15 julho 2026

Abraham Sicsu opina

Tecnologia: não confunda a minha cabeça
Abraham B. Sicsu  

Sou um tradicionalista em termos de tecnologia. Mudanças me perturbam. Tenho um microcomputador de mais de dez anos e me serve muito bem. Como máquina para escrever e apoio a poucas buscas na internet, mais que suficiente. Ainda assino a Microsoft e não quero mudar. Esse software eu domino.

Meu velho orientador de Mestrado, com quem tenho o privilégio de almoçar pelo menos uma vez por mês, sempre insiste nas maravilhas das plataformas abertas, na necessidade de se readequar. Para quê? Tenho tudo que quero na minha velha máquina, não acho ruim pagar quinhentos reais ao ano para manter-me na inércia de não mudar.

A onda agora são “LIVES”. Em geral virtuais. Tive que me adequar. No início era o ZOOM. Entrou o MEET e o TEAMS. Até aí tranquilo, sem muita sofisticação.

Na semana passada me chamaram para uma apresentação virtual. Entrando vi ser outra plataforma da Rede Nacional de Pesquisa. Todos os meus colegas estão usando. Uma complicação para mim. Primeiro para o compartilhamento de voz, depois para o compartilhamento de tela. Fiquei uma meia hora me adequando. Daqui a pouco terei outra e, com minha aversão às mudanças, sei que terei problemas. Nada que não possa superar.

Esses são detalhes. Há algo na essência. A onda agora é inteligência artificial. Estou trabalhando numa pesquisa sobre digitalização na indústria regional. Algumas primeiras observações fazem-se necessárias.

Nas empresas, o uso começou com o famoso ChatGPT da OpenAI. A novidade pegou e os modelos Claude da Anthropic entraram firme O Gemini da Google e o xAI do Musk também ganharam espaço.

Nos anos recentes nota-se uma mudança significativa. As empresas chinesas como a DeepSeek, Grok, Alibaba e Baidu passam a ganhar espaços muito significativos. Oferecem custos muito mais atrativos com características operacionais similares às empresas americanas.

Críticos dizem que elas foram financiadas pelo governo do grande país asiático e que deveria se tomar cuidado, pois tudo que se oferece de graça torna você o produto. Como?  Seus dados ficariam nas bases chinesas e facilmente manipuláveis.

O que não se diz é que no caso das nuvens, isso também pode acontecer com os modelos americanos ou europeus.

Anos atrás, lembro-me de assistir uma palestra sobre a WEB no seu nascedouro, de um pesquisador pernambucano, em que ele dizia que nada que se coloca nas plataformas pode se manter segredo. Tudo passa a domínio público, quando é interessante fazê-lo.

Um especialista na área de inteligência artificial, com todos os “pedigrees” acadêmicos, consultado sobre o tema, afirma que “a segurança e privacidade um modelo de IA não dependem de sua origem, mas sim da arquitetura de implantação, conformidade jurídica e controles que são adotados. Modelos chineses ou americanos podem ter diferentes fontes de investimentos, mas isso não determina o nível de proteção de dados.”

Mais adiante diz, “softwares gratuitos podem ser seguros através de código aberto, enquanto serviços pagos podem coletar dados via telemetria”

E ressalta mais, “não é possível concluir que um modelo seja inseguro, apenas por ser chinês, indiano ou outro qualquer, nem que seja seguro por ser pago ou americano. A avaliação deve ser baseada em requisitos técnicos.”

Esse debate, evidentemente, tem aspectos ideológicos envolvidos e preconceitos já estabelecidos. No entanto, bom notar, para as médias e pequenas empresas que têm muito a ganhar com o uso da inteligência artificial e não têm tantos segredos que possam as tornar vulneráveis frente à concorrência, ter mecanismos a custos reduzidos e em condições de agilizar e reorientar suas atividades, é algo muito interessante. Isso vem sendo notado em escala mundial e no regional também.

Um ser criado na era analógica, vendo essas modificações, que se tornam querelas e embates por razões meramente ideológicas fica confuso.

Como gosto dos chineses, voltarei aos ábacos que eram muito mais seguros.

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