Para além da sociedade do desempenho
O avanço da inteligência artificial transforma a autocobrança
humana em um ecossistema sociotécnico regulado por métricas implacáveis de
eficiência
Helio Miranda
Costa Junior*/A Terra é Redonda
1.
Ao
longo de sua obra, Byung-Chul Han descreveu diferentes dimensões da transformação
contemporânea. Em A sociedade do cansaço mostrou
como a lógica do desempenho substituiu a disciplina como princípio organizador
da subjetividade. O desaparecimento dos rituais voltou-se
à erosão das formas simbólicas que estabilizavam a vida coletiva. Já em Não
coisas o tema passou a ser a crescente substituição do mundo
dos objetos por um ambiente constituído por fluxos de informação. Embora cada
obra possua um problema específico, elas podem ser lidas como momentos de um
mesmo diagnóstico sobre a reorganização da experiência contemporânea.
A
hipótese desenvolvida neste ensaio parte desse percurso, mas propõe que uma
transformação recente deslocou novamente o objeto da crítica. Se Byung-Chul Han
investigou principalmente as mudanças na subjetividade, nos vínculos e na
materialidade do mundo, a expansão da inteligência artificial e das
arquiteturas algorítmicas parece exigir atenção para outro nível de análise: o
próprio sistema que coordena essas transformações.
A sociedade do cansaço foi publicada em
2010, quando sistemas de pontuação de crédito automatizados já operavam havia
décadas, plataformas como Uber e Airbnb apenas começavam a se consolidar, e
algoritmos de recomendação já organizavam parte relevante do consumo de
conteúdo. A mediação algorítmica é, portanto, um fenômeno anterior ao livro. A
diferença relevante está em outro ponto: quando a automação passou a ocupar,
ela mesma, o lugar de agente avaliado e avaliador dentro do mesmo circuito de
desempenho.
Esse
deslocamento se intensifica sobretudo com a difusão de modelos generativos e
agentes autônomos, distinto do momento anterior, em que sistemas técnicos
calculavam e pontuavam ações humanas sem participar diretamente da execução do
trabalho cognitivo ou criativo. O pressuposto de que essa produção permanece
ancorada, em última instância, no sujeito humano já não parece suficiente.
Hoje,
parte significativa das atividades cognitivas é realizada em cooperação com
sistemas artificiais: escrevemos com auxílio de modelos de linguagem, decidimos
apoiados por algoritmos, e delegamos a agentes computacionais tarefas que antes
exigiam julgamento humano direto. Ao mesmo tempo, indicadores e protocolos
automatizados como sistemas de pontuação passaram a coordenar o funcionamento
de organizações inteiras. O desempenho continua sendo o princípio organizador,
ainda que não dependa mais exclusivamente da ação humana.
2.
Um
exemplo próximo torna esse deslocamento palpável. O sistema de avaliação por
impacto acadêmico (fator de impacto de periódicos, índices de citação, o Qualis
brasileiro) nasceu como heurística de relevância: um modo indireto de estimar
se uma pesquisa alcançava e influenciava seus pares. Em poucas décadas, essa
heurística deixou de acompanhar a pesquisa para passar a orientá-la.
Pesquisadores
ajustam temas, métodos e a própria fragmentação de resultados em múltiplos
artigos para atender às exigências do índice, e revistas reorientam políticas
editoriais para subir no ranking, um ajuste que se propaga até as
universidades, que redistribuem recursos e cargos conforme o desempenho
agregado desses números. Nenhum agente isolado desenhou esse arranjo ou o
controla inteiramente: ele resulta da articulação entre bases de citação,
algoritmos de ranqueamento e comitês de avaliação, calibrados por uma mesma
lógica.
O
efeito é cumulativo: quem já ocupa posição central tende a ser mais citado e
mais visível, o que reforça essa centralidade independentemente da qualidade
intrínseca de cada contribuição isolada. A arquitetura que sustenta o sistema
de impacto acadêmico, distribuída entre agentes humanos e técnicos sem que
ninguém a tenha desenhado sozinho, ilustra em escala menor o que este ensaio
chama de sistema do desempenho.
A
racionalidade descrita por Byung-Chul Han permanece válida, porém seu objeto se
ampliou. Se a sociedade do desempenho explicava um momento em que o sujeito
ocupava o centro da produção, o presente parece exigir outra categoria
analítica: a de sistema do desempenho. A mudança desloca o foco da análise para
além do vocabulário. Byung-Chul Han descreve a forma como o sujeito internaliza
a exigência de desempenho e passa a explorar a si mesmo.
A
hipótese aqui proposta dirige a atenção para a arquitetura que organiza essa
exigência: uma propriedade que emerge da articulação entre pessoas, algoritmos,
plataformas e protocolos de avaliação, integrados por uma mesma racionalidade
operacional, e que ultrapassa qualquer experiência subjetiva isolada.
3.
Essa
hipótese encontra uma antecipação parcial em Infocracia, obra em que
Byung-Chul Han desloca a análise da psicopolítica do sujeito-empresário-de-si
para os regimes de governança algorítmica que organizam a esfera pública em
enxame de dados. Sua crítica, contudo, mantém o sujeito como ponto de
referência normativo, ainda que dissolvido. O enxame de dados aparece, nesse
relato, como aquilo que se perde para o sujeito; a arquitetura que coordena
dados, protocolos e agentes de naturezas distintas segundo uma métrica comum
permanece em segundo plano.
É
esse segundo movimento, o da erosão do sujeito para a descrição da arquitetura
que a produz, que a hipótese do sistema do desempenho procura tornar explícito.
O
conceito de sistema do desempenho também precisa ser distinguido de descrições
vizinhas. O “capitalismo de plataforma” (Platform capitalism), tal
como Nick Srnicek o descreve, permanece fundamentalmente uma teoria de
acumulação: a plataforma intermedeia e processa dados como nova forma de
capital, e sua lógica central permanece econômica. A hipótese do sistema do
desempenho desloca o eixo da análise da acumulação para a normatividade: para o
critério que passa a avaliar a atuação de qualquer agente, humano ou técnico,
dentro do mesmo circuito.
Antoinette
Rouvroy descreve, por sua vez, a governamentalidade algorítmica como um poder
que antecipa condutas a partir de correlações estatísticas, dispensando o
sujeito como instância de referência. Otávio Morato de Andrade retoma essa
hipótese no contexto brasileiro, associando-a aos riscos que a
governamentalidade algorítmica representa para a democracia (Governamentalidade
algorítmica: democracia em risco?). O sistema do desempenho aqui
proposto não abandona o sujeito: redistribui-o como um entre vários agentes
avaliados pela mesma métrica de eficiência. Continua havendo algo a exigir de
alguém, mesmo quando esse alguém deixa de ocupar sozinho o centro da exigência.
Essa
diferença altera a própria pergunta filosófica. A pergunta sobre como o
indivíduo se torna empresário de si mesmo não abrange mais a questão inteira.
Importa também compreender como um sistema passa a coordenar agentes de
naturezas distintas segundo critérios comuns de eficiência, previsibilidade e
otimização. Nesse contexto, a distinção entre humano e artificial segue
existindo, deslocada do centro que antes ocupava como eixo organizador da
análise. O que passa a importar é a capacidade de cada elemento contribuir para
a produção de desempenho.
Essa
perspectiva parte do diagnóstico de Byung-Chul Han, sem pretensão de corrigi-lo
ou substituí-lo. A sociedade do desempenho descreveu com precisão uma etapa
decisiva da modernidade tardia. A hipótese do sistema do desempenho procura
compreender o passo seguinte dessa trajetória: o desempenho segue como lógica
dominante, agora estendida a uma organização que ultrapassa os sujeitos, uma
ecologia sociotécnica mais ampla, em que pessoas, máquinas e plataformas
participam de um mesmo circuito de produção e avaliação.
*Helio Miranda Costa Junior é doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
com pós-doutorado pelo InCor-USP.
O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html

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