28 maio 2026

Celso Pinto de Melo opina

A terceira onda brasileira
Do otimismo de JK ao desafio de 1968 – e o que está em jogo em 2026
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN    


“Se muito vale o já feito, mais vale o que será” (Nos Bailes da Vida, de Milton Nascimento e Fernando Brant)

Há momentos raros em que um país deixa de duvidar de si próprio. O Brasil viveu pelo menos dois desses momentos no século XX – e ambos foram mais do que simples conjunturas econômicas ou ciclos culturais. Foram estados de espírito coletivos.

O primeiro, no final dos anos 1950, foi o do otimismo desenvolvimentista. Sob Juscelino Kubitschek, o país crescia, construía Brasília e passava a se enxergar como uma nação moderna em formação. No início dos anos 1960, a seleção conquistava o bicampeonato mundial, o basquete repetia a façanha em 1959 e 1963, Maria Esther Bueno brilhava em Wimbledon, Éder Jofre tornava-se campeão mundial de boxe, enquanto a Bossa Nova projetava para o mundo uma imagem sofisticada e cosmopolita do Brasil.

Em Brasília, a arquitetura de Oscar Niemeyer e o plano urbanístico de Lúcio Costa materializavam uma ambição inédita: a de que o país podia não apenas crescer, mas também reinventar sua própria paisagem e propor uma estética moderna ao mundo. A Bossa Nova traduzia essa mesma renovação em linguagem musical. Brasília e a Bossa Nova anunciavam, cada uma à sua maneira, que o futuro parecia ter finalmente chegado ao país.Não era apenas desempenho esportivo ou artístico. Era confiança histórica. Era a sensação de que o país, por fim, superava o “complexo de vira-latas” diagnosticado por Nelson Rodrigues após 1950. Havia projeto, crescimento e autoestima.

A segunda onda foi mais paradoxal. No final dos anos 1960, sob a ditadura, emergiu uma geração que transformou repressão em invenção. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gal Costa, Maria Bethânia, Paulinho da Viola e Geraldo Vandré não apenas produziram grandes canções – também produziram gestos públicos. Se o Tropicalismo reorganizou a linguagem cultural brasileira, Vandré simbolizou o momento em que a canção se tornava um enfrentamento público. No cinema, Glauber Rocha e o Cinema Novo radicalizavam a crítica social e política, propondo uma estética da fome que confrontava a desigualdade estrutural do país.

O estado de espírito já não era o da euforia confiante, mas o da inteligência desafiadora. A censura exigiu metáfora; a repressão estimulou sofisticação. A cultura tornou-se espaço de resistência e elaboração crítica.

Nada disso foi casual. Nos dois casos, havia tensão histórica. Nos anos JK, a aceleração econômica alimentava a crença no futuro. No final dos anos 1960, o avanço do autoritarismo exigia uma resposta estética. Quando a história se intensifica, a cultura responde.

Hoje, o Brasil vive um terceiro momento – ainda em formação. Não há euforia, tampouco confronto aberto com um regime fechado. Há reconstrução democrática sob pressão geopolítica. Após anos de radicalização política, corrosão institucional e fragmentação do debate público, o país tenta recompor seu tecido político e reposicionar-se em um mundo em disputa. A rivalidade entre Estados Unidos e China reconfigura cadeias produtivas, impõe escolhas tecnológicas e redefine margens de autonomia. Transição energética, reindustrialização verde, soberania digital e política externa ativa voltaram ao centro da agenda.

O país voltou a discutir neoindustrialização, minerais estratégicos, semicondutores, bioeconomia e integração sul-americana – temas que haviam praticamente desaparecido do horizonte nacional poucos anos antes. Ainda de forma desigual e incompleta, reaparece a ideia de que desenvolvimento não é apenas crescimento econômico, mas também capacidade de produzir tecnologia, cultura e autonomia política.

No plano cultural, surgem sinais que não devem ser subestimados. Obras como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, produções recentes como O Agente Secreto e peças como Lady Tempestade retomam a memória histórica, o autoritarismo e a identidade nacional sob ângulos distintos – do cinema à cena teatral. Não é celebração. É elaboração. O país parece empenhado em compreender o que viveu para decidir o que quer ser.

O estado de espírito atual, porém, permanece em disputa. A esfera pública fragmentou-se em bolhas digitais, a confiança coletiva é frágil e a desigualdade persiste como um obstáculo estrutural. Ao mesmo tempo, a sociedade é mais plural e mais consciente de suas próprias fraturas do que nas décadas anteriores.

Durante parte da última década, contudo, prevaleceu um clima distinto. O país experimentou um período de desalento cívico, enfraquecimento institucional e retração do horizonte coletivo. O clima de beligerância permanente, o esvaziamento de políticas públicas estruturantes e o rebaixamento do debate público produziram não apenas instabilidade política, mas também uma sensação difusa de perda de rumo. A confiança – aquela matéria-prima invisível das grandes ondas culturais – tornou-se escassa.

Grandes ondas culturais raramente surgem em sociedades que perderam completamente a capacidade de imaginar o futuro.

A questão central talvez seja esta: o Brasil conseguirá transformar a reconstrução democrática em uma afirmação soberana e mais igualitária diante dos desafios do século XXI?

Se conseguir, poderá emergir um novo clima cultural – não de euforia ingênua, nem apenas de resistência defensiva, mas de maturidade afirmativa. A primeira onda foi movida por um otimismo confiante. A segunda, por desafio criativo ao autoritarismo. Uma terceira dependerá da capacidade de combinar democracia estável, projeto nacional e redução consistente das desigualdades. Sem inclusão social, não há horizonte compartilhado. Sem soberania produtiva e tecnológica, não há autoestima duradoura. 

O “complexo de vira-latas” reaparece sempre que o país se percebe sem rumo. Ele prospera na sensação de impotência. Mas recua quando a sociedade identifica um caminho plausível e bem sustentado. Confiança não nasce de slogans; nasce de resultados e de propósito coletivo.

Pela primeira vez em muitos anos, o país parece se aproximar de uma escolha que ultrapassa programas de governo e alcança visões antagônicas sobre o próprio significado de desenvolvimento, democracia e soberania nacional.

As eleições de 2026 serão decisivas nesse processo. Não se tratará apenas de escolher um governo, mas de definir a orientação histórica do país. Elas indicarão se o Brasil consolida um pacto democrático capaz de sustentar um projeto de longo prazo, baseado em inclusão, soberania e reconstrução institucional, ou se reabre um ciclo de instabilidade institucional e erosão das bases civilizadas de convivência pública – cenário que inevitavelmente comprometeria qualquer horizonte cultural consistente.

A arte costuma antecipar o que a política tarda em organizar. Foi assim nos anos 1960. Pode voltar a ser agora.

O Brasil talvez não esteja às vésperas de uma nova euforia, mas pode estar diante de algo mais sólido: a afirmação consciente de uma nação que decide combinar democracia, soberania e igualdade como a base do seu futuro.

Quando isso acontece, a imagem do vira-lata deixa de definir o país – e o Brasil volta a se reconhecer como protagonista de sua própria história.

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências 

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