Novamente Carnaval
“Primeira lição aprendida. A lógica do País era essa. O ano só começava efetivamente depois dos delírios momescos”
Abraham B. Sicsú/Vermelho
Chegamos ao Brasil em dezembro de 1957. Meu pai trazia uma família numerosa. Oito membros. Queria se estruturar logo, fazer negócios. No ano seguinte o Carnaval seria em março. Tudo que entabulava, acabava com a frase, “só depois do Carnaval”. Sua formação rígida européia o impacientava, não conseguia entender a razão, mas não havia remédio, teria que aceitar o fato.
Primeira lição aprendida. A lógica do País era essa. O ano só começava efetivamente depois dos delírios momescos. Ano Novo não tinha como marco o primeiro de janeiro. Fazia parte da tradição, da cultura do povo, tinha que ser respeitado.
O que era o tal do Carnaval? Difícil definir à época para quem nada sabia das tradições nacionais. Em um lindíssimo frevo, “Chegou o Carnaval”, feito em minha casa para um bloco que criamos faz muitos anos, Zoca Madureira, com algumas adequações feitas depois por Antúlio, seu irm&atil de;o, conseguiu, para mim, definir. Diz a bela letra da música:
“É tempo de brincar
Cantando esta canção
Sorrir sem ironia
Sem mágoa e ilusão
Não mais se lamentar
Dançar com emoção
É tempo de alegria
E paz no coração”
Já fui um carnavalesco assumido. No preparo da festa, na folia, no buscar de alegorias e adereços. Todo ano me organizava, tempo de muita festa, da farra assumida. Pernambucano de coração, incorporo a diversidade de manifestações.
Não perdia o frevo, mas, também, adorava o caboclinho, o maracatu, a ciranda, o coco, os papangus e o cavalo-marinho. Ficava maravilhado com a diversidade de expressões populares, com a riqueza de ritmos e danças da terra, com as indumentárias sempre muito coloridas.
Continuo gostando muito, mas o fôlego diminuiu. Não consigo acompanhar o entusiasmo dos mais jovens, fisicamente sem tanto preparo. Mas, não deixo de ir, não deixo de aproveitar o que posso. Assumo as armas da festa, evidentemente acompanhado com meu rum com coca ao lado e um bom tira gosto.
9 de fevereiro é o dia do Frevo. Mais uma data a ser comemorada. Há festa em Olinda e Recife. A folia começa antes, janeiro é do povo nas ruas, são os blocos se organizando, são as prévias sempre muito animadas.
Janeiro deste ano, um palanque armado na Praça do Arsenal. Dois shows belíssimos. Maestro Spok e Silvério Pessoa. Os músicos da terra são fantásticos. Há cadeiras para sentar, mas quem precisa delas. A multidão vibra e se mexe. Meninos, bem jovens, fazem o passo, belíssimo. Músicas que tra zemos no coração, sabemos décor, sem deixar, também, de cantar as músicas novas. Quem disse que o frevo não se renova? Horas de magia em que a alegria contagia.
Esqueçamos Alcolumbre, Motta e Trump. Temos o ano inteiro para isso. Agora é frevo.
Dia primeiro de fevereiro, sábado de pré carnaval. “Nem sempre Lilly toca a Flauta” faz seu ensaio geral. Uma maravilha. O coral feminino animadíssimo. Num espaço do Centro da cidade, muito bem organizado. Beto do bandolim e seus músicos alegram a festa. O frevo de Bloco, com sua cadência, com suas letras poéticas. Para terminar uma boa surpresa. A orquestra de “Escuta Levino” se apresenta. Animação geral, as ruas peatonais do Bairro do Recife se tornam palco de muita euforia na saída, na despedida.
Um Teatro recuperado. Lindíssimo. Uma orquestra de qualidade. “Malassombro”no Teatro do Parque apresenta seu novo disco. Novamente o frevo se renova. Letras que nos dão entusiasmo. Lotado, acho que umas mil pessoas. Cantores geniais, músicos de grande qualidade. Uma dançarina endiabrada, parece que não tem artic ulações, que seu corpo é de borracha. O tema é frevo, todos a fazer o passo.
A programação é animadora, não para até a quarta, quem sabe a quinta feira de cinzas. Sendo recifense, já estou programado. Prévias que serão freqüentadas.
O tradicional Caruru de Rogério. Flavinha já preparou tudo. Será dia 15. O mote é a comida, música de primeira qualidade, muita animação. Velhos amigos da CHESF e a família Cardoso se reúnem para degustar as receitas herdadas das saudosas Laura e Luísa. Sou um agregado. Freqüentador a ssíduo. Encontro pessoas que não vejo o ano todo, como, por exemplo, o professor Clóvis e o amigo Luiz. . Sabem tudo de tudo, de qualquer assunto. Comida variada, muito som, muita birita. Dançando, mesmo os desajeitados como eu.
Dia 22, de manhã, tem o bloco das Academias da Cidade. Reúnem-se no Sítio da Trindade. Fantasias tradicionais e muito som. A Frevioca não veio no ano passado, mas se fazia presente sempre. Espero que volte. Surgem figuras inusitadas, em trajes esquisitos ou com cartazes confusos. Reivindicar é um direito de carnavalescos, mesmo que não entendamos. O desfile em Casa Amarela. Os dos prédios e das casas vão para a farra, vão se juntando ao cortejo. Água, cerveja, batidas para poder acompanhar. Na volta, uma parada na Mercearia de Artur, para forrar estômago e maltratar o fígado. É festa, ainda dá para pegar o fim do desfile que passa enfrente da minha casa.
À tarde tem “Pisando na Jaca”. Os amigos da Fundação Joaquim Nabuco se organizam. Rita e Silvinha comandam. Casa Forte fica pequena para a multidão. A orquestra com mais de trinta músicos, a melhor dos blocos que eu freqüento. O desfile exuberante, local para encontrar pessoas que não se vêem a tempo. O percurso muda, é bom acompanhar desde o início, para nada perder.
Olinda tem muitos encantos. Gosto dos Quatro cantos. Junção de tribos, as mais diversas. Sextas feiras têm Maestro Oséas. Casarão antigo, os músicos dentro, o povão fora. Grupos fantasiados se apresentam. Ensaios de acerto de marcha. O frevo de rua se faz presente. Das oito à meia noite, explosão de felicidade. Tenho que ir a pelo menos dois desses ensaios, não se pode perder.
Carnaval passa pelas prévias. Muito mais há para ver. As duas cidades são só alegria. Todo dia tem o que se fazer, não é permitido só ficar assistindo, fundamental é dançar, abraçar gente, sentir o calor humano. Como diz a música de Zoca Madureira:
“É tempo de rasgar
A velha fantasia
Achar um novo amor
Perdido na folia
É tempo de cantar
Num coro, sem rival
É tempo de amar
Chegou o carnaval”
[Ilustração: Lula Cardoso Ayres]
Leia também: Os clarins de Momo se aproximam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/minha-opiniao_24.html
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