08 novembro 2026

Ultradireita em apuros

Paraguai: colapso num “paraíso” da ultradireita
Aliado a Trump, Milei e os Bolsonaro, presidente renuncia. Crise bancária expõe “porta giratória” entre financismo e governo. Em xeque, acordo militar com EUA e uso de Itaipu pelas big techs. Partido Colorado ainda dá as cartas e blinda o vice
Carmem Leitão e Florencia Pelagagge/Outras Palavras    

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia na manhã desta quinta-feira (5/11), enquanto a Câmara discutia o pedido de impeachment contra ele. O ministro do Interior entregou a carta ao Congresso. A Câmara aprovou a acusação contra Peña por 78 votos a zero e a enviou ao Senado. Aceita a renúncia, cabe ao vice, Pedro Alliana, completar o mandato até agosto de 2028. Dois dias antes, clientes do Ueno Bank encontraram as agências fechadas e os serviços digitais suspensos. O Banco Central do Paraguai (BCP) abrira o processo de fechamento do banco após constatar que seu índice de solvência estava abaixo da metade do mínimo exigido. A queda do banco e a renúncia de Peña abalam a imagem do Paraguai como um paraíso liberal de suposta segurança econômica e de pouca intervenção estatal.

Peña foi acionista da Ueno Holding, controlada pelo Grupo Vázquez, até março de 2025. Carlos Carvallo, que presidira a financeira antecessora do Ueno Bank, deixou o Banco Central a pedido do presidente. Uma das operações investigadas envolve a aquisição de uma carteira de crédito de US$ 74,4 milhões que, segundo a hipótese da promotoria, teria sido financiada indiretamente pelo próprio Ueno. Segundo a denúncia ampliada pelos parlamentares, em abril a supervisão do BCP já havia apontado que o crédito a empresas vinculadas ultrapassava os limites permitidos. No mesmo dia da renúncia do presidente, o procurador-geral encaminhou à unidade de delitos econômicos, para avaliação, uma ampliação da denúncia que envolve Peña e antigos dirigentes do Banco Central. Investigações da imprensa independente paraguaia já anunciavam, antes da crise, a passagem de dirigentes de bancos para postos estratégicos do Estado. É nesse contexto que importa esclarecer o que as autoridades sabiam e como decidiram aplicar dinheiro público em um banco privado.

O vice-presidente Alliana também foi alvo de um pedido de julgamento político. Os autores lhe atribuíram a tentativa de barrar a fiscalização parlamentar, o aval à aplicação de recursos previdenciários no Ueno e a omissão diante de alertas sobre o crédito concedido a empresas vinculadas. O documento também lhe atribuiu a articulação da mudança legal que, em 2024, revogou restrições aplicáveis a certas atividades privadas após a saída de cargos públicos. No dia seguinte, a maioria do Partido Colorado no Legislativo rejeitou o pedido, com 48 votos contrários e 30 favoráveis. Os deputados que votaram pelo arquivamento invocaram os limites formais das atribuições do vice. A investigação do Ministério Público sobre as operações bancárias segue seu curso. Ao apoiar o julgamento de Peña e preservar o sucessor, o grupo de Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio, mostrou que ainda dispõe de força para arbitrar a crise no Partido Colorado. A leitura de Esteban Caballero sobre o peso do dinheiro e do comando partidário no cartismo ajuda a entender essa capacidade de reorganização. As decisões sobre as aplicações previdenciárias e as regras de conflito de interesses seguem no coentro do conflito, mas a maioria parlamentar mantém Alliana na linha sucessória.

A crise bancária ocorre em um contexto de perspectivas favoráveis para a economia paraguaia. Em setembro, o Banco Central do Paraguai (BCP) elevou de 4,5% para 5% a projeção de crescimento do PIB para 2026. Entretanto, os efeitos da crise sobre o crédito, o consumo e as condições de vida da população ainda precisam ser dimensionados. Em 2025, a informalidade atingia 60,1% das pessoas ocupadas nas atividades não agropecuárias abrangidas pelo levantamento oficial, aproximadamente 1,66 milhão de trabalhadores. Esse quadro amplia a preocupação com os efeitos sociais da restrição de acesso aos recursos financeiros, especialmente entre aqueles que dependem de rendimentos instáveis. A situação remete, guardadas as diferenças de escala e circunstâncias, à crise argentina de 2001, quando as restrições generalizadas aos saques ficaram conhecidas como corralito. Embora o bloqueio no Paraguai tenha origem na liquidação de uma instituição bancária, a comparação evidencia um problema comum: a distância entre as garantias anunciadas e a possibilidade concreta de acesso ao dinheiro. Para famílias com rendimentos instáveis, a proteção financeira depende também da disponibilidade dos recursos quando precisam deles.

A imagem do Paraguai como um “oásis conservador”, associada à estabilidade política e à segurança dos interesses empresariais, é colocada em xeque diante da crise. Até recentemente, perfis brasileiros nas redes sociais combinaram mensagens contra o governo Lula com a venda de assessoria para obter residência ou abrir empresas no Paraguai. Em 2025, brasileiras e brasileiros apresentaram 23.526 pedidos de residência, temporária ou permanente, dos quais 18.903 temporários e 4.623 permanentes. O MigraMóvil é uma das vias de atendimento a pessoas estrangeiras.

A crise também pode repercutir sobre a articulação das forças conservadoras na América Latina, ao colocar em questão a estabilidade política e econômica de um de seus importantes aliados regionais. Peña recebeu Javier Milei na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) em Assunção, em setembro de 2025. Naquele encontro, Milei apresentou o Paraguai como referência econômica para a Argentina e para o restante da América do Sul. Durante as eleições brasileiras, Flávio Bolsonaro apresentou a Argentina de Javier Milei como referência para sua agenda econômica e incluiu o Paraguai de Santiago Peña entre os aliados políticos de seu projeto para a América Latina.

A crise do Ueno recoloca em debate o papel dos recursos públicos no modelo que governos ultraconservadores aplicam na região. A “porta giratória” entre governos, empresas e plataformas de comunicação integra a dinâmica das novas direitas latino-americanas estudadas por Lorena Soler. Em fevereiro de 2026, o próprio Ueno patrocinou uma gala em Mar-a-Lago à qual compareceu Eduardo Bolsonaro. A presença do banco nesses circuitos mostra como interesses privados paraguaios buscaram projeção em ambientes ligados à direita trumpista.

A aproximação paraguaia com Washington também tem uma dimensão militar. A Lei 7.630/2026 aprovou o acordo sobre o estatuto das forças (SOFA), que prevê presença temporária e concede privilégios e imunidades a militares norte-americanos e a civis do Departamento de Defesa. O texto reconhece a jurisdição penal dos EUA sobre esse pessoal. Em agosto, o exercício Fuerzas Comando reuniu 17 países no Paraguai, incluindo o Brasil. Julieta Heduvan aponta as imunidades e a imprecisão dos prazos e dos controles como os pontos mais sensíveis do acordo. Para o Brasil, o alcance dessas missões e sua fiscalização dizem respeito à segurança na fronteira e à coordenação regional.

Em outubro, o Paraguai aderiu à Pax Silica, iniciativa dos EUA que reúne cadeias de minerais críticos e infraestrutura para inteligência artificial. Em paralelo, Crusoe e Araico anunciaram um centro de computação alimentado por Itaipu, com implantação inicial prevista para meados de 2027 e possibilidade de expansão para 106 MW de capacidade de TI. O anúncio também menciona a opção de ampliar a capacidade total para cerca de 280 MW a longo prazo. Os termos de fornecimento, os tributos e a formação de trabalhadores definirão quanto desse investimento se traduzirá em benefícios no Paraguai. A negociação desses projetos confere conteúdo econômico à aproximação com Washington e continuará a exigir escrutínio público durante a sucessão.

Os efeitos mais imediatos para o Brasil passam pela fronteira. Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil recebeu 59,6% das exportações paraguaias sob o regime de maquila, voltado à produção para exportação, e a Argentina, 14,4%. Dificuldades de pagamento podem atingir fornecedores, transportadores e o comércio, com alcance ainda por medir. O governo Lula pode acompanhar as cadeias produtivas, prestar assistência consular e cooperar com as autoridades paraguaias na proteção de trabalhadores e poupadores afetados.

A crise do Ueno Bank também exige explicações por parte da Itaipu. A margem paraguaia da binacional havia identificado a instituição entre os bancos nos quais mantinha recursos. Na tarde de 5 de novembro, o saldo exposto ainda aguardava divulgação. A isso se soma a negociação sobre o uso da energia. O crescimento do consumo paraguaio pode reduzir a parcela excedente que o Brasil adquire. A cota brasileira é assegurada pelo tratado. A revisão do Anexo C, que trata das regras financeiras e de comercialização, permanece em negociação. Peña via na reeleição de Lula a oportunidade de chegar a um acordo até o fim do ano. A transição abre uma interlocução política com o vice Alliana. O debate público precisa atender aos critérios usados para a aplicação dos recursos da binacional, bem como às tarifas e contrapartidas oferecidas aos grandes consumidores de energia. O Brasil tem interesse em respeitar o direito paraguaio de usar sua parcela e de planejar suas próprias compras de energia. Os ganhos dessa integração precisam chegar à população e ao mundo do trabalho em ambos os países.

Governos e agências estaduais do Sul do Brasil também participam dos circuitos econômicos com o Paraguai. Ratinho Junior recebeu Peña em setembro de 2025 para discutir logística e investimentos e, em outubro de 2026, apoiou Flávio Bolsonaro. Em agosto, Rediex e Invest Santa Catarina firmaram acordo comercial na presença de Jorginho Mello, reeleito no primeiro turno, e de Alliana, então no exercício da Presidência do Paraguai. No Rio Grande do Sul, a transição de Eduardo Leite para Zucco, aliado de Flávio Bolsonaro, altera a composição política regional a partir de 2027. A sucessão em Assunção pode preservar as interlocuções que o próprio Alliana ajudou a construir. Cabe ao governo federal coordenar as negociações que envolvem infraestrutura e recursos nacionais.

As eleições norte-americanas terminaram com derrota amarga de Trump e maiorias democratas nas duas Casas do Congresso. A partir de 3 de janeiro de 2027, o novo Legislativo poderá fiscalizar os acordos de cooperação com o Paraguai e disputar as dotações correspondentes. A perda de força de Trump e a renúncia de Peña enfraquecem a aposta em relações pessoais como garantia de respaldo político. Os interesses estadunidenses em energia e em infraestrutura digital atravessam as duas mudanças. Para o Brasil, a transição em Assunção e a nova composição do Congresso em Washington aumentam o valor de acordos públicos e previsíveis, conduzidos pelas instituições de cada país.

Os relatos de Assunção mostram como as reivindicações mudaram de escopo. O Ueno Bank cresceu com recursos provenientes de instituições públicas. Agora, a devolução dos depósitos depende de decisões do Congresso e do Banco Central. Em 4 de novembro, poupadores(as) e aposentados(as) voltaram às ruas para a restituição dos depósitos e a apuração de responsabilidades. A polícia usou spray de pimenta e projéteis de borracha perto do Congresso. No dia seguinte, trabalhadores do Ueno e do Grupo Vázquez protestaram em frente ao Ministério do Trabalho por salários e indenizações. Essas demandas exigem uma resposta própria, pois a garantia de depósitos aplica-se aos saldos elegíveis. Até o momento, o Congresso aprovou um adiantamento de até 40 salários mínimos, equivalente a cerca de 121,8 milhões de guaranis, por depositante. O limite ordinário da garantia é de 228,3 milhões por depositante e por instituição.

A proteção de quem perdeu renda depende também da fiscalização das relações de trabalho e da liberdade de se organizar e de cobrar. O Partido Colorado chega à transição com maioria parlamentar e com a força da identidade partidária que Alejandra Najenson identifica nas redes familiares. A convergência das reivindicações de poupadores(as) e trabalhadores(as) dá ao campo progressista latino-americano uma agenda que ultrapassa a disputa pelos nomes da sucessão. O governo Lula pode apoiar a coordenação no Mercosul para proteger as pessoas afetadas e acompanhar de perto os efeitos da crise na fronteira.

Neofascismo sofre duro revés nos Estados Unidos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/editorial-do-vermelho_0389472228.html 

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