30 maio 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

Soy Latino-Americano: a arte e a identidade
Abraham B. Sicsu 

Deixo claro, não sou entendido em arte e nem posso me arvorar de conhecedor de suas escolas ou concepções. Apenas gosto de apreciar e sempre que é possível vou ver exposições e admirar o belo.

Estando em São Paulo, sempre reservo uma tarde para ver o que acontece no Itaú Cultural, na Casa Japonesa, no Instituto Coreano, no Moreira Sales e, evidentemente, no MASP, com seu novo edifício.

Nele, encontro dois andares de um artista peruano. Santiago Yahuarcani, indígena do povo Uitolo que vive na região amazônica. Sua obra me impressiona. Ver o mundo na ótica dos habitantes originais da região, o sentir as perseguições que atingiram sua própria família. Sua pintura traz os mitos, a sobrevivência na região, o ciclo da borracha e sua opressão, o respeito pela natureza e seus seres enigmáticos.

Obras grandes e de um colorido que cativa. Os felinos e as matas. Tudo usando materiais do local. As pinturas feitas sobre llamchamas, telas feitas de cascas de árvores trançadas, dando um caráter ambiental muito peculiar.

A exposição se chama “O princípio do conhecimento”, interessante notar que é uma das obras em que folhas de coca passam a ter formas humanas como mãos e boca, onde saem folhas de tabaco. Os mitos presentes, o Deus Buinaima, aquele que traz a sabedoria para o povo Uitolo.

Enfim, o respeito pela natureza, pelos rios, pela floresta e pelos seres humanos, numa coexistência de harmonia. Fiquei maravilhado.

No Rio não posso deixar de ir ao MAR, ao MAM, ao CCBB e ao Paço Imperial. Sempre me trazem boas surpresas. Neste ano, o Museu de Arte Moderna apresentou algo que me fez ter orgulho de nossa brasilidade. A exposição de Rubem Valentim.

Na minha ignorância intelectual, desconhecia sua obra e seu legado. Algo imperdoável.

Rubem Valentim, na arte brasileira do século XX, revelou nossa cultura para o mundo. É considerado um mestre do concretismo.  Nasceu em Salvador no ano da Semana de Arte Moderna, 1922, e integrou o Movimento de Renovação das Artes Plásticas na Bahia junto, por exemplo, de Mário Cravo Júnior. Sua obra incorpora todo o sincretismo religioso afro brasileiro através do uso de símbolos e emblemas associados aos Orixás. As religiões de base africanas, usando figuras geométricas, são a base do seu legado artístico. Ao longo de quase cinco décadas trouxe obras em que o indígena e o negro, além de símbolos orientais, vão marcando a evolução  de sua concepção de mundo, do representar de quem somos.

A exposição percorre seu caminho de vida, em cinco ambientes que nos mostram o seu pensar. Partindo de sua origem Salvador, passando pelo Rio, Roma e Brasília, até chegar a São Paulo, onde falece em 1991.

Fiquei impressionado com a evolução das cores. Partindo de tons fortes e representativos dos Orixás, como o vermelho ou amarelo, vai aperfeiçoando, abandonando telas, centrando em entalhes de madeira, entre outras evoluções, até chegar ao branco deslumbrante de seu “Templo de Oxalá”. Nele tudo se incorpora e não é necessário mais cores, mas sim luz, luz que ressalta formas, luz que traz ao centro seus símbolos, suas imagens representativas do mundo sincrético que o orientou. Fiquei deslumbrado.

Ainda no Rio, fui ao Paço Imperial, ver uma exposição de Marcelo Silveira, artista pernambucano, que bem conheço e admiro. A exposição se chama “O que sustenta”.

Marcelo que expõe em espaços aberto, Marcelo das grandes obras, do valorizar das nossas madeiras, do juntar de memórias em quadros sistemáticos, optou por uma concepção diferente.

Um porão em que madeiras retorcidas livres para o mexer ao vento, tem sob sua estrutura novelos de linho,  com um som ao longe dizendo que está “Tudo Certo”.  Será?

E explicação oficial é rebuscada e não saberia aqui fazê-la. Mas, vale dar a minha interpretação.

O ambiente do porão, quase uma antiga senzala, com uma estrutura de madeira solta acima do solo, deu-me a impressão das nossas cidades, do sufocamento das metrópoles, da falta de ar em ambiente fechado que impossibilita movê-la. Os novelos de linho amontoados ao chão como gente que se aglomera na busca de um raio de luz, num centro em que não há privacidade. Lembrem que estava no centro do Rio. 

Não sei se foi delírio ou loucura, sei lá, mas dei significado para mim e gostei. Uma visão das metrópoles em nossa latinidade.

A mente viaja, o sentimento surge, a latinidade se reforça.

“Soy loco por ti, América “...
Loco por ti de amores”

[Ilustração: Santiago Yahuarcani]

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