10 dezembro 2022

Realidade adversa: sentimentos

O que está por trás dos bons sentimentos: os usos da compaixão

Solidariedade, responsabilidade: palavras que ganharam forte atualidade para sublinhar o que é devido aos menos privilegiados – os “vulneráveis” – em nome da igualdade imperfeita e do desejo de corrigir as injustiças. Viver juntos envolve assim prestar atenção aos sentimentos de cada pessoa. Mas o sentimento permite fundar uma norma coletiva?
Évelyne Pieiller, Le Monde Diplomatique


Os desfavorecidos. Os humilhados. Os invisíveis. Já faz algum tempo que eclodiram denominações comoventes para qualificar as “categorias modestas”. Não se sabe exatamente o que essas palavras designam, mas, quando não fazemos parte delas, o que se sabe em geral é que, em contrapartida, ficamos mexidos. É esse o objetivo desse léxico. Sua entonação afetiva é um convite a uma compaixão com ares de culpabilidade. O que desencadeia não é a reflexão (humilhados… por quem, para quê, por quê e, aliás, o que os “humilhados” diz em de si?), não é a dúvida crítica (desfavorecidos… por falta de oportunidade?), e sim o sentimento. Choremos juntos. A sentimentalidade indolente (pleonasmo) – o apelo ao afeto nebuloso, mas poderoso – impregna uma parte de nosso imaginário coletivo e é um dos grandes motores da vida política. Ora, sob a máscara da evidência generosa, ela permite estranhos desvios de nossas áreas de pensamento e ação.

Desse ponto de vista, a noção de “vulnerabilidade” é exemplar. A palavra é forte. Por ocasião da pandemia, as “pessoas vulneráveis” foram objeto de todas as atenções. O dicionário Larousse apresenta as diferentes acepções da palavra: “Quem está exposto a receber ferimentos, cortes. Quem está exposto a ser atingido por uma doença. Quem pode servir de alvo fácil para os ataques de um inimigo. Quem, por suas insuficiências, suas imperfeições, pode estar exposto a ataques. Pessoa vulnerável: pessoa em situação de fraqueza física ou psíquica”, que a lei protege de abusos cometidos contra ela. É claro que “vulnerável” é muito mais tocante que o simples “idoso” ou “diabético”…

Também é claro que ele é tão condescendente quanto o termo “humilhados”. Não se trata mais da descrição objetiva (idoso, diabético etc.), mas da evocação de uma fraqueza. Que demanda proteção – exercida por não vulneráveis.

Essa denominação, empregada quase como uma ideia fixa no momento da crise sanitária, vai além do campo da doença. Não se trata de uma manifestação isolada. Ela se inscreve em todo um movimento que a torna a característica de nossa espécie, que incita, em nome da universalidade de nossa fragilidade existencial, uma reconsideração da igualdade. A compaixão aparentemente baseada na simples evidência de uma precariedade, de uma exposição aos riscos mais forte do que a norma, é de fato fortemente politizada.


Até a década de 1970, tanto as declarações oficiais como as análises sociológicas ignoravam a “vulnerabilidade”. O termo se impôs nos anos 2000, inclusive nas instituições internacionais, como a ONU, o FMI, o Banco Mundial etc. Ele se refere à incompletude constitutiva do ser humano de que ninguém escapa e que não só é mortal, mas também não é autossuficiente: do recém-nascido ao idoso enfraquecido, passando pelo adulto sujeito aos “acidentes da vida”, viver implica interdependência. Esse é o fundamento das teorias do&n bsp;care1 e da invocação diversa da “solidariedade”, que se tornou indissociável da “vulnerabilidade”.

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Tornar o capitalismo “vivível”

“Palavra mágica”, como diz o filósofo Pierre Musso.2 Ela mais ou menos substituiu a “fraternidade” e pontua de forma ligeiramente obstinada os discursos dos governantes e de seus mediadores. Palavra dotada de uma aura heroica discreta e de vibrações positivas. Sua origem jurídica tornou-se imperceptível; permanecem “o sentido sociológico de interdependência” e o “sentido moral de dever”. Foi durante o século XIX que o conceito foi construído com essa dimensão, baseando-se gradualmente nas ciências naturais e em certa interpretação da obra de Charles Darwin, para uma “biologização” da sociedade, vista como um todo orgânico. Segundo Auguste Comte, p ensador do positivismo e criador da palavra “altruísmo”, a solidariedade é “natural e existe entre todos os organismos vivos”; Pierre-Joseph Proudhon faz da sociedade “um ser vivo que se caracteriza pela solidariedade moral e intersubjetiva”. Depois, Émile Durkheim, fundador da sociologia francesa, afirma em Da divisão do trabalho social, publicado em 1893: “Em todos os lugares onde existem sociedades, existe altruísmo, porque existe solidariedade”. Assim, a “solidariedade” g anhou o campo moral-político, estimulada particularmente por Léon Bourgeois, deputado da ala esquerda do Partido Radical, diversas vezes ministro, primeiro presidente da Liga das Nações (1919) e criador do “solidarismo”, segundo o qual todos os membros da sociedade nascem devedores uns dos outros: pagar essa dívida é uma obrigação que pesa sobre os membros do corpo social e sobre a sociedade personificada pelo Estado; a solidariedade é o “laço fraternal que obriga todos os seres humanos uns em relação aos outros, atribuindo-nos um dever de assistir nossos semelhantes que se encontram no infortúnio”.3 É preciso conferir uma realidade concreta ao princípio de igualdade da Revolução Francesa – o solidarismo alimentou o movimento mutualista, desenvolveu a ideia de salário mínimo, de garantias sociais, de imposto de renda progressivo etc. – e permitir uma síntese entre o liberalismo e o socialismo, procurando tornar o capitalismo “vivível”. A criação da Seguridade Social realizou uma das formas da solidariedade nacional.4< /span>

Por muito tempo um valor primordial da República, associado à reflexão sobre o Estado de bem-estar social, quase nunca mais se falou de “solidariedade” até a década de 1980 e o triunfo do neoliberalismo. Ela ent ão foi associada ao tema da “coesão social”. A vulnerabilidade ganhou novos aspectos, o que implicou outra ativação da solidariedade. Ela tendeu sempre à definição de um ideal de igualdade, mas renovado: “A igualdade como característica e resultado da interdependência”, afirma de maneira precisa Judith Butler.5 Uma igualdade que vai passar pelo direito ao reconhecimento, como teoriza Axel Honneth: “Existem deficiências em nossas sociedades que decorrem menos de uma viola ção dos princípios de justiça do que de uma alteração concreta nas condições da autorrealização individual”.

Em outras palavras, “uma das principais questões de nossa época é saber que forma deve tomar uma cultura moral e política preocupada em conferir aos desprezados e aos excluídos a força individual para articularem suas experiências no espaço democrático em vez de colocá-las em ação no âmbito de contraculturas violentas”.6 É preciso acabar com “essa forma particular de vulnerabilidade humana que designa o conceito de desprezo”, com a “desvaloriza ção social”, com a “difamação dos modos de vida individuais ou coletivos”, ou com a “depreciação cultural”, igualmente “ofensivas”.7 A solidariedade passa pela luta de muitos para eliminar o que leva os “desvalorizados” a sofrer.


Essas considerações não são feitas apenas por intelectuais que se dizem progressistas. Emmanuel Macron e seus diversos ministros gostam de falar particularmente da vulnerabilidade, da solidariedade, do sofrimento, do respeito pelo outro. O respeito pelo outro, a busca da inclusão lançando por terra a exclusão, em suma, o que é traduzido como “viver juntos” (“coabitação harmoniosa entre indivíduos ou entre comunidades”, de acordo com o Larousse) povoa as grandes instituições. Vivre ensemble. Conjuguer diversité et liberté dans l’Europe du XXIe siècle – Rapport du Groupe d’éminentes personnalités du Conseil de l’Europe [Viver juntos. Conjugar diversidade e liberdade na Europa do século XXI – Relatório do Grupo de personalidades eminentes do Conselho Europeu], publicado em abril de 2011 e para o qual contribuíram Martin Hirsch (na época, presidente da Agência para o Serviço Cívico), Joschka Fischer, ex-dirigente político do Partido Verde Alemão, e Emma Bonino, vice-presidente do Senado italiano entre 2008 e 2013, insiste para que as autoridades competentes se encarreguem de “identificar os grupos particularmente desfavor ecidos” e realizem “esforços específicos para garantir uma verdadeira igualdade de oportunidades”. A Cúpula de Montreal (10-11 jun. 2020), que reuniu cerca de trinta prefeitos de grandes “capitais mundiais”, teve por tema o “Viver juntos”. Quem não desejaria isso? Quem não gostaria de contribuir para acabar com o sofrimento da exclusão?

É importante distinguir o que está em jogo no suspiro sentimental. Por mais cruciais que sejam as questões colocadas pela realidade das desigualdades, se considerarmos que “o como as pessoas se sentem” corresponde à ve rdade objetiva, torna-se difícil impor uma verdade “comum”, potencialmente injusta por ser abstrata, universal, que não leva em conta a interioridade do sujeito. Isso pode levar a consequências impressionantes, tanto para a concepção da emancipação do indivíduo quanto para a da democracia. O “como as pessoas se sentem” tem um grande êxito, inclusive nas informações meteorológicas, nos indicadores do PIB,8 e é utilizado para orientar políticas. Assim , o Serviço Estatístico Ministerial da Segurança Interna francês lançou a “Pesquisa sobre a experiência vivida e como as pessoas se sentem em matéria de segurança 2022”. A Agência Nacional para a Melhoria das Condições de Trabalho (Anact, na sigla em francês) se baseia em um estudo intitulado “Como se sentem os assalariados, ponto de partida de uma reflexão sobre o trabalho precário” (Anact, 18 set. 2014). “O barômetro da pobreza e da precariedade da assistência popular mostra que a taxa de como se sentem os franceses em relação à pobreza é superior à do Insee [Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos]”, conforme publicado em 7 de setembro de 2022. Como, então, definir a pobreza, a precarização, a insegurança ou mesmo o frio? Será que o sentimento permite estabelecer uma norma coletiva, e com base em que norma ele próprio se estabelece? É possível acabar com direitos universais e substituí-los por direitos específicos a uma comunidade ou outra? A valorização em moda das emoções, a vontade de “reabilitá-las” e de lhes “dar (novamente) um lugar ‘cognitivo’”, para citar a homenagem da filósofa midiática Cynthia Fleury9 ao professor de neurologia Antonio Damasio, cujas obras muitas vezes sã ;o best-sellers, reforçam essa tendência de contestar a razão como único critério de estabelecimento das normas. 

Em situação de assistência

Quando se legitima por afetos essa busca de uma igualdade real, efetivamente sempre a conquistar, ela abre caminho para propostas surpreendentes. “Criticar o capitalismo como a expressão de uma relação de reconhecimento degradada”, para acompanhar Axel Honneth,10 não leva de forma alguma a aboli-lo. Ele confirma: “Há muito tempo, todas essas ideias de revolução política e greve geral são obsoletas. A Revolução Iraniana de 1979, por exemplo, foi simplesmente uma repetição da Revolução Francesa” (Le Monde, 16 mar. 2017). Em compensação, o caminho “sentimental” pode justificar a decisão do ministro da Economia francês, que afirma que, a partir de 1º de janeiro de 2023, as tarifas do gás e da eletricidade serão indexadas aos rendimentos. “Não vamos expor os franceses mais modestos a altas absurdas dos preços da energia”, disse Élisabeth Borne, primeira-ministra, nos Encontros Econômicos de Aix-en-Provence (9 jul. 2022). Portanto, os menos modestos vão pagar mais. Bela correção “igualitária”, altamente solidária, que dá indícios de outras “correções” – relacionadas, por exemplo, à água – e tem o atrativo fascinante, entre outros, de colocar os menos ricos em situação de assistidos. Paralelamente, a ênfase dada à vulnerabilidade e à interdependência pode levar a declarações surpreendentes: “Um irresponsável não é mais um cidadão”, declarou o presidente da República a propósito dos não vacinados (Le Parisien, 4 jan. 2022), e detalhou seu pensamento em um discurso pronunciado em 20 de agosto de 2022, no 75º aniversário do Desembarque na Provença: “Temos deveres relativos à nação, que nos protege, nos educa, cuida de nós e nos carrega. Uma vez cumpridos esses deveres, podemos nos perguntar sobre os direitos.

Os bons sentimentos nem sempre são emancipadores. A atenção dada aos “mais fracos”, assim como a valorização do afeto como critério de verdade, pode levar a políticas coercitivas em nome do dever d e proteção e da interdependência, e a uma modificação dos direitos coletivos em nome do respeito a como as pessoas se sentem. Sob o suspiro sentimental, há o brutal.
 
*Évelyne Pieiller é jornalista, escritora e cineasta.
 
1 Ler “Liberté, égalité… ‘care’” [Liberdade, igualdade… care], Le Monde Diplomatique, set. 2010.
2 Pierre Musso, “La solidarité: généalogie d’un concept sociologique” [A solidariedade: genealogia de um conceito sociológico]. In: Alain Supiot (org.), La Solidarité. Enquête sur un principe juridique [A solidariedade. Estudo sobre um princípio jurídico], Odile Jacob, Paris, 2014. As próximas citações, salvo indicação contrária, foram extraídas dessa contribuição.< /span>
3 Léon Bourgeois, Solid arité [Solidariedade], Armand Colin, 1896.
4 Ler, de Noëlle Burgi, “Enjeux d’une sécurité sociale universelle” [Desafios de uma seguridade social universal], Le Monde Diplomatique, mar. 2011, assim como, de Bernard Friot e Christine Jackse, “Une autre histoire de la Sécurité Sociale” [Uma outra história da Seguridade Social], Le Monde Diplomatique, dez. 2015.
5 Frédéric Worms e Judith Butler, Le vivable et l’invivable [O “vivível” e o “insuportável”], PUF, Paris, 2021.
6 Axel Honneth, declarações coletadas por Alexandra Laignel-Lavastine, Philosophie magazine, 6 dez. 2006.
7 Axel Honneth, “Intégrité et mépris. Principes de la reconnaissance” [Integridade e desprezo. Princípios de reconhecimento], Recherches sociologiques, Louvain, fev. 1999.
8 Jean-Marc Germain, “Du PIB au PIB ressenti” [Do PIB ao PIB como a população o sente], Insee.fr, 8 out. 2020.
9 Cynthia Fleury e Antoine Fenoglio, Ce qui ne peut être volé. Charte du Verstohlen [O que não pode ser roubado: Manifesto do Verstohlen], Gallimard (Tracts), Paris, 2022.
10 Axel Honneth, Un monde de d échirements [Um mundo de discórdias], La Découverte, Paris, 1973.
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