28 setembro 2026

Palavra de poeta

Cinco Elegias – quarta
Hilda Hilst     
 

Não te espantes da vontade
Do poeta
Em transmudar-se:
Quero e queria ser boi
Ser flor
Ser paisagem.
Sentir a brisa da tarde
Olhar os céus, ver às tardes
Meus irmãos, bezerros, hastes,
Amar o verde, pascer,
Nascer
Junto à terra
(À noite amar as estrelas)
Ter olhos claros, ausentes,
Sem o saber ser contente
De ser boi, ser flor, paisagem.
Não te espantes. E reserva
Teu sorriso para ops homens
Que a todo custo hão de ser
Oradores, eruditos,
Doutos doutores
Fronte e cerne endurecido.
Quero e queria ser boi
Antes de querer ser flor.
E na planície, no monte,
Movendo com igual compasso
A carcaça e os leves cascos
(Olhando além do horizonte)
Um pensamento eu teria:
Mais vale a mente vazia.

E sendo boi, sou ternura.
Aunque pueda parecer
Que del poeta
Es locura.

[Ilustração: Kathy Sosa]

Leia também: A mídia flerta com o desastre https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/informacoes-distorcidas.html 

27 setembro 2026

Minha opinião

Pressão dentro de casa
Luciano Siqueira   

Republicanos pressionaram Trump pelo fim da guerra com o Irã antes das eleições de novembro, noticia a mídia norte-americana.

Acontece que o conflito gera insatisfação entre os eleitores, em razão dos custos econômicos e do aumento no preço dos combustíveis.

Consta que no momento a aprovação de Trump caiu para 32%, o menor índice do seu mandato.

Por outro lado, dados de pesquisas indicam que os candidatos do Partido Democrata está à frente na preferência do eleitorado (43% a 35%).

Na prática, o front interno mostra-se tão adverso e desafiante quanto a guerra provocada pelo tresloucado presidente.

Donald Trump segue no seu papel de líder tresloucado da superpotência decadente.

Imperator Nero Claudius Caesar Donald Trump https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/trump-megalomania-e-crueldade 

Editorial do 'Vermelho'

Lula atende clamor popular e acaba com as bets
Diante dos efeitos desastrosos das bets ao orçamento das famílias e à saúde das pessoas, o presidente Lula enfrenta e dá um basta à ganância dos cassinos virtuais
Editorial do 'Vermelho'   

A Medida Provisória (MP) que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das loterias de apostas de quota fixa, as bets, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro de 2026, deu um basta a um mercado que estava produzindo efeitos sociais e econômicos desastrosos. A proibição alcançou as apostas sobre eventos esportivos reais e de jogos on-line, inclusive operações realizadas por agentes sediados no exterior para pessoas localizadas no Brasil.

A MP encerrou um ciclo iniciado em 12 de dezembro de 2018, quando o então presidente ilegítimo Michel Temer sancionou a lei que criou a modalidade lotérica de aposta de quota fixa sobre eventos reais de temática esportiva. O governo de Jair Bolsonaro, além de não regulamentar as bets, permitiu a expansão desenfreada da atividade, sem nenhum tipo de fiscalização, ficando os milhões de apostadores entregues ao apetite voraz de máfias de toda espécie. A regulamentação somente veio em 2023, por meio de uma MP editada pelo governo Lula. No Congresso Nacional, o texto incorporou os jogos on-line.

Antes da regulamentação, as bets avançaram sobre o futebol, os meios de comunicação, as redes sociais e os patrocínios esportivos. Com a nova lei, o governo construiu a estrutura administrativa destinada a fiscalizar o setor. Em janeiro de 2024, foi criada a Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda.

Porém, com o passar dos meses, diante do endividamento das famílias, do desastre financeiro que atingiu centenas de milhares de apostadores, dos graves problemas de saúde enfrentados por pessoas que se viciaram nos jogos virtuais e até do impacto negativo sobre a economia real, a exemplo da queda nas vendas do varejo, foi se avolumando um apelo popular — um clamor nacional, até — pela proibição das bets no país.

A decisão corajosa e acertada do presidente, como se vê, não se deu por um rompante. Lula firmou sua convicção ouvindo os ministérios da Saúde, da Fazenda e da Justiça, entidades da sociedade civil, centrais sindicais e movimentos sociais, representantes de diferentes religiões e colhendo depoimentos diretamente de pessoas que tiveram suas vidas arrasadas pelo vício das apostas.

De acordo com a presidente em exercício do PCdoB, Nádia Campeão, “o presidente Lula pôs fim a uma verdadeira doença que se espalhou por todo o Brasil e afetou a harmonia das famílias brasileiras”.

A dimensão que o mercado das bets alcançara ajuda a explicar a amplitude da mudança. No primeiro semestre deste ano, segundo o Ministério da Fazenda, os depósitos nas plataformas autorizadas somaram R$ 88,5 bilhões, ante R$ 99,2 bilhões no mesmo período de 2025. Até agosto, 43,8 milhões de brasileiros já haviam apostado em plataformas.

O Ministério da Saúde passou a tratar os danos associados às apostas como uma questão de saúde mental e, em julho de 2026, lançou uma campanha nacional de prevenção e orientação sobre os riscos das apostas on-line e o atendimento disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em estudo publicado em 2025, estimou em R$ 30,6 bilhões anuais os custos associados aos danos à saúde relacionados às apostas e aos jogos de azar.

A Plataforma Centralizada de Autoexclusão permitia que os usuários bloqueassem voluntariamente o acesso a todas as plataformas autorizadas. Em agosto de 2026, mais de 1 milhão de pessoas já haviam solicitado a autoexclusão. Entre elas, 35% apontaram perda de controle sobre o jogo como motivo, 15,26% declararam ter tomado voluntariamente a decisão de interromper as apostas e 11,82% mencionaram dificuldades financeiras.

A utilização de apostas por beneficiários de programas sociais também entrou no radar do governo. Em agosto de 2026, o Ministério da Fazenda informou que mais de 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) já haviam sido bloqueados nas plataformas autorizadas.

Um estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), divulgado em agosto de 2026 com base em informações do Banco Central, estimou que as famílias brasileiras transferiram R$ 350,97 bilhões para empresas de apostas por Pix em 2025, com uma diferença de R$ 62,5 bilhões entre os valores enviados e os devolvidos em prêmios. O estudo registrou uma desaceleração das transferências após a restrição aos beneficiários do Bolsa Família.

O sentido da MP também aparece nos dados de opinião pública. Pesquisa Datafolha divulgada em julho registrou que 7% dos adultos faziam apostas em bets ou cassinos on-line, enquanto 57% consideravam a atividade um vício. Entre os que apostavam ou já haviam apostado, 35% afirmaram ter comprometido as próprias finanças. Levantamento Atlas/Bloomberg realizado em setembro apontou 75% de concordância com a proibição das apostas on-line.

O candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, se opôs frontalmente à MP de Lula. Ele segue os rastros do pai: afinal, o governo Bolsonaro foi um paraíso para as bets, uma terra sem lei. Flávio sai em defesa de um punhado de falsos empresários que se locupletam com bilhões de reais à custa da ruína da saúde e do humilde orçamento das famílias de baixa renda, além de ser contra o fim da escala 6×1 e de condenar o aumento do Bolsa Família. Fica patente que é contra o povo.

A MP das bets é, antes de tudo, uma decisão de proteção social. “As bets estão destruindo a renda das famílias, afetando a saúde mental e levando sofrimento para dentro de casa. Por isso, tomamos uma decisão firme, de fazer o que tem que ser feito: acabar com as bets”, disse o presidente Lula.

A MP interrompeu o processo de lucro fácil que avançou sobre a renda das famílias, a saúde mental e a vida de milhões de brasileiros. O sentido é direto: esse fluxo de dinheiro descontrolado, ao custo da segurança econômica das famílias, explorando vulnerabilidades sociais, precisava ser banido. A proteção do povo é o principal dever do Estado, conceito que está na essência da MP assinada pelo presidente Lula.

A força das ruas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/lula-no-recife-e-em-maceio.html 

Minha opinião

Ameaça persistente

Luciano Siqueira     


Apesar da postura firme do presidente Lula e da condescendência da classe dominante e da grande mídia neoliberal, pronunciamentos recentes do presidente norte-americano Donald Trump sugerem o propósito de influenciar decisivamente as eleições no Brasil.

Na Assembleia Geral da ONU, Trump admitiu que o foco central no Hemisfério Ocidental envolve os interesses econômicos e estratégicos dos EUA. Disse , celebrando acordos na região com frases como "ao vencedor, os despojos" que usará o poder militar das próprias Forças Armadas para garantir o que se classifica como “interesses pertinentes dos EUA” na região.

Daí a preferencia por correntes políticas que subordinem a política externa brasileira aos interesses da Casa Branca. O bolsonarismo, sobretudo.

Uma das muitas razões para que se considere a vitória de Lula como absolutamente necessária à preservação da soberania nacional.

[Ilustração: Bertrand Daullé]

A disputa pelo Senado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0646797896.html 

Fotografia

 

Sebastião Salgado 

Lula anuncia o fim das bets https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/mp-das-bets.html 

Mercado & eleições

O jogo do mercado com as apostas nas eleições
Movimentos não demonstram que Flávio vencerá. Revelam apenas que determinados agentes decidiram operar como se essa vitória fosse provável
Luís Nassif/Jornal GGN      

A informação de que o “mercado” atribui 60% de probabilidade a uma vitória de Flávio Bolsonaro precisa ser lida pela lógica do próprio mercado — e não como uma previsão neutra sobre o resultado das urnas.

O mercado financeiro trabalha com posições. Quem acredita na alta compra; quem aposta na queda vende. Mais do que antecipar o futuro, tenta construir expectativas capazes de mover preços no presente.

É aí que entram os bois-guias: grandes instituições com recursos, influência e capacidade de pautar o rebanho. Elas começam a montar posições em determinados ativos. A valorização inicial atrai novos compradores, confirma a narrativa e forma a onda de alta. Quando o movimento se aproxima do limite, os que entraram primeiro começam a vender e embolsam o lucro. A curva perde força, os preços caem e o efeito manada se inverte. Quem chegou por último fica com o prejuízo.

Esse mecanismo ajuda a explicar a explosão do câmbio no fim de 2024. O carry trade — captação de recursos baratos em uma economia central para aplicação em títulos de uma economia periférica — havia perdido atratividade no Brasil diante de alternativas como o México. Como o rendimento da operação depende também da trajetória cambial, bastou que três instituições de peso anunciassem a retirada de dólares do país para disparar a boiada. A pressão sobre o real aumentou e o Banco Central respondeu com uma elevação drástica da Selic, interrompendo o movimento e impondo um custo elevado ao conjunto da economia.

Agora, a mesma lógica alcança a disputa eleitoral.

Uma aposta na vitória de Flávio Bolsonaro pode levar os operadores a montar, no presente, posições coerentes com o cenário que desejam vender:

  • alta dos contratos futuros do Ibovespa;
  • queda do dólar futuro;
  • possível recuo do ouro futuro, tradicional ativo de proteção.

Isso porque, um governo Flávio Bolsonaro abriria espaço para a volta do dinheiro do crime organizado ao mercado.

Esses movimentos não demonstram que Flávio vencerá. Revelam apenas que determinados agentes decidiram operar como se essa vitória fosse provável — e têm interesse em convencer outros investidores a acompanhá-los.

A diferença é decisiva. Uma estimativa eleitoral deveria resultar de pesquisas, tendências demográficas, alianças políticas e comportamento do eleitorado. Uma cotação de mercado resulta de apostas financeiras, liquidez, narrativas e posições assumidas. Confundir uma coisa com a outra transforma o interesse dos operadores em uma suposta sabedoria coletiva.

E a convicção pode mudar rapidamente. Se na semana seguinte surgir um fato político capaz de inverter as expectativas, os mesmos agentes que ajudaram a formar a onda poderão abandonar as posições anteriores antes do restante do mercado. A manada muda de direção; os bois-guias preservam os ganhos.

Portanto, quando se diz que “o mercado” atribui 60% de chance a um candidato, a pergunta correta não é apenas se a previsão está certa. É também: quem está apostando, em quais ativos, com que volume e quem lucra se os demais acreditarem nessa narrativa?

O mercado não apenas interpreta a política. Também tenta influenciá-la — e ganhar dinheiro com os movimentos que ajuda a produzir.

Na reta final detalhes importam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01182604884.html 

Postei nas redes

A campanha chegando ao fim e jamais o candidato Flávio Bolsonaro fez pronunciamento escrito sobre seus compromissos com a Nação e a Democracia. Por que a grande mídia neoliberal não cobra?  

A força das ruas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/lula-no-recife-e-em-maceio.html