Bolsa Família, o preconceito e a luta pela renda
Lucilene
Barbosa*
De tempos em tempos, algumas pessoas criticam o Bolsa Família, dizendo que o programa cria dependência e desmotiva o trabalho. Esse tipo de opinião ignora a desigualdade histórica do Brasil e acaba culpando as pessoas pela pobreza. O Bolsa Família não é um privilégio, mas uma política de proteção social que garante o mínimo necessário para milhões de famílias sobreviverem e contribui para reduzir a pobreza, a extrema pobreza e a desigualdade.
Os resultados
do Bolsa Família aparecem claramente na vida das famílias. Pesquisas mostram
que houve melhorias na alimentação, no acesso à saúde, na frequência escolar e
na proteção de crianças e adolescentes. O programa também ajudou a reduzir a
mortalidade infantil e a prevenir doenças evitáveis. Não é verdade que o Bolsa
Família prende as pessoas ao benefício: milhões de famílias deixam de receber
quando conseguem aumentar a renda por meio do trabalho ou de outras formas de
inclusão econômica. Além disso, estudos recentes do Instituto Mobilidade e
Desenvolvimento Social mostram que o programa ajudou cerca de 256 mil
beneficiários a entrar no ensino superior, ampliando as oportunidades
educacionais e profissionais para quem antes não tinha acesso à universidade.
As
críticas ao Bolsa Família geralmente trazem outro problema: a desconfiança
constante em relação às famílias pobres. Em vez de discutir a desigualdade, o
desemprego ou a precarização do trabalho, parte do debate passa a tratar essas
pessoas como suspeitas por definição, insinuando que há fraude, má-fé ou algum
“jeitinho” para continuar recebendo o benefício. Pesquisas sobre o programa e
sobre a opinião pública mostram que esse preconceito não existe apenas por
falta de informação: mesmo quando as pessoas recebem dados corretos sobre o
funcionamento e os resultados do Bolsa Família, as opiniões negativas muitas
vezes permanecem, o que revela um forte preconceito de classe, e não apenas
desinformação, negando às pessoas pobres o direito de serem reconhecidas como
sujeitos de direitos.
No dia a
dia das famílias em situação de vulnerabilidade, o que se vê não é acomodação,
mas sim um esforço constante para garantir comida, transporte, material escolar
e cuidados básicos, mesmo em meio a trabalho precário e renda instável. Muitas
pessoas já chegam aos serviços públicos sobrecarregadas por várias violações de
direitos e encontram no Bolsa Família um dos poucos instrumentos de proteção
social que garantem o mínimo para sobreviver e proteger as crianças. Olhando de
perto, fica claro que o programa não substitui o trabalho, mas ajuda a reduzir
os efeitos de um modelo econômico que gera exclusão.
Ao mesmo
tempo, uma nova ameaça pesa sobre o orçamento das famílias: as apostas on-line,
conhecidas como bets. Em poucos anos, esse mercado passou a movimentar bilhões
de reais por mês e já é um dos principais fatores de endividamento das
famílias, afetando ainda mais quem tem menor renda. Enquanto uma política
pública busca garantir direitos básicos, as bets disputam essa mesma renda com
promessas de ganho fácil, que muitas vezes acabam em dívidas, ansiedade e perda
de controle do orçamento doméstico.
Defender
o Bolsa Família é defender a dignidade de quem enfrenta muitas dificuldades.
Isso significa combater o preconceito contra os beneficiários e também
denunciar mecanismos que tiram renda das famílias e aumentam o endividamento,
como as apostas on-line. Entre culpar quem precisa de proteção social e
enfrentar as estruturas que criam desigualdade e exploração, a escolha mostra o
tipo de sociedade que queremos construir.
*Lucilene Barbosa é assistente social, pesquisadora do GEPE/UFPE
[Ilustração: imagem produzida por IA]
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