

O conceito de sistema do desempenho também precisa ser distinguido de descrições vizinhas. O “capitalismo de plataforma” (Platform capitalism), tal como Nick Srnicek o descreve, permanece fundamentalmente uma teoria de acumulação: a plataforma intermedeia e processa dados como nova forma de capital, e sua lógica central permanece econômica. A hipótese do sistema do desempenho desloca o eixo da análise da acumulação para a normatividade: para o critério que passa a avaliar a atuação de qualquer agente, humano ou técnico, dentro do mesmo circuito.

Antoinette Rouvroy descreve, por sua vez, a governamentalidade algorítmica como um poder que antecipa condutas a partir de correlações estatísticas, dispensando o sujeito como instância de referência. Otávio Morato de Andrade retoma essa hipótese no contexto brasileiro, associando-a aos riscos que a governamentalidade algorítmica representa para a democracia (Governamentalidade algorítmica: democracia em risco?). O sistema do desempenho aqui proposto não abandona o sujeito: redistribui-o como um entre vários agentes avaliados pela mesma métrica de eficiência. Continua havendo algo a exigir de alguém, mesmo quando esse alguém deixa de ocupar sozinho o centro da exigência.

Essa diferença altera a própria pergunta filosófica. A pergunta sobre como o indivíduo se torna empresário de si mesmo não abrange mais a questão inteira. Importa também compreender como um sistema passa a coordenar agentes de naturezas distintas segundo critérios comuns de eficiência, previsibilidade e otimização. Nesse contexto, a distinção entre humano e artificial segue existindo, deslocada do centro que antes ocupava como eixo organizador da análise. O que passa a importar é a capacidade de cada elemento contribuir para a produção de desempenho.

Essa perspectiva parte do diagnóstico de Byung-Chul Han, sem pretensão de corrigi-lo ou substituí-lo. A sociedade do desempenho descreveu com precisão uma etapa decisiva da modernidade tardia. A hipótese do sistema do desempenho procura compreender o passo seguinte dessa trajetória: o desempenho segue como lógica dominante, agora estendida a uma organização que ultrapassa os sujeitos, uma ecologia sociotécnica mais ampla, em que pessoas, máquinas e plataformas participam de um mesmo circuito de produção e avaliação.

*Helio Miranda Costa Junior é doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-doutorado pelo InCor-USP.

O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html

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