26 maio 2026

Palavra de poeta

Amargura
Henriqueta Lisboa   

Eu chegarei depois de tudo,
mortas as horas derradeiras,
quando alvejar na treva o mudo
riso de escárnio das caveiras.

Eu chegarei a passo lento,

exausta da estranha jornada,
neste invicto pressentimento
de que tudo equivale a nada.

 

Um dia, um dia, chegam todos,
de olhos profundos e expectantes.
E sob a chuva dos apodos
há mais infelizes do que antes.

 

As luzes todas se apagaram,
voam negras aves em bando.
Tenho pena dos que chegaram
e a estas horas estão chorando…

 

Eu chegarei por certo um dia…
assim, tão desesperançada,
que mais acertado seria
ficar em meio à caminhada.

[Ilustração: Sarah Sedwick]

Leia também "Eu era apenas quanto", poema de Joseph Brodsky https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-poeta_6.html 

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