Em ato histórico,
papa pede perdão pelo envolvimento da Igreja na escravidão
Séculos depois de fazer parte e até autorizar a coroa portuguesa a
manter pessoas escravizadas, o líder da Igreja rompe um tabu e pede 'perdão'
Jamil Chade/ICL Notícias
Pela primeira vez na história, um papa pede perdão pelo envolvimento da Igreja Católica na escravidão de milhões de pessoas. Num texto publicado nesta segunda-feira, como parte de sua argumentação sobre os riscos da Inteligência Artificial, Leão XIV surpreendeu ao citar a situação da colonização.
Não é a
primeira vez que a Santa Sé condena a escravidão. Mas pontífices, ao longo de
décadas, têm sido cuidadosos em evitar implicar a própria Igreja na indústria
que transformou a história do mundo. Eles tampouco anularam bulas que permitiam
aos portugueses agir em suas colônias, entre elas o Brasil.
Em
1452, por exemplo, o Papa Nicolau V emitiu uma bula que concedeu ao rei
português e seus sucessores o direito de “invadir, conquistar, combater e
subjugar” e tomar todas as posses — incluindo terras — de “sarracenos, pagãos e
outros infiéis e inimigos do nome de Cristo” em qualquer lugar. A bula também
deu permissão aos portugueses para “reduzir suas pessoas à escravidão perpétua”.
A lei
foi reforçada em novas bulas e decisões em 1456, em 1481 e em 1514, já com os
portugueses em solo brasileiro.
Agora,
o papa americano rompe com esse tabu, justamente num momento em que o
presidente Donald Trump desmonta qualquer ação de proteção às minorias ou de
combate ao racismo. Num trecho histórico, ele anuncia:
“É impossível não sentir profunda tristeza ao
contemplar o imenso sofrimento e a humilhação suportados por tantos, em nítido
contraste com sua imensurável dignidade como pessoas infinitamente amadas pelo
Senhor”, escreveu Leão XIV. “Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente
perdão.”
Ancestrais
negros, vivência entre indígenas
No ano
passado, um genealogista nos EUA descobriu que o primeiro papa americano — cujo
nome é Robert Prevost — tinha ascendência crioula e que seus bisavós maternos
eram descritos como pessoas de cor nos registros do censo da Louisiana. A
pesquisa revelou que Leão XIV tinha ancestrais negros e brancos, incluindo
tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.
Se não
bastasse, o novo papa viveu 18 anos no Peru e liderou igrejas que
compartilhavam espaço e cultura com indígenas locais. Para a diplomacia
brasileira, o americano passou a ser considerado como o primeiro “papa
amazônico”.
A
declaração desta segunda-feira ainda ocorre semanas depois de o papa retornar
de uma viagem pela África. Em Angola, ele relembrou a “dor e o grande sofrimento”
que os angolanos suportaram durante séculos.
As
palavras foram emitidas enquanto rezava em um santuário católico localizado em
um importante centro do comércio de escravos africanos durante o domínio
colonial português.
Falando
em português, ele lembrou que foi ali “onde, por séculos, muitos homens e
mulheres rezaram em momentos de alegria e também em momentos de tristeza e
grande sofrimento na história deste país”.
O que
diz a encíclica
Sua
primeira encíclica, “Magnifica
Humanitas” (Magnífica Humanidade), foi lançada na segunda-feira.
Segundo ele, ao longo da história, milhões de pessoas foram alvo de diferentes
formas de escravidão. Hoje, as novas formas de escravidão e colonialismo estão
sendo alimentadas pela revolução digital, pelo trabalho não regulamentado
necessário para a obtenção de minerais raros indispensáveis para chips de IA.
No
texto, o papa lembrou que seu homônimo, o papa Leão XIII, foi o primeiro a
condenar explicitamente a escravidão em 1888.
Mas não
hesitou em denunciar o papel da Santa Sé e as bulas papais que autorizavam e
promoviam a escravidão.
“Já no
início da Idade Moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo aos pedidos dos
soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de
subjugação e, em certos casos, incluindo a escravização de ‘infiéis’”, disse.
“Não podemos negar ou minimizar a demora com
que tanto a sociedade quanto a Igreja vieram a denunciar o flagelo da
escravidão”, disse ele.
Para o
papa, a Igreja levou “dezoito séculos para que sua plena incompatibilidade com
a escravidão fosse explicitamente reconhecida”.
“Isso
constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar
alheios”, concluiu.
Hoje,
ele pede que se condenem todas as formas de tráfico relacionadas à revolução
tecnológica digital “se quisermos evitar a necessidade de pedir perdão novamente
no futuro por termos falhado em respeitar o tesouro da dignidade humana que é
exigido por nossa fé”.
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