A maravilhosa inteligência das crianças
A verdade é que, tem
horas, quando em conversa com elas, que sinto, surpreso e assustado, os papéis
se inverterem
Urariano Mota/Vermelho
No Face, o amigo Arcírio Gouvêa Neto, jornalista e pesquisador de música
popular brasileira, postou:
“Largo da Carioca, centro do Rio, caminhando ao meu lado, uma mulher e
uma menina; não tem jeito, mesmo sem querer, escuto a conversa: falam de um
caso ocorrido no lugar onde moram e a menina sai-se com essa: ‘Com meus 8 anos
de vida já vi muita coisa, mas igual a isso ainda não’. 8 anos de vida, uma
eternidade. A mulher, talvez tia, olha pra mim e ri, rimos muito. Elas dobram
em direção ao Convento de Santo Antônio e eu sigo em frente.
À noite, vou à casa de uma das filhas. Lá pelas tantas, numa conversa
animada com meu neto de 4 anos, falamos sobre um de seus primos de 6 anos e ele
sai-se com essa: ‘O vovô, ele não entende esse assunto porque ele ainda não
evoluiu’. Se eu não estivesse sentado, cairia pra trás. Dois mísseis desses
lançados em nossa direção nos pegam de surpresa e nos derrubam. Fico pasmo em
ver a roda de conversa de minha neta de 10 anos com suas amigas. Os ricos
diálogos e a astúcia das tiradas me encantam, como um profissional da
comunicação. Pergunto-me: ‘De onde vem tudo isso?’
Não sou nenhum entendido no assunto, mas o conhecimento cognitivo de uma
criança hoje em dia ultrapassa em muito o nosso, quando tínhamos a mesma idade.
Equivale a de um adolescente de 30, 40 anos atrás. Vivem um novo ciclo na
humanidade, porque a humanidade evolui em ciclos. Essas crianças captam uma
nova vibração cósmica e mesmo quântica, a qual nós não percebemos.
Estão antenadas, têm o mundo em suas mãos através dos celulares, tablets
e computadores e memorizam centenas de informações por dia, o que vai
enriquecendo seu conhecimento cognitivo. Muitos podem dizer: ‘Ah…são frases
jogadas ao acaso’. Não são não, sabem o que dizem e minha experiência de
jornalista, acostumado a sempre ver o interior das pessoas em uma entrevista
para tentar tirar o que elas estão me escondendo, me faz dizer que nada é por
acaso.
A verdade é que, tem horas, quando em conversa com elas, que sinto,
surpreso e assustado, os papéis se inverterem: elas são os adultos e eu a
criança. Logo me vem à mente o poema de Giuseppe Ghiaroni, musicado por Erasmo
Carlos: ‘Antigamente, quando eu me excedia/ou fazia alguma coisa errada….’ “.
E depois deste ótimo post, vieram comentários:
“Você tem toda razão! Eu percebo nas conversas dos meus netos uma
maturidade tanto nas palavras como no teor do assunto, que eu não via nos meus
filhos.
E são rápidos nas respostas.
Outro dia, estávamos eu, meu filho e minha neta de 5 anos. Ela reclamou
que o pai não largava o celular, no que ele respondeu que ela também não
largava as telas. Prontamente ela disse: bem que me falam que eu puxei meu pai!
Rsrsrs…”
“Minha netinha, com 3 anos e meio, sempre que vem me visitar, me
pergunta, com aquela voz de ‘pidona’: ‘– Vô, tem “pesente’?
O pai dela, meu filho, faz a crítica:
‘— Tá vendo, acostumou mal, deu nisso’.
Não dou muita importância à crítica dele, pois nunca resisti àquela
carinha de anjo, perguntando se eu tinha alguma coisa para ela, e sempre
comprava-lhe uma bonequinha, uma revistinha ou qualquer outro brinquedinho para
fazê-la feliz.
Quinta-feira passada, ela veio me visitar. Depois dos abraços e beijos,
circulou em volta da minha poltrona, como que procurando o melhor momento para
me fazer a pergunta de sempre. Finalmente, exibiu aquela carinha de ‘pidona’ e
perguntou timidamente:
‘— Vô, tem “pesente?’
Lembrando-me da crítica do meu filho, dessa vez respondi:
‘— Não, hoje o vovô não tem mais dinheiro para comprar presente. Ele
acabou’…
Ela, meio desapontada, retrucou, na inocência dos seus três aninhos e
seis meses:
‘— É, tem que trabalhar mais…’.
Não adiantou dizer que eu já estava aposentado, que já não trabalhava
mais…”
“Vejo isso nas minhas netas”.
Então eu comentei, tentando explicar tais maravilhas:
“Sabe o que é? Eles têm uma liberdade que em nossa infância não
possuíamos. Eles falam com liberdade. Nós éramos reprimidos. O que mais
ouvíamos era: ‘cala a boca, menino!’. É isso.
Os adultos chegavam ao ponto da afirmação: ‘menino não tem opinião’. E
quando a conversa esquentava, ficava boa, mandavam as crianças saírem da sala.
Ou seja, o nosso desenvolvimento reprimido se dava em silêncio”.
Agora, tento desenvolver o que comentei antes. Sobre a criança que não
falava com tamanha espirituosidade, porque era reprimida, sem liberdade, salvo
um trecho do meu romance “O filho renegado de Deus” em uma página, que reflete
um frustrado namoro na infância:
“Dona Maria observava o filho de sete anos de idade, sem que ele notasse
tão querida pesquisa. Mas ele sentia a presença da mãe quando a pretensa
namorada não vinha e, pior para ele, a namorada Selma havia seguido rumo à
Avenida Beberibe sem passar por sua porta, ou então saía como se não o visse,
de queixinho levantado, na postura animal de domínio na savana, a rainha fêmea
que não se dignava a olhar, para que o súdito compreendesse o mais alto
desprezo. Em vez de um olhar duro, que para os corações em regime de afeto
ainda é uma luz, um clarão, ela não o olhava, não o percebia, rejeitava-o, vale
dizer, e o sentimento de rejeição era mais ofensa que um olhar duro, raivoso,
porque da visão raivosa vinha ainda a dignidade de um olhar. Ela partia para
outro, para outros, para outros meninos mais bonitos, de conversa de mais juí
;zo, agradável, ou para meninos mais ricos, bem vestidos, de fino perfume como
o dela, o menino pensava. É claro, pensava sem essa desenvolta elucubração, mas
somente com a percepção de que ele era preterido, ou pior, o preterido, deixado
como entulho em sua porta, porque ela partia para a nova corte, que não lhe
faltava. Ele esticava os olhos para a menina Selma, que não o via nem o queria,
ele pensava. Então aquela vontade de chorar e de correr para o banheiro e ali
escondido chorar lhe vinha, e ele não corria logo para no seu íntimo se
esconder, porque, desgraçado como todos carentes, ainda que tão cedo na idade,
esperava que em algum momento ela voltasse. Quem sabe arrependida, quem sabe
porque a ninguém havia encontrado, logo ela, a mais bonita menina em todo o
mundo da Vila Alegria, ou quem sabe até, para maior delírio, com quem ela havia
encontrado descobriu que nin guém a amaria como aquele menino de dona Maria,
sentado à sua espera na porta da mesma casinha. Porta de quarto em forma de
casa. Mas, engano, dali onde ficava sentado ele ouvia os risos, os gritos
selvagens dos meninos lá em frente ao prédio, os latidos da horda, dos malditos
bárbaros excitados, ouvia a voz dela, que ao falar silenciava a malta
enlouquecida. Selma reinava, parecia reinar, porque os meninos só queriam mesmo
esfregar as bimbinhas na barriga da menina, nas suas coxas, ela não sabia que
os meninos não queriam Selma, queriam só a boceta de Selma, e mais perto da
forma triângulo, a suprema pretendida, enquanto fungassem o seu pescoço,
aspirando o perfume que era um sexo de luxo. Ah, canalhas, faziam o que por
direito devia ser só seu.
Então o menino se encolhia a ponto de pôr os joelhos sob o queixo,
porque ouvia a voz de Selma também excitada a sorrir, maldita, canalha ela
também, porque bastava que ela dissesse ‘afastem-se de mim, seus cachorros, a
ninguém mais eu quero que ao menino no fim do beco, ele é o meu namorado, é
dele o meu lindo rosto, são dele estes cabelos, este pescoço, estas coxas. Para
trás, mundiça!’. Mas Selma, ela própria mundiça, sorria com a mundiça, enquanto
ele, mundiça na espera, apenas era mundiça desprezada. Então ele a olhava de
longe, olhava-a de cair cílios dos olhos, como se os cílios fossem derrubados
pela força da angústia. Nesses momentos em que estava encolhido assim, a
esperar pela única pessoa a lhe interessar na Avenida Beberibe, que era longa,
só de objetos, ônibus, bicicleta, bonde e alarido de m eninos na esquina do
beco, de repente, dona Maria lhe chegava como um anjo, como se fosse uma
aparição de ternura baixada, e lhe trazia uma associação sábia do amargo ao
doce, da falta que dá o sentimento na gente e a satisfação da alma pelo mais
primário, pois ela lhe tocava nos cabelos e lhe dava um magnífico lanche de pão
com açúcar. Assim mesmo, um sanduíche de bolachão aberto com açúcar espalhado
dentro, logo ela, que o corrigia sempre quando ele reclamava do café aguado, ‘o
seu pai não é usineiro’. Sim, mas para matar a dor a mãe era dona de usina, uma
usineira próspera, e pouco lhe importava que mais tarde o café fosse mais
amargo.
— Tome, foi feitinho pra você”.
[Iustração: Candido Portinari]
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