Tecnologia:
não confunda a minha cabeça
Abraham B. Sicsu
Sou um tradicionalista em termos de tecnologia.
Mudanças me perturbam. Tenho um microcomputador de mais de dez anos e me serve
muito bem. Como máquina para escrever e apoio a poucas buscas na internet, mais
que suficiente. Ainda assino a Microsoft e não quero mudar. Esse software eu
domino.
Meu velho orientador de Mestrado, com quem tenho o
privilégio de almoçar pelo menos uma vez por mês, sempre insiste nas maravilhas
das plataformas abertas, na necessidade de se readequar. Para quê? Tenho tudo
que quero na minha velha máquina, não acho ruim pagar quinhentos reais ao ano
para manter-me na inércia de não mudar.
A onda agora são “LIVES”. Em geral virtuais. Tive que
me adequar. No início era o ZOOM. Entrou o MEET e o TEAMS. Até aí tranquilo,
sem muita sofisticação.
Na semana passada me chamaram para uma apresentação
virtual. Entrando vi ser outra plataforma da Rede Nacional de Pesquisa. Todos
os meus colegas estão usando. Uma complicação para mim. Primeiro para o
compartilhamento de voz, depois para o compartilhamento de tela. Fiquei uma
meia hora me adequando. Daqui a pouco terei outra e, com minha aversão às
mudanças, sei que terei problemas. Nada que não possa superar.
Esses são detalhes. Há algo na essência. A onda agora
é inteligência artificial. Estou trabalhando numa pesquisa sobre digitalização
na indústria regional. Algumas primeiras observações fazem-se necessárias.
Nas empresas, o uso começou com o famoso ChatGPT da
OpenAI. A novidade pegou e os modelos Claude da Anthropic entraram firme O
Gemini da Google e o xAI do Musk também ganharam espaço.
Nos anos recentes nota-se uma mudança significativa.
As empresas chinesas como a DeepSeek, Grok, Alibaba e Baidu passam a ganhar
espaços muito significativos. Oferecem custos muito mais atrativos com características
operacionais similares às empresas americanas.
Críticos dizem que elas foram financiadas pelo governo
do grande país asiático e que deveria se tomar cuidado, pois tudo que se
oferece de graça torna você o produto. Como?
Seus dados ficariam nas bases chinesas e facilmente manipuláveis.
O que não se diz é que no caso das nuvens, isso também
pode acontecer com os modelos americanos ou europeus.
Anos atrás, lembro-me de assistir uma palestra sobre a
WEB no seu nascedouro, de um pesquisador pernambucano, em que ele dizia que
nada que se coloca nas plataformas pode se manter segredo. Tudo passa a domínio
público, quando é interessante fazê-lo.
Um especialista na área de inteligência artificial,
com todos os “pedigrees” acadêmicos, consultado sobre o tema, afirma que “a
segurança e privacidade um modelo de IA não dependem de sua origem, mas sim da
arquitetura de implantação, conformidade jurídica e controles que são adotados.
Modelos chineses ou americanos podem ter diferentes fontes de investimentos,
mas isso não determina o nível de proteção de dados.”
Mais adiante diz, “softwares gratuitos podem ser
seguros através de código aberto, enquanto serviços pagos podem coletar dados
via telemetria”
E ressalta mais, “não é possível concluir que um
modelo seja inseguro, apenas por ser chinês, indiano ou outro qualquer, nem que
seja seguro por ser pago ou americano. A avaliação deve ser baseada em
requisitos técnicos.”
Esse debate, evidentemente, tem aspectos ideológicos
envolvidos e preconceitos já estabelecidos. No entanto, bom notar, para as
médias e pequenas empresas que têm muito a ganhar com o uso da inteligência
artificial e não têm tantos segredos que possam as tornar vulneráveis frente à
concorrência, ter mecanismos a custos reduzidos e em condições de agilizar e
reorientar suas atividades, é algo muito interessante. Isso vem sendo notado em
escala mundial e no regional também.
Um ser criado na era analógica, vendo essas
modificações, que se tornam querelas e embates por razões meramente ideológicas
fica confuso.
Como gosto dos chineses, voltarei aos ábacos que eram
muito mais seguros.
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Leia também: Celso Pinto de Melo: Como plataformas digitais transformam política em comportamento de enxame https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/celso-pinto-de-melo-opina_0232354324.html

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