28 junho 2022

Se gritar "pega!"...

Pastor Arilton Moura, acusado de participar de esquema de favorecimento no Ministério da Educação (MEC), preso, agora ameaça "destruir todo mundo". Quem é todo mundo?

Será aceitável que 9 crimes tão graves fiquem impunes? https://youtu.be/sJ2lSvc193E

27 junho 2022

A lama se espalha

A delinquência se desnuda

O Brasil real escancara-se com Milton Ribeiro e pastores
Janio de Freitas, Folha de S. Paulo

 

O jantar era um velório antecipado e os convivas não sabiam. Foram convidados a homenagear Gilmar Mendes pelos 20 anos completados no Supremo. Nunca houve isso, nem o patrocinador do gasto público, presidente da Câmara, é dado a finezas. Quem não percebeu na ocasião ainda pode saber que Arthur Lira aproveitou a data para proporcionar na casa oficial, entre dezenas de figurantes ilustres ou longe disso, o encontro desejado por Bolsonaro com o ministro Alexandre de Moraes.

Há dúvida sobre o tempo em que conversaram o acusado e o condutor das ações penais contra Bolsonaro. Menos de 48 horas depois, o que tenha sobrado da conversa destroçava-se, ao som de diálogos a um só tempo suaves e fulminantes do casal Milton Ribeiro.

O aviso de Bolsonaro ao ex-ministro e pastor, sobre busca da Polícia Federal em sua casa, não foi só interferência contrária a uma investigação da Polícia Federal. Não foi só a violação de sigilo oficial por interesse particular e criminal. Não foi só o conhecimento de motivos para prevenir o ex-ministro.

É também um chamado ao Tribunal Superior Eleitoral para considerar a nova condição do candidato Jair Bolsonaro. No mínimo, suspendendo-lhe o registro até que o Supremo defina os rumos processuais do caso e, neles, a condição do candidato implicado. Isso independe da responsabilização de Bolsonaro como presidente.

É um sistema quadrilheiro que começa a desvendar-se. Ficam bem à vista duas estruturas que têm a Presidência da República como elo entre elas. Uma age dentro da administração pública, em torno dos cofres, e reúne pastores da corrupção religiosa, ocupantes de altos cargos e políticos federais e estaduais. A outra age do governo para fora, na exploração ilegal da Amazônia, em concessões injustificáveis, e em tanto mais. Duas estruturas independentes que se conectam na mesma fonte de incentivos, facilitações e proteção para as práticas criminais.

A investigação de todo esse dispositivo de saque é complexa. O desespero do pastor Arilton Moura emitiu uma informação de dupla utilidade, para os investigadores e para os seus camaradas de bandidagem: "eu vou destruir todo mundo", se a sua mulher for atingida de algum modo.

Logo, são muitos os implicados, incluindo esposas como possíveis encobridoras de bens ilegais. E, contrariando sua simpática discrição, mesmo Michelle Bolsonaro e suas ligações com pastores da corrupção, a começar com Milton Ribeiro por ela feito ministro.

O que se sabe do "todo mundo" está longe da dimensão sugerida pelo pastor. Uma das várias dificuldades iniciais para avançar com a investigação está na própria PF, em que se confrontam a polícia de policiais e a polícia de delinquentes (por comprometimento político ou não).

O embate público dos dois lados apenas começou, com a certeza de que o aviso dado por Bolsonaro partiu da PF contra a PF e, preso o ex-ministro, com ações a protegê-lo.

É imprevisível o que se seguirá no confronto de extrema gravidade: sem uma limpeza no quadro de chefes de inquéritos, a confiança na PF dependerá de saber, como preliminar, se a ação policial é de policiais ou de delinquentes. E não é fácil sabê-lo.

Note-se, a propósito, que eram dois os informados da então próxima prisão de Milton Ribeiro: o diretor-geral da PF, delegado Márcio Nunes de Oliveira, e o delegado Anderson Torres, ministro da Justiça que acompanhava Bolsonaro nos Estados Unidos, sem razão oficial para isso, quando o ex-ministro recebeu de lá o telefonema sobre a busca policial. Sem o esclarecimento dos seus papéis nessa transgressão, os dois bastam para comprometer a PF até como instituição.

Quando Bolsonaro procurava o ministro Alexandre de Moraes, com pedidos ou propostas, já o lado policial da PF cuidava de expor, na voz do ex-ministro, o crime de responsabilidade do presidente ilegítimo. Bolsonaro ruía com seu governo e seus pastores. O Brasil real escancarava-se outra vez, faltando-lhe mostrar, no entanto, onde o bolsonarismo militar vai encaixar, no novo cenário, o seu inimigo —a urna eletrônica, preventiva da corrupção também eleitoral.

[Veja: Será aceitável que 9 crimes tão graves fiquem impunes? https://youtu.be/sJ2lSvc193E ]

Palavra de poeta: Chico de Assis

AOS QUE LUTAM

Chico de Assis*
 
Vem de bem longe
um canto de revolta
a ecoar na praça 
dos sem-nada. 
 
A fúria substitui
a resignação nos olhos
e a luta se introduz 
nos passos da multidão. 
 
Nào se divisam ainda
os marcos do futuro
mas empoladas na pele
estão as marcas do passado.
 
Pouco se vê que prenuncie 
os louros da vitória. 
Mas a turba em movimento 
aciona a marcha da História.
 
[Ilustração: 
David Alfaro Siqueiros]

 
*Advogado, poeta
 
 Uma dica de leitura para quem gosta de cinema https://bit.ly/3qlLWRr

Tendência

Pela última pesquisa Datafolha, Governo Bolsonaro tem 47% de reprovação e 26% de aprovação. Essa diferença tende a aumentar até o pleito de outubro.

A influência do general Inflação https://bit.ly/3Oa6IAz

Prenúncio

Ricardo Kotscho, em sua coluna no UOL, especula sobre o quanto tumultuada pode vir a ser a transição entre o derrotado e ensandecido Bolsonaro e o novo presidente da República, Lula. Simples e tranquila não será.

A gente se encontra em várias trincheiras https://bit.ly/3vhYCww

Bumerangue

Entra ministro, sai ministro... e o MEC segue problemão para Bolsonaro. Tudo por responsabilidade dele próprio, em sua cruzada contra o ensino público e a ciência.

Atenção aos fatos e tendências https://bit.ly/3n47CDe

26 junho 2022

Sempre renovado

Aos 80 anos, Gilberto Gil realça a MPB com candura e firmeza
Marcos Aurélio Ruy, Vermelho www.vermelho.org.br

A personalidade e o talento de Gilberto Gil despontam em um trabalho vigoroso, que releva a herança africana em nossa cultura
Muita felicidade para o Brasil um artista da grandeza de Gilberto Gil completar 80 anos neste domingo (26). “Eu soube que a música era minha linguagem mesmo. Que a música ia me levar a conhecer o mundo, ia me levar a outras terras. Porque eu achava que tinha a música da terra e a música do céu”, diz Gil ao sintetizar a sua obra.

É o que pode se sente em toda a sua obra. Uma mescla de sons regionais da Bahia e do Nordeste com bossa nova, samba, rock, jazz, blues, reggae e muitos outros sons. Gil está no time dos autores brasileiros que forçou a crítica musical a chamar de MPB o trabalho feito por eles, criando um gênero por exclusiva falta de ter como definir essa nova música que surgiu nos festivais dos anos 1960.

A personalidade e o talento de Gilberto Gil despontam em um trabalho vigoroso, que releva a herança africana em nossa cultura a brilhar com um canto em defesa da diversidade e do respeito ao diferente, à natureza, à liberdade e à vida.

Destaque presente nas suas trilhas Refazenda (1975), Refavela (1977) e Realce (1979), nas quais entram em cena o Brasil em todas as suas nuances e a conclusão de “quanto mais purpurina melhor” para todas as pessoas brilharem sem medo.

Como o próprio artista define, “o melhor lugar do mundo é aqui e agora” e por isso ele aceitou a incumbência de realçar o Ministério da Cultura no primeiro governo do Presidente Lula, o que fez com brilhantismo por cinco anos.

Leia também: Gilberto Gil, 80 anos: 'O tempo do homem velho é diferenciado' https://bit.ly/39WOjrZ

E voltou à música, o seu lugar de sempre. Como um dos criadores do movimento tropicalista, revolucionou a música popular brasileira ao lado de outros gigantes. A sua obra transparece singular no modo de tocar o seu instrumento, na sua interpretação única e na mistura de sons ligados à poesia de maneira intrínseca, compondo um todo harmonioso.

Gil nasceu em Salvador, Bahia, em 26 de junho de 1942, e cedo sua veia musical brilhou. Assim, o mundo perdeu um mau administrador de empresas, curso no qual o artista baiano se diplomou pela Universidade da Bahia, e ganhou um músico de rara sensibilidade.

Importante celebrar essa efeméride como uma data marcante da vida cultural brasileira e, neste momento, destacar a veia poética do cantor da felicidade que em nenhum tempo sucumbirá. A música de Gilberto Gil está para o mundo como os rios que correm para o mar imanentes perante as margens que tentam aprisionar suas águas.

Porque “não tenho medo da vida, mas medo de viver, sim”, canta ele em Não Tenho Medo da Vida (2010), afinal “a vida é um dado em si, mas viver é que é o nó/Toda vez que vejo um nó, sempre me assalta o temor/Saberei como afrouxá-lo, desatá-lo eu saberei?” Os sentidos e os saberes propagados por esse gigante da cultura comprovam que sim, ele tem sabido e muito bem afastar todos os cálices de vinho tinto de sangue.

As centenas de canções compostas por ele sozinho ou em parcerias jamais sairão do imaginário popular porque cantam as transformações necessárias para a civilização avançar a um patamar superior de vida. Como o artista diz, “tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei/ Transformai as velhas formas do viver (Tempo Rei, 1984)”.

Salve Gilberto Gil em seus 80 anos “purpurinando” a cultura brasileira. Atentem ao seu recado em OK Ok Ok (2018):“Já para os que me querem mais ativo/Mais solidário com o sofrer do pobre/Espero que minha alma seja nobre/O suficiente enquanto eu estiver vivo”. Que viva ainda muitos e muitos anos par o bem de nosso cérebro, de nossos olhos e ouvidos.

Janelas abertas para o mundo https://bit.ly/3n47CDe