Soy
Latino-Americano: a arte e a identidade
Abraham
B. Sicsu
Deixo claro, não sou
entendido em arte e nem posso me arvorar de conhecedor de suas escolas ou
concepções. Apenas gosto de apreciar e sempre que é possível vou ver exposições
e admirar o belo.
Estando em São Paulo,
sempre reservo uma tarde para ver o que acontece no Itaú Cultural, na Casa
Japonesa, no Instituto Coreano, no Moreira Sales e, evidentemente, no MASP, com
seu novo edifício.
Nele, encontro dois
andares de um artista peruano. Santiago Yahuarcani, indígena do povo Uitolo que
vive na região amazônica. Sua obra me impressiona. Ver o mundo na ótica dos
habitantes originais da região, o sentir as perseguições que atingiram sua
própria família. Sua pintura traz os mitos, a sobrevivência na região, o ciclo
da borracha e sua opressão, o respeito pela natureza e seus seres enigmáticos.
Obras grandes e de um
colorido que cativa. Os felinos e as matas. Tudo usando materiais do local. As
pinturas feitas sobre llamchamas, telas feitas de cascas de árvores trançadas,
dando um caráter ambiental muito peculiar.
A exposição se chama
“O princípio do conhecimento”, interessante notar que é uma das obras em que
folhas de coca passam a ter formas humanas como mãos e boca, onde saem folhas
de tabaco. Os mitos presentes, o Deus Buinaima, aquele que traz a sabedoria
para o povo Uitolo.
Enfim, o respeito
pela natureza, pelos rios, pela floresta e pelos seres humanos, numa
coexistência de harmonia. Fiquei maravilhado.
No Rio não posso
deixar de ir ao MAR, ao MAM, ao CCBB e ao Paço Imperial. Sempre me trazem boas
surpresas. Neste ano, o Museu de Arte Moderna apresentou algo que me fez ter
orgulho de nossa brasilidade. A exposição de Rubem Valentim.
Na minha ignorância
intelectual, desconhecia sua obra e seu legado. Algo imperdoável.
Rubem Valentim, na
arte brasileira do século XX, revelou nossa cultura para o mundo. É considerado
um mestre do concretismo. Nasceu em
Salvador no ano da Semana de Arte Moderna, 1922, e integrou o Movimento de
Renovação das Artes Plásticas na Bahia junto, por exemplo, de Mário Cravo
Júnior. Sua obra incorpora todo o sincretismo religioso afro brasileiro através
do uso de símbolos e emblemas associados aos Orixás. As religiões de base
africanas, usando figuras geométricas, são a base do seu legado artístico. Ao
longo de quase cinco décadas trouxe obras em que o indígena e o negro, além de
símbolos orientais, vão marcando a evolução
de sua concepção de mundo, do representar de quem somos.
A exposição percorre
seu caminho de vida, em cinco ambientes que nos mostram o seu pensar. Partindo
de sua origem Salvador, passando pelo Rio, Roma e Brasília, até chegar a São
Paulo, onde falece em 1991.
Fiquei impressionado
com a evolução das cores. Partindo de tons fortes e representativos dos Orixás,
como o vermelho ou amarelo, vai aperfeiçoando, abandonando telas, centrando em
entalhes de madeira, entre outras evoluções, até chegar ao branco deslumbrante
de seu “Templo de Oxalá”. Nele tudo se incorpora e não é necessário mais cores,
mas sim luz, luz que ressalta formas, luz que traz ao centro seus símbolos,
suas imagens representativas do mundo sincrético que o orientou. Fiquei
deslumbrado.
Ainda no Rio, fui ao
Paço Imperial, ver uma exposição de Marcelo Silveira, artista pernambucano, que
bem conheço e admiro. A exposição se chama “O que sustenta”.
Marcelo que expõe em
espaços aberto, Marcelo das grandes obras, do valorizar das nossas madeiras, do
juntar de memórias em quadros sistemáticos, optou por uma concepção diferente.
Um porão em que
madeiras retorcidas livres para o mexer ao vento, tem sob sua estrutura novelos
de linho, com um som ao longe dizendo
que está “Tudo Certo”. Será?
E explicação oficial
é rebuscada e não saberia aqui fazê-la. Mas, vale dar a minha interpretação.
O ambiente do porão,
quase uma antiga senzala, com uma estrutura de madeira solta acima do solo,
deu-me a impressão das nossas cidades, do sufocamento das metrópoles, da falta
de ar em ambiente fechado que impossibilita movê-la. Os novelos de linho
amontoados ao chão como gente que se aglomera na busca de um raio de luz, num
centro em que não há privacidade. Lembrem que estava no centro do Rio.
Não sei se foi
delírio ou loucura, sei lá, mas dei significado para mim e gostei. Uma visão
das metrópoles em nossa latinidade.
A mente viaja, o
sentimento surge, a latinidade se reforça.
“Soy loco por ti,
América “...
Loco por ti de
amores”
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