Comunicação digital entre a virtude e a culpa e a luta política*
Luciano
Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Certa vez ouvi Carlos Heitor Cony comentar uma crônica de Machado de Assis a propósito de um acidente fatal com um bonde elétrico recém-implantado no Rio de Janeiro.
Machado se queixava dos riscos do novo meio
de transporte, sugerindo ser preferível o bonde puxado a cavalos, que pelo
menos não ameaçava os usuários com eventuais choques elétricos.
“A Humanidade avança às cegas”, arrematava
Cony, afirmando que o progresso inevitavelmente vem com virtudes e defeitos.
O grande Machado se mostrava resistente ao
progresso. Cony talvez exagerasse em sua assertiva. Mas a verdade é que nada
que o homem crie sob esse céu de Nosso Senhor é perfeito, cem por cento bom,
zero em riscos e agravos.
Nem por isso vamos deixar de fazer bom uso do
produto do progresso da ciência e da tecnologia.
Caso da internet, redes sociais em particular.
Explodem revoltas no Oriente Médio: tome elogios às redes sociais, alçadas à
condição de arma poderosa e decisiva na mobilização de vontades, como se base
objetiva e contradições sociais e políticas reais não estivessem na raiz da
insurgência.
Psicopatas invadem escolas, cinemas ou
supermercados e atiram a esmo matando e ferindo dezenas de inocentes: tome maldição
às redes sociais, agora acusadas de diabólicas, pois os assassinos deixam
registros em seus computadores dando conta de que frequentavam comunidades
malignas e que tais.
Nem uma coisa, nem outra: a internet nem é a
solução para todos os nossos problemas, sequer o da comunicação entre as
pessoas; nem a raiz dos males sociais que nos afligem.
É apenas – apesar de sua extraordinária
dimensão – uma ferramenta que, como todas as ferramentas construídas desde os
primórdios da Humanidade – pode ter bom ou mau uso.
Tanto que a cada dia mais se noticia a
absurda manipulação das consciências, via manuseio de algoritmos, praticada
pelas big techs – tanto no sentido mercadológico como político, expressão da
sociedade de classes sob domínio do capital financeiro.
Foi assim com o tacape, a flecha, a pólvora,
a energia atômica e com tudo mais que se possa contabilizar aqui como
descobertas ou invenções marcantes.
Também não cabe “culpar” a internet pelo
baixo índice relativo de leitura de livros entre as novas gerações.
Biblioteca que não esteja informatizada,
hoje, leva uma enorme desvantagem. Assim como internauta que não se sinta
estimulado a ler livros é porque naturalmente já não tinha essa predisposição.
É próprio do ser humano abstrair a realidade,
seja para melhor compreendê-la, seja para dela fugir (em certos casos). O livro
sempre foi e será instrumento dessa abstração.
Do mesmo modo, quando o interesse do
internauta é o conhecimento mais circunstanciado sobre algum tema, na internet
ele encontra artigos, teses, estudos vários e até livros em pdf que logo
tratará de “baixar” e imprimir para a leitura atenta e a consulta.
Não sou nenhum fanático da web, dela faço uso
por dever de ofício e por prazer – moderadamente, de acordo com a necessidade.
Agora mesmo não teria a menor chance de me
comunicar com vocês, meus talvez poucos e generosos leitores, se não existisse
esse fantástico canal de expressão que tanto bem nos faz.
E na ação política cotidiana – com todo
respeito ao finado Machado de Assis -, ai dos militantes do campo popular se
não pudessem dialogar através das redes e do hoje um tanto desprestigiado
e-mail!
*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'
Leia: A eficiência das fake news e os seus significados políticos e culturais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/enfrentamento-das-fake-news.html
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