Morre Veríssimo,
vive a crônica
O escritor
que poderia ter sido tudo fez da crônica sua bandeira. E assim mostrou que, na
brevidade, cabe o infinito
Thales Machado/O Globo
Um cronista, o cronista. Luís Fernando Veríssimo
tinha todas as ferramentas para ser o que quisesse: romancista de prateleira
alta, poeta de auditório cheio, ensaísta de rodapé de cátedra. Mas preferiu a
esquina do jornal, a mesa pequena da crônica, onde cabem uma boa piada, um gole
de ironia e uma piscada para o leitor.
Não foi por falta de talento que se contentou com
esse “formato menor”. Foi justamente por excesso: o talento transbordava tanto
que não precisava de tapete vermelho. A crônica era o botequim perfeito para a
sua inteligência: um lugar onde se pode falar de futebol como quem fala de
filosofia, e de filosofia como quem comenta um gol perdido.
Por isso, a morte de Veríssimo não
leva só um escritor. Leva uma instituição. Leva o cara que fez da crônica uma
trincheira contra a sisudez e a favor do riso bem pensado. Morre mais que o
autor; morre um defensor da beleza de escrever curto sem ser raso, leve sem ser
bobo, engraçado sem ser superficial.
Fica o eco: viva a crônica, viva o cronista.
E, se alguém perguntar se esse gênero “menor” resiste, a resposta é simples:
resiste porque Veríssimo mostrou que naqueles textos curtos cabem todas as
grandezas.
[Se comentar, identifique-se]
Leia também: O gigolô das palavras https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/verissimo-humorismo-literario.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário