Dissimulação e mentira
da newsletter 'Primeiro café'
No livro “O Vendedor de Passados” José Eduardo Agualusa utiliza um recurso narrativo muito interessante para contar a história do homem que falsifica passados a troco de dinheiro. O enredo é contado por uma lagartixa que, oculta na casa da personagem principal, testemunha tudo em primeira pessoa. Eu queria ser amigo da osga que presenciou o nebuloso encontro entre Flávio Bolsonaro e o dono da Globo horas antes da entrevista do candidato no Jornal Nacional.
Só este animal poderia revelar se algo foi dito neste almoço que fez a entrevista ter sido um espaço tão aberto para que o candidato da extrema direita pudesse mentir com tanta segurança. Na ausência da desejosa testemunha, só podemos fazer suposições baseadas no passado que a Globo não reescreveu contratando Félix Ventura, o vendedor de passados do Agualusa.
Antes de prosseguir, preciso dizer que temos de separar claramente forma do conteúdo.
Na forma, Flávio foi muito superior a Lula. Aproveitou o tempo para atacar o adversário em todas as respostas, mesmo que o ataque nada tivesse a ver com o assunto da pergunta. Reforçou com sucesso que o seu principal ativo eleitoral é não ser Lula e, assim, conversa com o antipetismo ignorante que pode definir esta eleição.
No conteúdo, Flávio entregou exatamente o que se espera dele: fake news e respostas vagas. Infelizmente, não será o conteúdo da fala dos candidatos que irá definir o voto dos indecisos. Nesta altura do campeonato, o eleitor não está mais interessado em saber onde foi parar o dinheiro do Vorcaro para o filme do pai dele, os motivos que o levaram a mudar de ideia sobre o fim da escala 6x1 etc.
Com tantas mentiras flagrantes, só um néscio voluntário acreditará nas promessas de Flávio de não cortar programas sociais, não privatizar empresas públicas, não indicar o pai e o irmão condenados para cargos no governo e, principalmente, se ganhar, não concorrer à reeleição e, caso perca, respeitar o resultado da eleição.
O corte mais relevante foi quando Flávio argumentou, e aí com razão, que Lula esqueceu dos beneficiários do Bolsa Família. Este foi o maior erro de Lula na entrevista do dia anterior e um presente para o adversário, que agradeceu e aproveitou.
Lula: tudo na ponta da língua https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0599807603.html

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