30 agosto 2025

Mestre da crônica

Morre Veríssimo, vive a crônica
O escritor que poderia ter sido tudo fez da crônica sua bandeira. E assim mostrou que, na brevidade, cabe o infinito
Thales Machado/O Globo  


Um cronista, o cronista. Luís Fernando Veríssimo tinha todas as ferramentas para ser o que quisesse: romancista de prateleira alta, poeta de auditório cheio, ensaísta de rodapé de cátedra. Mas preferiu a esquina do jornal, a mesa pequena da crônica, onde cabem uma boa piada, um gole de ironia e uma piscada para o leitor.

Não foi por falta de talento que se contentou com esse “formato menor”. Foi justamente por excesso: o talento transbordava tanto que não precisava de tapete vermelho. A crônica era o botequim perfeito para a sua inteligência: um lugar onde se pode falar de futebol como quem fala de filosofia, e de filosofia como quem comenta um gol perdido.

Por isso, a morte de Veríssimo não leva só um escritor. Leva uma instituição. Leva o cara que fez da crônica uma trincheira contra a sisudez e a favor do riso bem pensado. Morre mais que o autor; morre um defensor da beleza de escrever curto sem ser raso, leve sem ser bobo, engraçado sem ser superficial.

Fica o eco: viva a crônica, viva o cronista. E, se alguém perguntar se esse gênero “menor” resiste, a resposta é simples: resiste porque Veríssimo mostrou que naqueles textos curtos cabem todas as grandezas.

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