Convivência desestruturada
Abraham B. Sicsu*
Características dos dias atuais. Se aceita apenas os semelhantes. Discordâncias não são admitidas. Nossas mazelas, nossas deficiências e inseguranças nada têm a ver conosco, são culpas dos discordantes do outro lado. Eles trazem perturbações não desejadas.
Sujeitos que têm que ser eliminados. Não
há diálogo, não há confronto de idéias, não há o mínimo de empatia, não há
convivência com os que não concordam com nossas ideias. Ver o mundo sob outro
prisma, um crime de lesa a pátria. Sociedade particionada.
Religião, futebol e política não se
discutem, se dizia quando eu era jovem.
Agora, são armas de dominação, de exclusão, de aniquilamento.
Incompreensível aceitar uma coletividade em que o diferente deve ser simplesmente
expurgado, literalmente destruído. Sem refletir, ao menos, do porquê de sua
visão diferente.
Racismo religioso contra religiões de
matriz africana. O preconceito é patente. Para os povos de Terreiro, o racismo religioso é uma realidade. Uma
pesquisa de 2022 mostra que mais de 90% daqueles que professam candomblé ou
umbanda, entre outras, já sofreram descriminação ou agressão associadas a suas
crenças. A quase totalidade procura esconder suas práticas religiosas por medo
de violência ou descriminação.
O racismo religioso se manifesta nas palavras,
no discurso de ódio, na violência física ou verbal. Pior, os terreiros são
depredados e invadidos, os símbolos destruídos, a crença ridicularizada e
estereotipada.
19 de janeiro passado, um ataque sem
sentido. Terreiro de Xambá, em Olinda, no grande Recife. Insuflados por um
pastor evangélico, um grupo de mais de 100 pessoas atrapalha o Toque de
Obaluaiê com ofensas verbais e ataques aos freqüentadores daquela religião.
Fazem um culto cristão, a altos brados,
em frente ao Terreiro, procurando ironizar o rito tradicional dos que crêem na
religião de matriz afro. Chamam de práticas do diabo e assediam os
freqüentadores para que assumam o caminho do cristianismo evangélico. O pânico
se generaliza. Um horror, um desrespeito sem nenhuma razão, a não ser o racismo
e a intolerância religiosa.
Usaram carro de som e faixas. Tentaram
desmoralizar o Terreiro que já foi reconhecido como Patrimônio Vivo de
Pernambuco. Que eu saiba, embora tenham sido feitas queixas formais, até o
momento não houve indiciamento ou prisões dos fanáticos irresponsáveis.
Futebol é paixão nacional. Todos têm o
time de coração, todos torcem com muito fervor.
Em tempos não muito distantes, as
discussões eram acaloradas, sim, mas se mantinham na esfera da palavra. Uma
derrota significava vários dias de provocações. O chegar de um clássico trazia,
como pressuposto, muitos dias de certezas de conquistas, de táticas que seriam
utilizadas, de opiniões que levariam à vitória.
Tudo era motivo de alegria, com ironia.
Sempre com humor, sempre com brincadeiras, sem conseqüências desastrosas.
Sábado, primeiro de fevereiro de 2025. O
jogo é Sport e Santa Cruz. O clima é bem diferente do que se poderia
imaginar. O “Clássico das Multidões”
traz a barbárie, as brigas físicas generalizadas pela cidade.
As chamadas Torcidas Organizadas, prefiro
chamar de vândalos, depredam o patrimônio em vários locais da região
Metropolitana.
Não ao acaso. Programam-se para isso,
usam a internet para se organizarem, há gravações que comprovam. Cenas de
violência são vistas a profusão, a mídia eletrônica as divulga.
A situação vem de longe. Morei perto dos
estádios dos dois times, do Arruda e da Ilha do Retiro. Dia de jogo não saíamos
de casa. A turba vinha em grupos, sempre com paus e pedras à mão. Lembro de
esses grupos serem cercados pela polícia perto de minha casa e ficarem sentados
com a cabeça olhando ao chão como nos presídios. Simbólico, o perfil marginal
exacerba.
O objetivo não era ver o jogo, mas sim
extravasar a violência, agredir pelo puro prazer da violência. As tais
Organizadas sempre foram movidas pelo ódio e marginalidade.
Parece ter piorado muito com a
coordenação que a internet permite. Em diferentes locais ao mesmo tempo.
Bombas, depredações, agressões inimagináveis, correria. O programado executado.
Em diferentes locais da cidade. Cerca de 700 pessoas passaram por revistas e
foram abordadas pelo Batalhão de Choque. Infelizmente depois dos incidentes
terem acontecido.
Não parecem seres humanos, são animais
selvagens ensandecidos cujo prazer é a sevícia dos semelhantes, o espezinhar do
adversário.
Um vídeo é postado. Um cidadão perseguido
pelos marginais. No chão é agredido, chutes e pontapés quase o desfalecem. Despido é literalmente estuprado com um cabo
de madeira.
Seres como esses podem ser considerados
cidadãos, seres civilizados? A Restauração, hospital do Recife, recebe quase 15
feridos, alguns graves. Por sorte não houve mortes.
A reação das autoridades é pouco
compreensível. Monitorando as redes se sabia o que ocorreria. Não foi surpresa.
Proibir duas torcidas em jogos de grande porte, pouco adianta, mas nem isso foi
feito.
Lembro o caso da Inglaterra onde os
hooligans eram a torcida mais cruel e perversa do mundo. A solução foi dada.
Prenderam todas as lideranças dos marginais. Em dia de jogos, parece que até
hoje, têm que se apresentar nas Delegacias, três horas antes e só saem três
horas depois. Todos passaram a ter ficha criminal, a serem monitorados.
Acabou-se com as Organizadas, consegue-se ter um dos campeonatos mais
competitivos, mais bem organizados, com torcidas saudáveis e participativas.
Sem o absurdo da violência gratuita.
O terceiro ponto dessa desestruturação
social que vimos observando é a política. A vida social precisa dela, não se
pode negar sua importância para o que ocorre no dia a dia das pessoas. A vida
das pessoas é fortemente direcionada pelos rumos que são tomados nela. Tem que
se ter consciência. Alienar é o pior dos caminhos.
Infelizmente se está numa sociedade cada
vez mais polarizada. Desde 2015, com o golpe às instituições para a derrubada
da Presidente, se fracionou a sociedade, se impediu de falar ou discutir
política, mesmo os fatos mais comezinhos que afetem o dia a dia do cidadão
comum. Dizem que estamos numa sociedade dividida e por isso melhor não abordar
o tema. As portas para a mínima interação desaparecem, não se pode ter conversa
com nossos discordantes.
Os grupos se fecham em suas convicções e não há
diálogo. Qualquer palavra dúbia pode levar a brigas homéricas. Melhor evitar,
com isso se isolou os indivíduos, tornou-se superficial o convívio, se
desestruturou a sociedade, se impediu a crítica, qualquer que seja. Mesmo as
famílias se romperam, se esgarçaram , não há condição de debate, estão
divididas sem possibilidade de retorno.
A polarização política no Brasil é
uma realidade. Não há respeito à diversidade de opinião. Pensar diferente do
que um grupo acredita considerado errado por origem, não pode ser tolerado.
Um fato singelo, mas emblemático.
Um jantar em São Paulo. Família e amigos divididos em dois grupos bem
definidos. Um bolsonarista, outro lulista. Proibido falar de política, não se
pode nem comentar. Era o ano de 2023 e tinha ido para ver a Bienal de Arte.
Linda, por sinal.
Na Bienal havia um único
restaurante que foi concedido, pela Prefeitura, que era do PSDB, a um Movimento
dos Sem Teto do centro da capital. A certa altura comentei que tinha gostado
muito da comida. Foi considerada uma provocação. Armou-se uma guerra. Acabou-se
a reunião, com fúria e muita indignação. Falar qualquer coisa que possa de
longe ter conotação política hoje incomoda, tem que ser pensado e repensado.
Tirar das conversas do dia a dia a
política é uma afronta à cidadania, ao ser membro participante de uma
comunidade. Torna menor nossa participação. Não se pode aprender nada com
aqueles que não concordam conosco, uma sociedade cada vez mais medíocre por,
implicitamente, ter censurado tema tão relevante para exercer a cidadania.
Tempos muito difíceis. Valores que
davam sentido á vida passam a ser relegados a um plano secundário. Não porque o
sejam, mas porque a evolução recente os tornou.
Uma sociedade que se diz laica, mas
não permite a escolha de credo, uma nação que ama o esporte, mas faz com que se
torne instrumento de ódio e depredação, um país que precisa de instituições
fortalecidas para avançar e desacredita qualquer debate sobre seus rumos
políticos.
A cidadania ameaçada. Os três
aspectos aqui tratados não estão dissociados. Não são assuntos estanques que
podem ser vistos isoladamente. Fazem parte de uma sociedade que procura
segregar os indivíduos com o objetivo de aliená-los, de não permitir a busca
coletiva de caminhos para uma vida mais saudável e mais fraterna.
Expressões de um país dividido e
praticamente irreconciliável. País em que se atrofia a construção do novo
coletivo, o respeito a individualidade e o prazer da espontaneidade dos debates
que dão sentido ao rumo dos indivíduos e de suas vidas.
É tempo de repensar estes caminhos,
criar condições para um país mais humano e solidário, principalmente na
discórdia.
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2 comentários:
Meu querido Abra! Parabéns pelo corajoso artigo do qual não mexo em uma vírgula sequer. Sim, a sociedade está cada vez mais atomizada e sem saber exercer um dos mais importantes construtores da democracia que é o diálogo! Saudades de um tempo em que José Guilherme Merquior, liberal, e um Leandro Konder , marxista, praticavam o diálogo como adversários e não inimigos. Precisamos de mais artigos como este seu! Bravo!
Fiz um comentário, mas não lembro se me identifiquei. Nele citei Merquior e Konder. Bem, aqui é Virgínia Leal.
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