Donald Trump e a hipermilitarização do
espaço
Os planos de Trump de construir um Domo de Ferro são um
divisor de águas na Nova Guerra Fria, pois levarão a rivalidade dos
EUA com Rússia e China a um nível qualitativamente mais perigoso
Andrew Korybko/A Terra é Redonda
Donald Trump assinou uma Ordem
Executiva para construir um Iron Dome para a América, que visa
defender a pátria “contra mísseis de cruzeiro balísticos, hipersônicos,
avançados e outros ataques aéreos de última geração”. Também incluirá, de forma
importante, sistemas de monitoramento e interceptação baseados no espaço.
Alguns destes terão também “capacidades não cinéticas”, provavelmente se
referindo a armas de energia direcionada (directed-energy weapons – DEWs)[1],
mas não está claro se elas serão implantadas no solo e/ou no espaço. Aqui estão
cinco conclusões dessa mudança monumental.
A retirada unilateral de G. W. Bush Jr.
do Tratado de Mísseis Antibalísticos em 2002 levou a Rússia a desenvolver
tecnologia hipersônica para evitar que os EUA se sentissem confortáveis o
suficiente com seu escudo de defesa antimísseis a ponto de um dia planejar um
primeiro ataque após pensar que poderia interceptar o segundo – em resposta –
da Rússia. Os planos do Iron Dome de Trump significam que não
há como voltar à era de restrições mútuas à defesa antimísseis, o que já era
duvidoso depois do que Bush Jr. fez, piorando assim o dilema de segurança
russo-americano.
Os EUA acabaram de acelerar a segunda
corrida espacial
A segunda Corrida Espacial já está em
andamento desde que Donald Trump criou a Força Espacial em 2019, mas sua última
Ordem Executiva a acelerou ainda mais ao obrigar a Rússia e a China a
priorizarem seus planos de defesa baseados no espaço, o que inevitavelmente
resultará na hipermilitarização do espaço. Não há como esses dois não se
adequarem por meio da implantação de seus próprios sistemas defensivos, que
também poderiam disfarçar armas ofensivas, assim como os EUA podem estar
secretamente planejando fazer usando esse pretexto defensivo.
Qualquer país que for o primeiro a se
posicionar para realizar bombardeios cinéticos contra outros, o que se refere a
lançar projéteis espaciais sobre seu oponente, obterá domínio. Essas armas são
popularmente conhecidas como “varas de Deus” e estão prestes a se tornar a
próxima superarma, pois podem ser impossíveis de interceptar e podem atacar
prontamente os oponentes devido à órbita ameaçadora acima de seus alvos ou em
proximidade suficiente deles o tempo todo. Isso os torna um divisor de águas
militar.
Os pontos anteriores provam que os
planos do Domo de Ferro de Trump são um jogo de poder sem precedentes contra a
Rússia e a China. O elemento ofensivo não oficial “varas de Deus” aumenta as
chances de que os EUA possam destruir a capacidade de resposta terrestre do
inimigo após um primeiro ataque, enquanto a defesa oficial de mísseis visa
neutralizar suas capacidades restantes (baseadas em submarinos). O efeito
combinado visa colocar seus inimigos sob chantagem nuclear, das quais
concessões podem ser conseguidas perpetuamente.
O controle de armas baseado no espaço
deve ser uma prioridade
Rússia e China trabalharão para
neutralizar o jogo de poder supracitado dos EUA e então revelarão seus próprios
sistemas para tentar colocar os EUA sob a mesma posição de chantagem nuclear.
Esta é uma dinâmica perigosa, pois um destes três pode sentir que o tempo está
se esgotando antes de serem colocados em tal posição e que eles devem,
portanto, lançar um primeiro ataque sem demora. A única maneira de reduzir este
risco é por meio de um pacto de controle de armas baseado no espaço com
mecanismos confiáveis de monitoramento e execução.
Os planos de Donald Trump de construir
um Domo de Ferro para a América são um divisor de águas na Nova Guerra Fria,
pois levarão a rivalidade dos EUA com Rússia e China a um nível
qualitativamente mais perigoso. A consequente hipermilitarização do espaço, que
ocorrerá como resultado da implantação de interceptores por Trump – que
poderiam disfarçar armas ofensivas tais como “varas de Deus” – aumenta o risco
de guerra por erro de cálculo. Um pacto de controle de armas baseado no espaço
entre eles é improvável em breve, mas é a única maneira de reduzir esse risco.
*Andrew
Korybko é mestre em Relações Internacionais
pelo Instituto Estadual de Relações Internacionais de Moscou. Autor do livro Guerras híbridas: das revoluções coloridas
aos golpes (Expressão Popular). [https://amzn.to/46lAD1d]
Tradução: Artur
Scavone.
Nota
do tradutor
[1] Durante
as Guerras da Coreia e do Vietnã, houve uso limitado da bomba Lazy Dog,
um projétil cinético com formato de bomba convencional, mas com apenas cerca de
1+3⁄4 polegadas (44 mm) de comprimento e 1⁄2 polegada (13 mm) de diâmetro. Um
pedaço de chapa metálica foi dobrado para fazer as aletas e soldado na parte
traseira do projétil. Elas foram despejadas de aeronaves sobre as tropas
inimigas e tiveram o mesmo efeito de uma metralhadora disparada verticalmente.
Mais recentemente um sistema descrito no relatório da Força Aérea dos Estados Unidos de
2003, denominado Hypervelocity Rod Bundles, era
constituído por hastes de tungstênio de 20 pés de comprimento (6,1 m) e 1 pé de
diâmetro (0,30 m), controladas por satélite e com capacidade de ataque global,
com velocidades de impacto de Mach 10. A bomba naturalmente conteria grande
energia cinética porque se move em velocidades orbitais , cerca de 8
quilômetros por segundo (26.000 pés/s ; Mach 24) em órbita e 3
quilômetros por segundo (9.800 pés/s ; Mach 8,8) no impacto. À
medida que a haste reentra na atmosfera da Terra, ela perderia a maior parte de
sua velocidade, mas a energia restante causaria danos consideráveis. Alguns
sistemas são citados como tendo o rendimento de uma pequena bomba nuclear
tática. Esses projetos são concebidos como um destruidor de bunkers. Como o
nome sugere, o ‘destruidor de bunkers’ é poderoso o suficiente para destruir um
bunker nuclear. Com 6 a 8 satélites em uma determinada órbita, um alvo pode ser
atingido em 12 a 15 minutos a partir de qualquer momento, menos da metade do
tempo gasto por um ICBM e sem o aviso de lançamento. Tal sistema também poderia
ser equipado com sensores para detectar ameaças do tipo mísseis antibalísticos
e medidas de proteção relativamente leves para usar contra elas (por exemplo,
mísseis hit-to-kill ou laser químico de classe megawatt). O tempo entre a
desorbitação e o impacto seria de apenas alguns minutos e, dependendo das
órbitas e posições nas órbitas, o sistema teria um alcance mundial. Não haveria
necessidade de implantar mísseis, aeronaves ou outros veículos. (Wikipedia).
Nenhum comentário:
Postar um comentário