07 fevereiro 2025

Enfrentamento das fake news

A eficiência das fake news e os seus significados políticos e culturais
O problema das fake news não pode ser resolvido com lamentos e soluções pontuais. Ele exige uma transformação estrutural que articule diversos campos de atuação
Ricardo Queiroz Pinheiro/Opera Mundi   

A informação sempre foi um elemento central na política, moldando decisões e ações ao longo da história. Durante a Reforma Protestante, a imprensa possibilitou a disseminação de ideias que abalaram a hegemonia da Igreja Católica; no nazismo, a comunicação foi utilizada como ferramenta de propaganda para consolidar o regime e disseminar ódio racial e político. Hoje, em um cenário mediado pelas redes digitais, a informação continua a influenciar as sociedades, mas sua centralidade também a torna vulnerável à manipulação. As fake news, longe de serem apenas uma consequência acidental das redes digitais, fazem parte de um sistema onde o fluxo de informações é condicionado por dinâmicas técnicas, sociais e políticas profundamente interconectadas. Para compreender esse fenômeno, é necessário adotar uma análise que vá além de explicações simplistas e que articule diferentes perspectivas sobre o universo informacional.

Para compreender o impacto e a complexidade das fake news, é necessário um olhar que vá além da superfície do fenômeno e examine suas múltiplas dimensões. Nesse sentido, a tríade compressão, compreensão e conformação oferece um arcabouço conceitual valioso. Esses três eixos permitem analisar, respectivamente, a eficiência técnica (compressão de dados), os significados sociais (compreensão de contexto) e a estruturação de poder (conformação do espaço e da esfera pública). Cada um desses aspectos, oriundos de tradições epistemológicas distintas, contribui para explicar como as fake news circulam, influenciam percepções e moldam disputas narrativas em diferentes camadas da vida social.

Compressão: a eficiência técnica das fake news

A ideia de compressão origina-se na teoria da informação, particularmente nos estudos de Claude Shannon na década de 1940, que buscavam compreender como transmitir dados de forma eficiente, minimizando perdas. No ambiente digital contemporâneo, a compressão está relacionada tanto à priorização de mensagens rápidas, claras e impactantes quanto à compressão de dados, que facilita a simplificação e a transmissão eficiente de informações para engajamento imediato.

Fake news são projetadas para atender à dinâmica dos algoritmos, que priorizam conteúdos com maior potencial de engajamento. Manchetes como “Descubra o segredo que os governos escondem” ou “Este alimento pode curar todas as doenças” exploram o desejo humano por respostas rápidas e definitivas. Essas mensagens, formatadas para chamar atenção, não exigem reflexão; elas apenas requerem cliques. Para as plataformas, o engajamento é o objetivo principal, e os algoritmos não diferenciam entre o verdadeiro e o falso – eles favorecem aquilo que gera maior circulação. Esse modelo técnico, baseado na compressão de conteúdos, acaba privilegiando narrativas simplistas, emocionais e mistificantes.

Compreensão: os significados culturais das fake news

A compreensão encontra suas bases nas ciências sociais, especialmente na sociologia e na antropologia, que estudam como os significados são construídos cultural e socialmente. Aqui, o foco está na compreensão de contexto, ou seja, na maneira como as mensagens dialogam com as crenças, valores e preconceitos já existentes.

Fake news não apenas desinformam; elas mobilizam emoções, reforçam visões de mundo e intensificam divisões sociais. Além disso, manipulam signos – palavras, imagens e símbolos – para criar significados que dialogam diretamente com emoções e crenças do público. Utilizando narrativas cuidadosamente construídas, elas ativam preconceitos, medos e ansiedades já presentes no imaginário coletivo, gerando uma sensação de “verdade” que ultrapassa os fatos objetivos. Essa dinâmica semiótica é central para entender seu poder de influência e revela que enfrentá-las exige mais do que corrigir informações: é necessário desconstruir as narrativas que sustentam esses significados e moldam a percepção social.

Esse eixo mostra como as fake news condensam emoções e visões de mundo que mobilizam comportamentos, reforçando divisões sociais e cristalizando ansiedades. É essa conexão com os valores e medos do público que torna as mensagens falsas tão poderosas.

Além disso, as fake news têm impactos diretos sobre grupos marginalizados e na saúde mental da população. Para minorias, notícias falsas frequentemente reforçam preconceitos, legitimam discursos de ódio e colocam essas comunidades em situações de vulnerabilidade social e política. Já no campo da saúde mental, a exposição constante a desinformações alarmistas ou manipuladoras, como as que envolvem pandemias ou teorias da conspiração, pode intensificar o medo, a ansiedade e o sentimento de desamparo, contribuindo para o agravamento de transtornos psicológicos.

Conformação: o poder das Big Techs e a estruturação do espaço e da esfera pública

A conformação, por sua vez, origina-se das análises críticas das ciências de dados e das teorias de comunicação, que examinam como o espaço público é estruturado por plataformas digitais e seus algoritmos. Aqui, o foco está na conformação do espaço e da esfera pública, ou seja, na maneira como as plataformas digitais moldam os fluxos de informação e organizam os debates e disputas de poder.

Empresas como Google, Meta e Twitter não apenas facilitam a circulação de conteúdos; elas são protagonistas em um processo maior de disputa por poder político e social. Plataformas digitais estruturam o fluxo de informações com base em lógicas algorítmicas que priorizam conteúdos polarizadores. Essa dinâmica não é neutra: ao amplificar mensagens emocionais e divisivas, elas reforçam clivagens sociais que beneficiam projetos políticos autoritários. A extrema-direita, por exemplo, encontra nessas plataformas um espaço privilegiado para disseminar desinformação, utilizando bots (robôs), contas automatizadas e algoritmos opacos para garantir que suas mensagens alcancem o maior número possível de pessoas.

A convergência entre a lógica comercial das plataformas e os interesses políticos de projetos autoritários não é uma coincidência. A prioridade pelo engajamento, mediada por ferramentas de inteligência artificial, alinha-se a estratégias que utilizam a desinformação como uma ferramenta para fragmentar a sociedade, enfraquecer instituições democráticas e consolidar formas autoritárias de controle. Nesse contexto, a conformação não é apenas técnica, mas também política, integrando a circulação de fake news a disputas globais de poder.

O que fazer: educação, regulação, redes alternativas, integração institucional e participação popular

Dado o impacto multidimensional das fake news, enfrentá-las requer ações estruturais que respondam às três dimensões da tríade. Não basta focar em soluções pontuais, como checagem de fatos ou campanhas educativas. É necessário transformar as condições que sustentam sua existência. Cinco frentes de ação são essenciais.

Educação crítica: formar cidadãos capazes de compreender como a informação é produzida, disseminada e utilizada é indispensável. Essa educação deve ir além de ferramentas técnicas, incorporando debates sobre poder, desigualdade e os interesses que influenciam o espaço e a esfera pública.

Regulação das plataformas digitais: as big techs precisam ser responsabilizadas em legislação específica pelo impacto social de seus modelos de negócio. Isso inclui maior transparência em seus algoritmos, restrições ao uso de ferramentas automatizadas para disseminação em massa e a criação de mecanismos de responsabilização por conteúdos que amplificam desinformação.

Fortalecimento de redes de informação alternativas: meios de comunicação independentes e comprometidos com o interesse público devem ser fortalecidos. Movimentos sociais, sindicatos e coletivos precisam fortalecer as existentes e investir na criação de redes que possam disputar narrativas e oferecer perspectivas críticas, desafiando o monopólio das grandes plataformas.

Integração institucional e governamental: o enfrentamento das fake news exige uma resposta integrada de diversos setores do governo, incluindo os ministérios da Educação, Cultura, Comunicação, Justiça e Economia. Políticas públicas devem ser elaboradas de forma coordenada, reconhecendo que a desinformação é um problema sistêmico que afeta desde a educação midiática da população até a segurança eleitoral e a regulação econômica das plataformas digitais. A criação de conselhos interministeriais ou iniciativas conjuntas pode ser uma alternativa para articular essas ações, ampliando o impacto das medidas.

Participação popular: garantir espaços efetivos para que a sociedade civil participe da formulação e avaliação de políticas públicas voltadas para o enfrentamento das fake news é fundamental. Conselhos, fóruns e plataformas de escuta podem permitir que cidadãos expressem suas preocupações, apresentem soluções e contribuam para uma abordagem mais democrática no combate à desinformação. Além disso, promover iniciativas comunitárias para a checagem de informações e disseminação de conteúdos confiáveis fortalece a autonomia popular e o senso de responsabilidade coletiva no espaço informacional.

Um adendo: como visto, não é apenas um problema de comunicação desse ou daquele governo, como frequentemente vem sendo vocalizado. Trata-se de uma questão estrutural e multidimensional, que perpassa áreas como cultura, economia, políticas digitais e informação. Comunicação é apenas um dos aspectos.

Conclusão

A tríade compressão, compreensão e conformação sintetiza a complexidade das fake news ao abordar suas dimensões técnicas, sociais e estruturais. Por meio da compressão, vemos como as fake news se adaptam à lógica algorítmica das plataformas, priorizando, através da compressão de dados, rapidez e alcance.

Pela compreensão, entendemos como elas se conectam a crenças, valores e ansiedades já presentes na sociedade. E, na conformação, identificamos o papel ativo das plataformas digitais na estruturação do espaço e da esfera pública, integrando a circulação de fake news a disputas políticas globais.

Esse problema, portanto, não pode ser resolvido com lamentos e soluções pontuais. Ele exige uma transformação estrutural que articule educação crítica, reconhecimento dos aspectos culturais, regulação das big techs, fortalecimento de redes alternativas, maior integração institucional e participação popular. Enfrentar as fake news é mais do que combater desinformação; é uma oportunidade de repensar e reconstruir o espaço público com base em valores democráticos, solidários e emancipatórios.

Leia também: Indispensáveis relações com o povo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/minha-opiniao_42.html 

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