14 fevereiro 2025

Uma crônica de Abraham B. Sicsú

Convivência desestruturada
Abraham B. Sicsu*  

Características dos dias atuais. Se aceita apenas os semelhantes. Discordâncias não são admitidas. Nossas mazelas, nossas deficiências e inseguranças nada têm a ver conosco, são culpas dos discordantes do outro lado. Eles trazem perturbações não desejadas.

Sujeitos que têm que ser eliminados. Não há diálogo, não há confronto de idéias, não há o mínimo de empatia, não há convivência com os que não concordam com nossas ideias. Ver o mundo sob outro prisma, um crime de lesa a pátria. Sociedade particionada.

Religião, futebol e política não se discutem, se dizia quando eu era jovem.  Agora, são armas de dominação, de exclusão, de aniquilamento. Incompreensível aceitar uma coletividade em que o diferente deve ser simplesmente expurgado, literalmente destruído. Sem refletir, ao menos, do porquê de sua visão diferente.

Racismo religioso contra religiões de matriz africana. O preconceito é patente. Para os povos de Terreiro, o racismo religioso é uma realidade. Uma pesquisa de 2022 mostra que mais de 90% daqueles que professam candomblé ou umbanda, entre outras, já sofreram descriminação ou agressão associadas a suas crenças. A quase totalidade procura esconder suas práticas religiosas por medo de violência ou descriminação.

O racismo religioso se manifesta nas palavras, no discurso de ódio, na violência física ou verbal. Pior, os terreiros são depredados e invadidos, os símbolos destruídos, a crença ridicularizada e estereotipada.

19 de janeiro passado, um ataque sem sentido. Terreiro de Xambá, em Olinda, no grande Recife. Insuflados por um pastor evangélico, um grupo de mais de 100 pessoas atrapalha o Toque de Obaluaiê com ofensas verbais e ataques aos freqüentadores daquela religião.

Fazem um culto cristão, a altos brados, em frente ao Terreiro, procurando ironizar o rito tradicional dos que crêem na religião de matriz afro. Chamam de práticas do diabo e assediam os freqüentadores para que assumam o caminho do cristianismo evangélico. O pânico se generaliza. Um horror, um desrespeito sem nenhuma razão, a não ser o racismo e a intolerância religiosa.

Usaram carro de som e faixas. Tentaram desmoralizar o Terreiro que já foi reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Que eu saiba, embora tenham sido feitas queixas formais, até o momento não houve indiciamento ou prisões dos fanáticos irresponsáveis.

Futebol é paixão nacional. Todos têm o time de coração, todos torcem com muito fervor.

Em tempos não muito distantes, as discussões eram acaloradas, sim, mas se mantinham na esfera da palavra. Uma derrota significava vários dias de provocações. O chegar de um clássico trazia, como pressuposto, muitos dias de certezas de conquistas, de táticas que seriam utilizadas, de opiniões que levariam à vitória.

Tudo era motivo de alegria, com ironia. Sempre com humor, sempre com brincadeiras, sem conseqüências desastrosas.

Sábado, primeiro de fevereiro de 2025. O jogo é Sport e Santa Cruz. O clima é bem diferente do que se poderia imaginar.  O “Clássico das Multidões” traz a barbárie, as brigas físicas generalizadas pela cidade.

As chamadas Torcidas Organizadas, prefiro chamar de vândalos, depredam o patrimônio em vários locais da região Metropolitana.

Não ao acaso. Programam-se para isso, usam a internet para se organizarem, há gravações que comprovam. Cenas de violência são vistas a profusão, a mídia eletrônica as divulga.

A situação vem de longe. Morei perto dos estádios dos dois times, do Arruda e da Ilha do Retiro. Dia de jogo não saíamos de casa. A turba vinha em grupos, sempre com paus e pedras à mão. Lembro de esses grupos serem cercados pela polícia perto de minha casa e ficarem sentados com a cabeça olhando ao chão como nos presídios. Simbólico, o perfil marginal exacerba.

O objetivo não era ver o jogo, mas sim extravasar a violência, agredir pelo puro prazer da violência. As tais Organizadas sempre foram movidas pelo ódio e marginalidade.

Parece ter piorado muito com a coordenação que a internet permite. Em diferentes locais ao mesmo tempo. Bombas, depredações, agressões inimagináveis, correria. O programado executado. Em diferentes locais da cidade. Cerca de 700 pessoas passaram por revistas e foram abordadas pelo Batalhão de Choque. Infelizmente depois dos incidentes terem acontecido.

Não parecem seres humanos, são animais selvagens ensandecidos cujo prazer é a sevícia dos semelhantes, o espezinhar do adversário.

Um vídeo é postado. Um cidadão perseguido pelos marginais. No chão é agredido, chutes e pontapés quase o desfalecem.  Despido é literalmente estuprado com um cabo de madeira.

Seres como esses podem ser considerados cidadãos, seres civilizados? A Restauração, hospital do Recife, recebe quase 15 feridos, alguns graves. Por sorte não houve mortes.

A reação das autoridades é pouco compreensível. Monitorando as redes se sabia o que ocorreria. Não foi surpresa. Proibir duas torcidas em jogos de grande porte, pouco adianta, mas nem isso foi feito.

Lembro o caso da Inglaterra onde os hooligans eram a torcida mais cruel e perversa do mundo. A solução foi dada. Prenderam todas as lideranças dos marginais. Em dia de jogos, parece que até hoje, têm que se apresentar nas Delegacias, três horas antes e só saem três horas depois. Todos passaram a ter ficha criminal, a serem monitorados. Acabou-se com as Organizadas, consegue-se ter um dos campeonatos mais competitivos, mais bem organizados, com torcidas saudáveis e participativas. Sem o absurdo da violência gratuita.

O terceiro ponto dessa desestruturação social que vimos observando é a política. A vida social precisa dela, não se pode negar sua importância para o que ocorre no dia a dia das pessoas. A vida das pessoas é fortemente direcionada pelos rumos que são tomados nela. Tem que se ter consciência. Alienar é o pior dos caminhos.

Infelizmente se está numa sociedade cada vez mais polarizada. Desde 2015, com o golpe às instituições para a derrubada da Presidente, se fracionou a sociedade, se impediu de falar ou discutir política, mesmo os fatos mais comezinhos que afetem o dia a dia do cidadão comum. Dizem que estamos numa sociedade dividida e por isso melhor não abordar o tema. As portas para a mínima interação desaparecem, não se pode ter conversa com nossos discordantes.

Os grupos se fecham em suas convicções e não há diálogo. Qualquer palavra dúbia pode levar a brigas homéricas. Melhor evitar, com isso se isolou os indivíduos, tornou-se superficial o convívio, se desestruturou a sociedade, se impediu a crítica, qualquer que seja. Mesmo as famílias se romperam, se esgarçaram , não há condição de debate, estão divididas sem possibilidade de retorno.

A polarização política no Brasil é uma realidade. Não há respeito à diversidade de opinião. Pensar diferente do que um grupo acredita considerado errado por origem, não pode ser tolerado.

Um fato singelo, mas emblemático. Um jantar em São Paulo. Família e amigos divididos em dois grupos bem definidos. Um bolsonarista, outro lulista. Proibido falar de política, não se pode nem comentar. Era o ano de 2023 e tinha ido para ver a Bienal de Arte. Linda, por sinal.

Na Bienal havia um único restaurante que foi concedido, pela Prefeitura, que era do PSDB, a um Movimento dos Sem Teto do centro da capital. A certa altura comentei que tinha gostado muito da comida. Foi considerada uma provocação. Armou-se uma guerra. Acabou-se a reunião, com fúria e muita indignação. Falar qualquer coisa que possa de longe ter conotação política hoje incomoda, tem que ser pensado e repensado.

Tirar das conversas do dia a dia a política é uma afronta à cidadania, ao ser membro participante de uma comunidade. Torna menor nossa participação. Não se pode aprender nada com aqueles que não concordam conosco, uma sociedade cada vez mais medíocre por, implicitamente, ter censurado tema tão relevante para exercer a cidadania.

Tempos muito difíceis. Valores que davam sentido á vida passam a ser relegados a um plano secundário. Não porque o sejam, mas porque a evolução recente os tornou.

Uma sociedade que se diz laica, mas não permite a escolha de credo, uma nação que ama o esporte, mas faz com que se torne instrumento de ódio e depredação, um país que precisa de instituições fortalecidas para avançar e desacredita qualquer debate sobre seus rumos políticos.

A cidadania ameaçada. Os três aspectos aqui tratados não estão dissociados. Não são assuntos estanques que podem ser vistos isoladamente. Fazem parte de uma sociedade que procura segregar os indivíduos com o objetivo de aliená-los, de não permitir a busca coletiva de caminhos para uma vida mais saudável e mais fraterna.

Expressões de um país dividido e praticamente irreconciliável. País em que se atrofia a construção do novo coletivo, o respeito a individualidade e o prazer da espontaneidade dos debates que dão sentido ao rumo dos indivíduos e de suas vidas.

É tempo de repensar estes caminhos, criar condições para um país mais humano e solidário, principalmente na discórdia.

*Professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco
 Leia: "Sentimento do mundo", um poema de Carlos Drummond de Andrade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/palavra-de-poeta-carlos-drummond-de.html

2 comentários:

Anônimo disse...

Meu querido Abra! Parabéns pelo corajoso artigo do qual não mexo em uma vírgula sequer. Sim, a sociedade está cada vez mais atomizada e sem saber exercer um dos mais importantes construtores da democracia que é o diálogo! Saudades de um tempo em que José Guilherme Merquior, liberal, e um Leandro Konder , marxista, praticavam o diálogo como adversários e não inimigos. Precisamos de mais artigos como este seu! Bravo!

Anônimo disse...

Fiz um comentário, mas não lembro se me identifiquei. Nele citei Merquior e Konder. Bem, aqui é Virgínia Leal.