Regaço turvo
Rosana Batista Almeida
Da boca escorre o limo, a água, a águia.
Os dedos desenham montanhas e lixos.
Os ouvidos não ouvem,
não reconhecem,
não discretizam símbolos.
Não há mais máquinas de brincar.
Esgotaram-se os métodos de construção,
de arquiteturas mudas.
Não há saber, nem código.
Na carência de tudo, esbarrei-me no caos,
no excesso do mundo.
Espaços vazios.
O que não pode ser dito.
O abstrato, o incomensurável.
A bicicleta no céu.
O fantástico.
A Realidade sutil, o ininteligível.
O sopro, o ímpar, a incongruência.
Não. Não vamos chegar.
Não, não vou chegar ao final.
Não há porta, não há janela.
Não há nada.
E quem dirá: ainda há estrelas para nos guiar?
Não se apresse, escute.
Não fale, deite-se.
Hesite, não confie.
O infinito, a curva:
o desespero de não saber.
O animal e o regaço turvo.
[Ilustração:

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