13 fevereiro 2025

Minha opinião

Comunicação digital entre a virtude e a culpa e a luta política*
Luciano Siqueira  
instagram.com/lucianosiqueira65

Certa vez ouvi Carlos Heitor Cony comentar uma crônica de Machado de Assis a propósito de um acidente fatal com um bonde elétrico recém-implantado no Rio de Janeiro.

Machado se queixava dos riscos do novo meio de transporte, sugerindo ser preferível o bonde puxado a cavalos, que pelo menos não ameaçava os usuários com eventuais choques elétricos.

“A Humanidade avança às cegas”, arrematava Cony, afirmando que o progresso inevitavelmente vem com virtudes e defeitos.

O grande Machado se mostrava resistente ao progresso. Cony talvez exagerasse em sua assertiva. Mas a verdade é que nada que o homem crie sob esse céu de Nosso Senhor é perfeito, cem por cento bom, zero em riscos e agravos.

Nem por isso vamos deixar de fazer bom uso do produto do progresso da ciência e da tecnologia.

Caso da internet, redes sociais em particular. Explodem revoltas no Oriente Médio: tome elogios às redes sociais, alçadas à condição de arma poderosa e decisiva na mobilização de vontades, como se base objetiva e contradições sociais e políticas reais não estivessem na raiz da insurgência.

Psicopatas invadem escolas, cinemas ou supermercados e atiram a esmo matando e ferindo dezenas de inocentes: tome maldição às redes sociais, agora acusadas de diabólicas, pois os assassinos deixam registros em seus computadores dando conta de que frequentavam comunidades malignas e que tais.

Nem uma coisa, nem outra: a internet nem é a solução para todos os nossos problemas, sequer o da comunicação entre as pessoas; nem a raiz dos males sociais que nos afligem.

É apenas – apesar de sua extraordinária dimensão – uma ferramenta que, como todas as ferramentas construídas desde os primórdios da Humanidade – pode ter bom ou mau uso.

Tanto que a cada dia mais se noticia a absurda manipulação das consciências, via manuseio de algoritmos, praticada pelas big techs – tanto no sentido mercadológico como político, expressão da sociedade de classes sob domínio do capital financeiro.

Foi assim com o tacape, a flecha, a pólvora, a energia atômica e com tudo mais que se possa contabilizar aqui como descobertas ou invenções marcantes.

Também não cabe “culpar” a internet pelo baixo índice relativo de leitura de livros entre as novas gerações.

Biblioteca que não esteja informatizada, hoje, leva uma enorme desvantagem. Assim como internauta que não se sinta estimulado a ler livros é porque naturalmente já não tinha essa predisposição.

É próprio do ser humano abstrair a realidade, seja para melhor compreendê-la, seja para dela fugir (em certos casos). O livro sempre foi e será instrumento dessa abstração.

Do mesmo modo, quando o interesse do internauta é o conhecimento mais circunstanciado sobre algum tema, na internet ele encontra artigos, teses, estudos vários e até livros em pdf que logo tratará de “baixar” e imprimir para a leitura atenta e a consulta.

Não sou nenhum fanático da web, dela faço uso por dever de ofício e por prazer – moderadamente, de acordo com a necessidade.

Agora mesmo não teria a menor chance de me comunicar com vocês, meus talvez poucos e generosos leitores, se não existisse esse fantástico canal de expressão que tanto bem nos faz.

E na ação política cotidiana – com todo respeito ao finado Machado de Assis -, ai dos militantes do campo popular se não pudessem dialogar através das redes e do hoje um tanto desprestigiado e-mail!

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

Leia: A eficiência das fake news e os seus significados políticos e culturais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/enfrentamento-das-fake-news.html 

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