09 dezembro 2024

Celso Furtado e o Brasil

O mito do desenvolvimento econômico – 50 anos depois
Introdução da professora Leda Paulani para a nova edição do livro “O mito do desenvolvimento econômico”, de Celso Furtado
Portal Grabois 
www.grabois.org.br/Publicado originalmente em A terra é redonda

1.

Se há um traço distintivo na obra de Celso Furtado é a ideia de que não havia restrições objetivas para que o Brasil se tornasse um país forte, soberano, senhor de seu destino, com economia e cultura próprias e com um lugar ao sol no comando dos rumos mundiais. Mas, nele, isso nunca foi reflexo de um imaginário nacional grandioso, mas vazio, que se escorava preguiçosamente na fantasia do “país do futuro”.

Ao contrário, sua percepção embasava-se na análise que fazia do processo socioeconômico que ocorria por aqui, análise fundamentada teoricamente, colocando sempre como pano de fundo a conexão da economia brasileira com o andamento da acumulação de capital em nível mundial. Celso Furtado era um economista político. Mas, mais que isso, era um militante, que nunca deixou de lutar para que essa esperança se objetivasse e foi nessa condição que ocupou importantes cargos em vários governos. Constituiu-se, por isso, num intérprete privilegiado das venturas e desventuras desta periferia.

Mas, para falar cinquenta anos depois deste pequeno grande livro chamado O mito do desenvolvimento econômico, quero trazer à baila uma questão um tanto rarefeita e, à primeira vista, distante, tanto do tema do livro como do propósito de escrever sobre ele meio século depois. Refiro-me à questão metodológica, ou metateórica, ou epistemológica, como queiram. Para mostrar em que medida este livro pode ser entendido como um esforço singular de interpretação, é preciso considerar não só que Celso Furtado era um economista político, e que teve possibilidades concretas, como homem de Estado, de apurar ainda mais suas análises.

É preciso levar em conta também o que significava para ele o processo de produção do conhecimento, sobretudo no campo das ciências sociais. O desvio não será muito grande, não só porque o próprio livro traz também um ensaio metodológico, o que indica a importância que Furtado conferia ao tema, como porque, dado seu objeto, a reflexão mesma em torno da questão metateórica nos trará rapidamente de volta ao mito do desenvolvimento econômico.

Apesar de haver muito dessa discussão em sua tríade autobiográfica,[1] valho-me aqui, para tanto, de uma entrevista que tive o privilégio de fazer com ele em 1997, e de onde se extraiu um depoimento que foi publicado na revista Economia Aplicada,[2] então do ipe-usp.[3] Naquela tarde, passada no Rio de Janeiro, em conversa com o grande economista, que impressionava por sua figura intensa e forte, mas igualmente serena, ouvi que ele tivera três ordens de influência: a do positivismo (ele tinha uma biblioteca positivista em casa, segundo informou), que lhe permitiu adotar uma sorte de “me tafísica construtiva” que lhe trouxe confiança na ciência, a de Marx, através da sociologia do conhecimento de Karl Mannheim, que o projetou na história, e, por meio de Gilberto Freyre, a da sociologia americana, que o alertou para a importância da dimensão cultural e do relativismo que daí deriva.

Das três fontes de influência, disse que a primeira depois refutou, porque foi perdendo a confiança na ciência. O que permaneceu muito forte nele foi o “historicismo” de origem marxiana, ou seja, a percepção de que a história é o contexto que envolve tudo e que dá ao homem um marco de referência para pensar. Para ele, “quem não tem esse pensamento histórico, não vai muito longe. Isso é o que separa um pensador do economista moderno, que pretende ser um engenheiro social”. Na mesma linha, ele vai afirmar pouco mais à frente que “a economia vai se tornando uma ciência cada vez mais formal, que é exatamente a negação da ciência social”.

De toda forma, a combinação das três heranças resultou numa visão da produção do conhecimento sobre o mundo social que, além da inescapável consideração da história, associa ao necessário saber teórico e analítico também a imaginação. Para ele, a ciência se constrói, em grande parte, por aqueles que, confiantes em sua imaginação, são capazes de, empurrados pela intuição, ultrapassar determinados limites.

Para Celso Furtado, toda a teorização que se construiu, a partir da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), entre os anos 1950 e 1970, sobre a singularidade latino-americana, foi resultado dessa postura: “Acredito que o passo a mais que nós demos na América Latina foi justamente este: imaginamos que éramos capazes de identificar os nossos problemas e de elaborar uma teoria para eles, ou seja, imaginamos que havia uma realidade latino-americana, uma realidade brasileira, e então o fundamental aí tinha que ser captado dessa realidade”. O mito do desenvolvimento econômico é igualmente resultado desse espírito.

Além da imaginação, há ainda outro elemento apontado por Celso Furtado como essencial. Segundo ele, é preciso ter compromisso com alguma coisa, ou seja, se o objeto cujo conhecimento se busca é a realidade social, o diletantismo não é suficiente para que a imagem de atividade nobre que a ciência carrega tenha efetividade: “A ciência social tem que responder às questões colocadas pela sociedade […], não podemos nos eximir de compromissos mais amplos, porque há muitas áreas que não merecem atenção da ciência, e são áreas vitais”. Assim, por mais que haja consciência dos limites ao desenvolvimento do conhecimento que lhe são intrínsecos, ou seja, criados pela própria sociedade, é preciso insistir na produção de uma ciência social pura, que não seja refém de interesses e clientelas específicos. Mas não é fácil, ele avisa.

Para o próprio Celso Furtado, no entanto, isso nunca foi um problema. O mito do desenvolvimento econômico, escrito num momento em que se entoavam loas ao dito “milagre econômico” – seis anos de crescimento a taxas que hoje diríamos “chinesas” –, não se deixou seduzir pelo clima de euforia (construído, ademais, sob as botas dos militares).

Considerado o momento de seu nascimento, não foi pouca coisa, em meio a tanto ufanismo, adentrar a cena um livro que insistia em que, para países periféricos como o Brasil, o desenvolvimento econômico, se entendido tão somente como a possibilidade de os países mais pobres alcançarem em algum momento o padrão de vida dos países centrais, era um mito; mais ainda, um mito que se configurava como “um dos pilares da doutrina que serve de cobertura à dominação dos povos dos países periféricos”. Seu compromisso com o país obrigou-o a dizer que era melhor ir devagar com o andor, escapar de objetivos abstratos, como o puro e simples “crescimento”, e realizar a tarefa básica de identificar as necessidades fundamentais do coletivo.

2.

E com isso chegamos ao livro objeto deste prefácio, não sem antes enfatizar que ele jamais teria sido escrito se a pena que o redigiu tivesse por dono um economista convencional, que elabora seus modelos sem pudor, alheio à história e às carências de seu país, esquecendo-se, como disse Celso Furtado na citada entrevista, “que a ciência social se baseia na ideia de que o homem é, antes de tudo, um processo, não é um dado, uma coisa inerte”.

São quatro os ensaios que compõem o livro. O primeiro, o mais longo e então inédito, cuja quinta e última seção fornece o nome da obra, versa sobre as tendências estruturais do sistema capitalista na fase de predomínio das grandes empresas. A seu lado vão mais três peças: uma reflexão sobre desenvolvimento e dependência, que o próprio Furtado considera, na apresentação que faz, como o núcleo teórico dos demais, uma discussão sobre o modelo brasileiro de subdesenvolvimento e, por fim, o dito “ensaio metodológico”, no qual o autor, não por acaso, faz uma digressão sobre objetividade e ilusionismo em Economia.

O que conecta os quatro ensaios, para além de terem sido escritos entre 1972 e 1974 – período em que Celso Furtado atuou como professor visitante na American University (Estados Unidos) e na Universidade de Cambridge (Inglaterra) –, é o espírito militante do autor e sua inquebrantável disposição para analisar, alertar e apontar os descaminhos que ia tomando o desenvolvimento brasileiro, assentado em imensas desigualdades e delas dependente para ser “bem-sucedido”. Daí todo seu esforço de sustentar a análise na discussão sobre as tendências estruturais do sistema capitalista. Como pensar o desenvolvimento de um país periférico como o Brasil sem vinculá-lo ao plano internacional?

O objeto inicial de exame no ensaio que dá título ao livro é o estudo The Limits to Growth [Os Limites do crescimento], trabalho realizado por Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jorgen Randers e William W. Behrens em 1972, no Instituto de Tecnologia de Massachussetts (mit), nos Estados Unidos, para o Clube de Roma.

No estudo, que ficaria bastante famoso (traduzido para 30 idiomas, vendeu mais de 30 milhões de cópias) há aquilo que Furtado vai chamar de “profecia do colapso”. A tese central é que se o desenvolvimento econômico, nos moldes em que ia se dando nos países mais avançados, fosse universalizado, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem que o sistema econômico mundial colapsaria.

Celso Furtado discorda da tese, não por divergir da questão em si, isto é, do problema causado pelo consumo exacerbado de recursos não renováveis e da deterioração ambiental que daí advém. Ao contrário, chega mesmo a dizer que “em nossa civilização, a criação de valor econômico provoca, na grande maioria dos casos, processos irreversíveis de degradação do mundo físico”, e que, portanto, é preciso reconhecer “o caráter predatório do processo de civilização, particularmente da variante desse processo engendrada pela revolução industrial”.

Sua discordância deriva do pressuposto da tese, a saber, que o desenvolvimento era um processo de tipo linear, pelo qual passariam todos os países, de modo que, em algum momento da história, todos teriam o mesmo tipo e o mesmo nível de desenvolvimento então em vigor nos países centrais. Para nosso autor, a 

a tese, totalmente equivocada, se chocava com aquela que ele considerou, na entrevista, como “a contribuição mais importante que dei à teoria econômica”, qual seja, sua teoria do subdesenvolvimento, que ele desenvolvera uma década antes. Se o subdesenvolvimento era, não uma etapa, mas um tipo específico de desenvolvimento capitalista, a tese linear estava descartada por definição, o que tornava pouco realista a profecia do colapso.

Muito marcado pelo que ia se dando no Brasil, Celso Furtado concluíra que, dada a divisão internacional do trabalho, consagrada com a consolidação do capitalismo, passaram a existir estruturas socioeconômicas em que o produto e a produtividade do trabalho crescem por mero rearranjo dos recursos disponíveis, com progresso técnico insignificante, ou, pior ainda, por meio da dilapidação de reservas de recursos naturais não reprodutíveis. Assim, o novo excedente não se conectava com o processo de formação de capital, tendendo tais economias a se especializarem na exportação de produtos primários.

Todavia, para Celso Furtado, mais do que a tendência à produção de bens primários, sobretudo agrícolas, o que estabelecia a linha demarcatória entre desenvolvimento e subdesenvolvimento era a orientação dada à utilização do excedente engendrado pelo incremento de produtividade. Nessas economias, de fraca formação de capital, o excedente, transmutado em capacidade para importar, permanecia disponível para a aquisição de bens de consumo. Assim, era pelo lado da demanda de bens de consumo que tais países se inseriam mais profundamente na civilização industrial.

A industrialização por substituição de importações, quando surge, pelas mãos de subsidiárias de empresas dos países cêntricos, acaba então por “reforçar a tendência para a reprodução de padrões de consumo de sociedades de muito mais elevado nível de renda média”, resultando daí “a síndrome de tendência à concentração de renda, tão familiar a todos os que estudam a industrialização dos países subdesenvolvidos”.

3.

A esse traço, que, no segundo ensaio do livro, Celso Furtado relaciona com aquilo que chama de “dependência cultural” (sobretudo das elites), ele associa as características tomadas pelo processo de acumulação naquele momento, a saber, o fato de serem as grandes empresas internacionais a dar-lhe o tom. Entre essas características, o domínio dos oligopólios (com os padrões de consumo se homogeneizando no plano internacional), operações em centros de decisão que escapam ao controle dos governos nacionais, e uma tendência à construção de um espaço unificado de atuação capitalista.

Nesse contexto, os países periféricos, em meio à industrialização por substituição de importações, verão um processo de agravamento de suas disparidades internas. Ao utilizarem tecnologia em geral já amortizada, as grandes empresas oligopólicas conseguiam superar o obstáculo produzido pela incipiente formação de capital, mas industrializavam a periferia perpetuando o atraso cifrado na desigualdade. Sem o dinamismo econômico do centro do sistema, caracterizado por permanente fluxo de novos produtos e elevação dos salários reais, o capitalismo periférico, em contraste, “engendra o mimetismo cultural e requer permanente concentração de renda”.

Em poucas palavras, para Celso Furtado, a evolução do sistema capitalista que ele presenciara caracterizava-se por “um processo de homogeneização e integração do centro, um distanciamento crescente entre o centro e a periferia e uma ampliação considerável do fosso que, na periferia, separa uma minoria privilegiada e as grandes massas da população”. Daí porque a profecia do colapso não tinha condições de vingar, já que o padrão de vida dos países do centro jamais se universalizaria na periferia do sistema.

O Brasil, com sua expressiva dimensão demográfica e um setor exportador altamente rentável, mostra Celso Furtado no terceiro ensaio do livro, tornara-se um caso de sucesso do processo de industrialização, mas não conseguira operar com as regras que prevalecem nas economias desenvolvidas, de modo que o sistema então criado foi espontaneamente beneficiando apenas uma minoria.

4.

Feito esse rápido inventário das principais observações e análises de Celso Furtado, o que podemos dizer de O mito do desenvolvimento econômico cinquenta anos depois? É evidente que há um contexto datado na obra, por exemplo, quando nosso autor afirma que o privilégio de emitir o dólar “constitui prova irrefutável de que esse país exerce com exclusividade a tutela do conjunto do sistema capitalista”. Cinco décadas depois, ainda que o privilégio continue a existir, e tenha sido reforçado pela política de Paul Volcker, presidente do Federal Reserve, ao final dos anos 1970, a liderança americana tem estado sob permanente controvérsia, principalmente por conta da assombrosa evolução da China.

Da mesma maneira, considerada a forma como Celso Furtado faz sua análise, fica implícito que ele considerava ao menos a industrialização, ainda que não a superação do atraso, como algo que tinha se consolidado no Brasil, o que, sabemos hoje, não é verdade, dado o evidente processo de desindustrialização precoce sofrido pelo país.

Isso posto, porém, os acertos de Celso Furtado são de espantar. Nem é preciso considerar sua preocupação com o permanente desgaste dos recursos naturais, a inevitável poluição e o uso frequente de “vantagens comparativas predatórias”, sobretudo na periferia do sistema, que atravessa todo o livro, evidência máxima da correta sintonia em que operava a economia política furtadiana.

O que parece aqui mais importante mencionar é sua correta percepção quanto às tendências unificadoras do sistema capitalista. Note-se que estávamos em 1974, ainda bem longe, portanto, da queda do muro de Berlim e de se começar a falar em globalização, e mesmo assim ele afirma que “as tendências a uma crescente unificação do sistema capitalista aparecem agora com muito maior clareza do que era o caso na metade do decênio de 1960”.

Associada a isso, também a percepção precisa de que ia se formando ao longo do globo uma espécie de grande e única reserva de mão de obra à disposição do capital internacional, haja vista a facilidade com que as grandes empresas podiam evitar aumentos de salário, principalmente na periferia, deslocando os investimentos para áreas com condições mais favoráveis.

Contudo, o que é de fato mais assombroso é o acerto de seus prognósticos, feitos há cinquenta anos, quanto ao destino da modernização em curso no Brasil. Desde então até hoje, com um e outro alívio trazido por políticas sociais de alto impacto implantadas por governos populares, o atraso só fez transbordar. Esse esforço singular de interpretação não teria sido possível sem a compreensão que tinha Celso Furtado da verdadeira constituição do processo de produção de conhecimento do social, aliando à teoria e à percepção do caráter histórico dos fenômenos sob análise também a imaginação e o compromisso com a coletividade.

Na já citada entrevista, diz Celso Furtado: “Minha vida foi simultaneamente um êxito e uma frustração: um êxito pelo fato de que eu acreditei na industrialização, na modernização do Brasil, e isso se realizou; e uma frustração porque eu talvez não tenha percebido com suficiente clareza as resistências que existiam à consolidação mais firme desse processo, ou seja, que, a despeito da industrialização, o atraso social ia se acumulando”.

Não é preciso dizer mais, penso, sobre a importância de se voltar a ler hoje O mito do desenvolvimento econômico, reeditado em boa hora.

Referência

Celso Furtado. O mito do desenvolvimento econômico. São Paulo, Ubu Editora, 2024, 160 pp. [https://amzn.to/3Zdg2Ky]

Notas


[1] Cf. Celso Furtado, Obra autobiográfica (3 vols.). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

[2] Id., “A longa busca da utopia”, Economia Aplicada, v. 1, n. 3, 1997, p. 545-63.

 [3] Antes vinculada ao Instituto de Pesquisas Econômicas da fea-usp (ipe-usp), responsável pela pós-graduação em Economia da Universidade de São Paulo (campus Butantã), a Economia Aplicada passou, alguns anos depois, para a gestão da fea-usp de Ribeirão Preto.

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Leda Maria Paulani é professora titular sênior da FEA-USP. Autora, entre outros livros, de Modernidade e discurso econômico (Boitempo) [https://amzn.to/3x7mw3t]

Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

Leia: "Mergulhar fundo para avançar na superfície" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html

Minha opinião

Renitente fixação
Luciano Siqueira 

Ocorreu algumas vezes, ele sempre na mesma esquina: 

— Boa tarde, é o senhor que tem três filhos com nomes de astronautas? 

— Não, jamais botaria nome de astronauta em filho meu. Além disso, tenho apenas duas filhas mulheres. 

Dias após: 

— Tudo bem? 

— Tudo como é possível...

— Como estão seus três filhos?

— Não tenho filhos, tenho duas filhas.

— Ah, desculpe. Eu lhe confundi com um morador aqui da rua que tem três filhos homens com nome de Beatles. 

Meio estranho, mas apenas segui em frente. Deve ser uma fixação na ideia de que alguém batizou filhos com o nome de gente famosa. Pois no último sábado, na mesma esquina:

— Bom dia! É verdade que o senhor tem três filhos com os nomes verdadeiros do trio atacante do Náutico no hexa campeonato, Nino, Bita e Lala?

Claro que era o mesmo cidadão e que eu já não tinha mais nenhuma paciência: 

— O senhor está muito mal informado. Eu tenho mesmo 11 filhos todos batizados com os nomes dos titulares da seleção brasileira campeã mundial em 1958! Alguma dúvida!?

Segui adiante e ainda ouvi, à distância, a expressão de espanto do dito cujo: 

— Danou-se! O time todo... assim também é demais!

Leia: "Entre a prisão e a fuga" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/minha-opiniao_22.html 

Humor de resistência: Gilmar

 

Gilmar

Leia: Cida Pedrosa - quando as mulheres são ameaçadas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/cida-pedrosa-opina.html 

A palavra do PCdoB

PCdoB defende maior unidade para êxito do governo Lula e anuncia 16º Congresso
Em resolução publicada neste domingo (8), partido elenca principais desafios dos próximos dois anos e destaca importância da Frente Ampla para a vitória em 2026
Priscila Lobregatte/Vermelho     

O Comitê Central do PCdoB emitiu resolução neste domingo (8) na qual destaca que as tarefas das forças políticas comprometidas com o Brasil e a classe trabalhadora, entre elas PCdoB, devem se concentrar em atuar para que o governo Lula, “proporcione conquistas ainda maiores e apresente uma perspectiva de prosperidade ao povo e ao país”. A resolução também anuncia a realização de 16º Congresso do PCdoB, de 16 a 19 de outubro de 2025, em Brasília.

Ao falar sobre a conjuntura política, o documento diz que “o período que segue, até 2026, continuará sob o contexto de aguda luta política e ideológica, da qual as eleições municipais de outubro foram um capítulo destacado”. 

O Comitê Central completa dizendo que “as forças que compõem a frente ampla, determinantes para a derrota da extrema-direita, são chamadas a atuar com maior unidade e protagonismo para o êxito do governo nesta etapa decisiva, tarefa fundamental para a reconstrução do país e criação das condições para um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento”. 

A resolução também comunica a realização de 16º Congresso, de 16 a 19 de outubro de 2025, em Brasília. “Momento maior de sua democracia interna, seu coletivo militante, em diálogo com os aliados, com círculos que apoiam os comunistas, debaterá, elaborará e disseminará ideias acerca das grandes questões da realidade brasileira, sob o prisma da síntese de seu Programa: fortalecer o Brasil e lutar pelo socialismo. Questões que se concentram na construção de uma nova vitória da frente ampla democrática liderada pelo presidente Lula em 2026”. 

Leia a íntegra do documento:

Fortalecer a Frente Ampla, repelir a pressão dos banqueiros, rumo à vitória em 2026

Elevar a luta ideológica democrática, lutar por mais direitos e por mais desenvolvimento 

Transcorrida a metade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, com base no exame multilateral de suas realizações e vitórias, insuficiências e desafios, em sua grande missão de reconstruir o país, as tarefas das forças políticas comprometidas com o Brasil e a classe trabalhadora, entre elas o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), se concentram em atuar para que o governo, no próximo biênio, proporcione conquistas ainda maiores e apresente uma perspectiva de prosperidade ao povo e ao país. 

O período que segue, até 2026, continuará sob o contexto de aguda luta política e ideológica, da qual as eleições municipais de outubro foram um capítulo destacado. As forças que compõem a frente ampla, determinantes para a derrota da extrema-direita, são chamadas a atuar com maior unidade e protagonismo para o êxito do governo nesta etapa decisiva, tarefa fundamental para a reconstrução do país e criação das condições para um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento.  

Lutar pela paz e por um mundo multipolar

O Brasil é hoje um polo de resistência à onda reacionária, acompanhada pelas forças democráticas do mundo. As margens de atuação do Brasil no sistema internacional se tornaram mais difíceis nesse período. Atravessa-se um cenário mundial instável, resultante de múltiplas crises do capitalismo e de tensões e guerras derivadas do programa do imperialismo estadunidense e de aliados para tentar conter o declínio relativo de sua hegemonia, que se dá frente à emergente multipolaridade e ascensão da República Popular da China, com novos blocos de poder, entre eles o Brics. A guerra entre Ucrânia e Rússia, maquinada pelos Estados Unidos e pela OTAN, as ações bélicas contra o Líbano e a Síria, o genocídio do povo palestino em Gaza, e, em outro plano, o criminoso bloqueio a Cuba, estampam o imperialismo como inimigo dos povos e a decadência do capitalismo. Os comunistas atuam para reforçar os processos que convergem à multilateralidade, na qual se destaca a liderança da China socialista. 

Dessa realidade conturbada emergiu e avança a força da extrema-direita na Europa e nas Américas. Esse cenário de ameaças tende a se agravar a partir de janeiro, com o início do governo extremista de Donald Trump nos Estados Unidos. Todavia, ganha força a jornada de países, fora do centro capitalista, pelo desenvolvimento autônomo, bem como articulações, movimentos e blocos, como é caso do Brics, de sentido anti-imperialista, que aceleram a transição à multipolaridade. Na América do Sul, se destaca a vitória recente da Frente Ampla à Presidência do Uruguai. 

Eleições municipais: a vitória da Centro-direita e os desafios da esquerda

A extrema-direita sofreu rachaduras, Bolsonaro teve a liderança contestada, mas o Partido Liberal (PL) foi a legenda que obteve maior número de votos, o que indica base social relevante. Todavia, Bolsonaro está emparedado pela Justiça por crimes gravíssimos contra a democracia, fato que desgasta a extrema-direita como um todo e potencializa a sua divisão. 

Os partidos de centro-direita e direita foram os vitoriosos nas eleições municipais de outubro. São legendas sem coesão nacional, divididas. Deles, o PSD, o MDB e o União Brasil têm, cada um, três ministérios no governo Lula. PP e Republicanos têm um cada. A opção de todos, na disputa presidencial em 2026, é incerta. Dependerá das tendências de vitória das candidaturas apresentadas. 

A interpretação desse resultado requer considerar que em 2016 e 2020 a centro-direita e a direita, na esteira da escalada reacionária que perdurou até 2022, conquistaram grande número de prefeituras e cadeiras nas câmaras municipais. Entraram, portanto, na disputa já de posse de uma base elevada. Além do que, dezenas de bilhões de reais em emendas do orçamento secreto foram injetados em suas bases. E a extrema-direita e seus aliados seguiram com força relevante, mesmo depois da derrota nas eleições presidenciais. 

A esquerda e a FE Brasil

Já a esquerda e a centro-esquerda em bloco – PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e REDE –, alvo de severo ataque político, no período acima assinalado, sofreu acentuada queda em número de prefeitos e vereadores. Nessas eleições, buscou recuperar parte do espaço, mas em conjunto houve o recuo de 863 prefeituras para 752. Este resultado, ainda magro, indica que a recomposição de sua força demandará um processo e capacidade de responder a insuficiências conhecidas, como os vínculos com o povo e a disputa nas redes sociais, e a fenômenos novos de natureza social, econômica e política, entre eles mudanças na organização, gestão do trabalho e impactos no perfil e subjetividade da classe trabalhadora. Outro aspecto é que não se deu uma onda eleitoral expressiva favorável ao campo da esquerda em razão das realizações do governo. 

A Federação Brasil da Esperança (FE Brasil) foi fator importante por reunir PT, PV e PCdoB, numa aliança eleitoral estável e nacional que permitiu disputar prefeituras em centenas de cidades e apresentar candidaturas em grande número de câmaras municipais. As federações mais uma vez demonstram ser importante inovação para fazer frente às cláusulas antidemocráticas crescentes do sistema partidário e eleitoral. É necessário fortalecer a FE Brasil e buscar ampliá-la, empreender esforços para que ela avance no debate político das situações desafiadoras que se apresentarão para 2026, sendo fator de unidade, direção avançada e fortalecimento da frente ampla. 

O desempenho do PCdoB

O desempenho eleitoral do PCdoB deve ser avaliado considerando o resultado limitado do campo progressista e de esquerda, a alteração do esquema eleitoral como parte da Federação e as insuficiências do próprio Partido, e os efeitos da pesada campanha anticomunista, conforme apontado desde o 15º Congresso. No cômputo geral, o resultado obtido foi insatisfatório, posto que não alcançou o conjunto dos objetivos a que se propôs. Não há reversão do quadro de perda eleitoral. 

Entretanto, se obteve êxitos, resultado de uma tática eleitoral acertada e dos primeiros frutos do movimento pelo revigoramento da legenda comunista, se ressalta a manutenção das bancadas de Salvador e Porto Alegre, a retomada dos mandatos de Belo Horizonte e de Belém, em Recife a votação ampliada à Câmara Municipal e a eleição do Vice-prefeito. Resultou, ainda, em cinco primeiros suplentes em capitais como Natal, Maceió e Campo Grande, com chance de assumir o mandato. Sublinha-se o desempenho na capital de São Paulo, pela dimensão política da cidade. O candidato do PCdoB ficou na segunda suplência, com quase 30 mil votos. São relevantes também os resultados de Campina Grande (PB) e Criciúma (SC), cidades nas quais as candidatas comunistas foram eleitas com as maiores votações. 

Além disso, se avançou em cidades grandes e médias no Sul e Sudeste, com a eleição de vereadores/vereadoras em Minas Gerais (em 5 das 8 cidades de segundo turno), em São Paulo (em seis cidades de segundo turno) e no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e Santa Catarina. Há que se destacar no Rio de Janeiro a ampliação de mais um mandato de deputada federal e mais um de deputada estadual.

Se constata centralmente que permanece a dificuldade de angariar votos onde o Partido tem pequena base social, não ocupa espaços institucionais, tem pouca atuação nas lutas em curso e nos movimentos sociais, e fragilidade nas direções e na estruturação partidária. O aspecto material, de grande e permanente limitação dos recursos financeiros, é muito relevante porque não permite investimento contínuo na expansão do Partido e compromete duramente a pré-campanha.

Defesa da democracia e punição a Bolsonaro e aos demais golpistas

A defesa da democracia e o combate ao golpismo e ao terrorismo da extrema-direita egressa dos porões da ditadura militar entrou em nova etapa com o relatório da Polícia Federal, já na Procuradoria Geral da República (PGR), que indiciou Jair Bolsonaro por ter planejado, atuado e ter pleno domínio de planos e ações golpista presentes do começo ao fim do seu governo. O inquérito também indica que Bolsonaro tinha domínio do gravíssimo plano posto em ação para assassinar o presidente da República, o vice-presidente e o então presidente do TSE. Os militares são maioria dos 37 indiciados, entre eles sete generais, um almirante e treze outros oficiais de alta patente.

Diante do robusto elenco de provas, os mandantes, financiadores e executores da escalada golpista que tudo fizeram para sepultar as liberdades e o regime democrático consagrados pela Constituição Cidadã de 1988 devem ser exemplarmente punidos, a começar por Jair Bolsonaro, pela responsabilidade de presidente da República e por ter sido líder dos crimes consumados ou arquitetados, assegurado o amplo direito de defesa.   

Defender direitos, rechaçar pressão da oligarquia financeira

A oligarquia financeira recrudesce, neste final de ano, o ataque ao governo Lula por dois flancos: pressão contínua pelo aumento da taxa básica de juros (Selic) com um percentual de 14% pretendido pelo mercado financeiro para 2025 e por elevação imediata, precificada, de 0,75% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de dezembro; e por uma captura cada vez maior do Orçamento Federal como garantia de pagamento de seus fabulosos ganhos com os juros da dívida pública. 

Cada ponto da Selic, aumenta em R$ 40 bilhões os gastos da União com os títulos da dívida, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Pretendem, portanto, com o aumento da Selic, açambarcar uma fortuna extra de dezenas de bilhões de reais, à custa tanto de mais sacrifícios ao povo quanto de travas para o desenvolvimento do país em novas bases tecnológicas. 

Essa oligarquia massificou, pela grande mídia, a mentira de que o país está em crise econômica e propagandeia o mito de “crise fiscal” no Brasil. Na realidade, a economia crescerá mais de 3%; o índice de desemprego é o menor desde 2012, puxando para cima a massa salarial; a arrecadação de impostos bateu recorde em outubro; as reservas internacionais somam mais de US$ 370 bilhões; e a taxa de investimento – Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – do país aumentou, passando de 16,6% no segundo trimestre deste ano para 17,6% no terceiro trimestre, mas ainda inferior ao patamar de 20% (2010-2014).  

Sob essa atmosfera de chantagens, o governo Lula enviou ao Congresso o pacote de corte de gastos de R$ 71,9 bilhões que, negativamente, propõe reduzir investimentos em direitos trabalhistas e sociais, tais como correção do salário-mínimo, abono salarial, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Fundeb. E, positivamente, propõe cortes em salários acima do teto constitucional no âmbito dos três poderes, na aposentadoria dos militares e em subsídios, desonerações e benefícios fiscais. O Bolsa Família terá redução de aporte resultante de filtros de normas de controle que poderão dificultar ou restringir o acesso dos beneficiários, embora o governo assegure que não serão prejudicados aqueles que preencherem os critérios dos benefícios.  

O mercado financeiro vocifera, entretanto, que o montante dos cortes é insuficiente. Querem sangue. Ambicionam congelar o salário-mínimo, quebrar as dotações obrigatórias à Saúde e à Educação, subtrair os financiamentos à ciência e tecnologia e desvincular o salário-mínimo das aposentadorias, pensões e benefícios.  

Ao mesmo tempo, abriram guerra contra duas medidas altamente positivas em relação ao Imposto de Renda. Se movimentam para inviabilizar a proposta de isenção para quem ganha até R$ 5 mil, que poderá proporcionar um benefício significativo a trinta e seis milhões de trabalhadores/as. E refutam também a inédita e correta proposta de instituição de imposto mínimo de 10% para quem ganha acima de R$ 50 mil mensais.  

O governo pagou R$ 869 bilhões de juros nos últimos 12 meses encerrados em setembro. Para se ter uma ideia, uma redução de dois pontos percentuais na taxa de juros economizaria mais de R$ 80 bilhões das despesas financeiras. Por outro lado, o montante da despesa tributária anual soma R$ 546 bilhões. Uma redução de 10% desse total proporcionaria economia de R$ 54,6 bilhões.

O PCdoB rechaça as pressões dos banqueiros e de fundos de investimento, as maquinações que sabotam o país, elevando a cotação do dólar e desvalorizando o Real, e a chantagem por juros altos. Essas ações visam, além de extraordinários ganhos financeiros, obstruir o crescimento do país e conflitar o governo com sua base social, na tentativa de abrir espaço para a vitória da direita ultra neoliberal em 2026. 

Os comunistas se posicionam em defesa do desenvolvimento nacional e dos direitos do povo, em especial pela manutenção da regra atual de aumento real do salário-mínimo, pela conquista da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e pela taxação dos super ricos.  

Avançar na unidade dos movimentos e na mobilização do povo

A unidade dos movimentos sociais e a mobilização do povo para a luta política e ideológica em torno de uma agenda em defesa da democracia, do desenvolvimento soberano e do progresso social, são variáveis estratégicas na atualidade e âncora essencial para impulsionar o programa de reconstrução nacional para derrotar tanto o neoliberalismo quanto a extrema-direita.

Na atual conjuntura, de um lado o governo enfrenta dificuldades para construir uma base política estável no Congresso Nacional, e, de outro, a mobilização de massas, politizada e independente, passa por um período de refluxo. 

Permanece, portanto, o desafio, para as diferentes frentes de massa, de construção de uma pauta ampla e unificada, capaz de, ao mesmo tempo, ganhar corações e mentes e recuperar a capacidade de mobilização. A proposta de um plebiscito popular que defenda a taxação dos mais ricos e o fim da escala 6X1 pode ser um caminho importante. 

Na atualidade, é premente colocar no topo da agenda o combate às práticas golpistas que atentam contra o Estado de Direito Democrático, exigindo a sua punição, e a chantagem de grupos financeiros que buscam perpetuar a sangria do Orçamento com juros exorbitantes e corte de investimentos nas áreas sociais. 

A dimensão tático-estratégica de 2026

A questão central do próximo biênio, que pulsa forte desde já, é o grande e decisivo confronto de 2026 que, para além de mais uma sucessão presidencial do calendário constitucional do país trata-se de uma batalha de dimensão tático-estratégica, posto que decidirá se o país avançará na direção de seu desenvolvimento soberano, alicerçado na democracia, ou se sofrerá a recidiva do poder destrutivo e regressivo da extrema-direita e da direita, com ameaça ditatorial, traição nacional e imposição de penúria aos trabalhadores. Portanto, uma nova vitória da frente ampla liderada pelo presidente Lula se constitui no objetivo fundamental do próximo período. 

O governo Lula chega à metade de seu mandato com a realização de grandes esforços que resultaram em êxitos na missão de reconstruir o país, considerando as adversidades da correlação de forças e a destruição deixada pelo governo da extrema-direita. Mesmo acossado o tempo todo, desde a tentativa de golpe logo após a posse até a ameaça de assassinato do presidente e do vice ainda no período de transição, além de incisiva atuação da oligarquia financeira para impor sua nefasta agenda, o governo realizou intenso trabalho pela reconstrução do Estado nacional e entregou importantes conquistas econômicas e sociais. O Brasil voltou ao mundo, como pode ser visto na realização da exitosa cúpula do G20 e na agenda avançada que planeja empreender à frente da presidência dos Brics e da COP 30. E, com destaque, pela parceria estratégica selada entre Brasil e China, elevando as relações bilaterais ao patamar de Comunidade de Futuro Compartilhado. 

Mais frente ampla, mais luta ideológica, mais realizações

Adentra-se, agora, aos dois e decisivos anos finais com o desafio de superar insuficiências, romper amarras que persistem, e, com base no alicerce erguido, acelerar o crescimento econômico, com mais produção, mais postos de trabalho, melhores salários e mais direitos. Incrementar projetos estratégicos, como a Nova Indústria Brasil, acelerando a reindustrialização do país em novas base tecnológicas. 

Reconstruídas importantes políticas sociais e econômicas do governo, é preciso dar passos adiante. Melhorar a vida das pessoas. Constituir e implementar uma nova geração de políticas públicas que respondam a anseios emergentes de uma sociedade que passa por mudanças. 

O governo Lula e as forças progressistas precisam avançar, em nível superior, no front da comunicação digital e atuar com determinação na luta de ideias, posto que a extrema-direita segue hegemônica nas redes sociais. É imperativo disseminar, com uma nova qualidade, as realizações do governo, ideias e valores democráticos e progressistas, que contribuirão para alargar a base social da frente ampla, inclusive neutralizando e atraindo contingentes até aqui sob o domínio do bolsonarismo. O futuro governo de Donald Trump, integrado por Elon Musk, reforçará o papel dos monopólios da comunicação digital, a serviço da extrema-direita mundial, especialmente a plataforma X, o que reforça ainda mais a urgente necessidade de regulamentação das big tech

Do balanço do governo, do resultado das eleições municipais e da acirrada luta de classes, pode-se apontar como síntese das tarefas políticas: mais frente ampla. Atrair e firmar vínculos com a centro-direita. E que a esquerda, o setor progressista, uma vez unificado, tenha protagonismo e atue para que a frente ampla tenha uma condução política consequente, com apoio e mobilização do povo. Em outro plano, prosseguir com a diretriz de isolar e derrotar a extrema-direita e outros setores reacionários a ela associados, objetivo possível pelas condições favoráveis que emergiram. Impõe-se ainda constituir um núcleo político-estratégico para que o governo tenha mais nitidez programática e a frente ampla ganhe mais consistência e eficácia nos enfrentamentos com a oposição.

Rumo ao 16º Congresso do PCdoB

Nessas circunstâncias, o PCdoB anuncia a realização de 16º Congresso, de 16 a 19 de outubro de 2025, em Brasília. Momento maior de sua democracia interna, seu coletivo militante, em diálogo com os aliados, com círculos que apoiam os comunistas, debaterá, elaborará e disseminará ideias acerca das grandes questões da realidade brasileira, sob o prisma da síntese de seu Programa: fortalecer o Brasil e lutar pelo socialismo. Questões que se concentram na construção de uma nova vitória da frente ampla democrática liderada pelo presidente Lula em 2026.  

O 16º Congresso será uma nova etapa do movimento já em curso para revigorar a legenda comunista em suas múltiplas dimensões, a fim de intervir com mais influência no curso das lutas do país. A partir de fevereiro próximo, serão realizados encontros regionais de preparação e mobilização do Congresso. 

Tarefas para próximo período

1-Lutar pela paz, combater o imperialismo estadunidense, denunciar as guerras por ele maquinadas, empreender jornadas de solidariedade aos povos alvos de suas agressões e violências, em especial o povo palestino, vítima de genocídio em Gaza, e fortalecer o multilateralismo. 

2-Fortalecer a frente ampla, estreitar vínculos com a centro-direita, avançar na unidade da esquerda e do conjunto das forças progressistas. Suprir a ausência de um núcleo que se configure num espaço político de consulta, de interação do governo com a frente ampla. Atuar para que o governo, no próximo biênio, venha proporcionar conquistas ainda maiores ao povo e ao país. 

3-Manter, fortalecer e buscar ampliar a Federação Brasil da Esperança. E começar preparar, desde já, o projeto eleitoral do PCdoB para 2026.

4-Sem anistia. Punição exemplar a Bolsonaro e demais golpistas. Empreender articulações e ações amplas em defesa da democracia para respaldar o trâmite do processo na Procuradoria Geral da República e o julgamento que deverá acontecer no Supremo Tribunal Federal (STF), sem pressões e intimidações. Reforçar o chamado das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo para a grande mobilização nacional, no próximo dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, pela punição dos golpistas e em defesa da democracia. 

5-Defender os direitos do povo e dos trabalhadores e rechaçar a pressão da oligarquia financeira. Em relação ao pacote de corte de gastos, atuar em conjunto com outras forças progressistas e democráticas pela construção de mediações que assegurem direitos e conquistas, imponha freios e revezes à oligarquia financeira e para que o governo não sofra as derrotas que a extrema-direita e a direita, juntamente com o mercado financeiro, tramam para lhe impor. 

6-Regulamentar as chamadas big tech e intensificar a luta ideológica, o que exige elaboração de ideias sobre os elos chaves da luta política em curso à luz do Programa Socialista. Nesse sentido, valorizar e fortalecer o programa de trabalho da Fundação Maurício Grabois. Se empenhar por centros de criação de conteúdos e produtos que em tempo real respondam a demandas da “guerra digital”. Buscar articulações e ações unitárias do campo progressista na esfera da luta ideológica, notadamente nas redes, bem como prospectar a criação de uma plataforma digital que unifique e potencialize as forças democráticas e progressistas para enfrentar a guerra cultural da extrema-direita. 

7-Na linha de enfrentamento à extrema-direita, destaca-se desnudar seu vínculo com a oligarquia financeira e seu programa neoliberal de ataque aos direitos do povo e à soberania do país. Também desmascarar a pregação que empreende contra o “sistema”, vez que faz parte dele, e a falácia da defesa da liberdade, posto que pretende implantar regimes autoritários ou ditatoriais. E que também são “patriotas”, quando, na verdade, são entreguistas e serviçais do imperialismo.

8-Elevar a mobilização do povo e dos trabalhadores, avançar na unidade dos movimentos em torno da defesa da democracia e punição aos golpistas. Jornadas pela manutenção da regra atual de aumento real do salário-mínimo. Lutar pela redução da jornada de trabalho, pelo fim da escala 6×1, pela aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e pela taxação dos super ricos, por mais e melhores empregos, mais recursos à saúde, educação, moradia, transporte público. Combate ao crime, luta pela paz e segurança ao povo. Defesa dos direitos das mulheres. Fortalecer políticas de igualdade de gênero, antirracistas e contra a LGBTfobia e a “PEC do Estupro”. Reforçar os movimentos, o vínculo com os trabalhadores, criando bases sólidas, com atenç&atild e;o especial aos territórios e às periferias. Atuar pelo êxito dos congressos da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). Incentivar e fortalecer a participação dos movimentos da COP30. 

9-Realizar com êxito a etapa de preparação e mobilização do 16º Congresso do PCdoB, que começa em fevereiro com os encontros regionais e se desdobra nas comemorações dos 103 anos de fundação do Partido, em março, mês no qual se realizará mais uma edição da campanha de filiação ao Partido, em especial de jovens. Empenho para garantir a participação de quadros e lideranças no curso do nível III da Escola Nacional de Formação de João Amazonas que se realizará de 21 a 25 de janeiro.

Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

Brasília, 8 de dezembro de 2024

Leia: O mundo cabe numa organização de base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html 

Ameaças na economia global

O mundo aguardando a mãe de todas as bolhas
A economia dos EUA responde por 27% da economia global, muito longe dos 70% de participação nos índices de ações.
Luis Nassif/Jornal GGN   

2025 poderá ser o ano mais desafiador em uma década que já contou com uma pandemia mundial.

No caso do Brasil, a aguardada elevação da Selic aumentará exponencialmente o número de empresas em recuperação judicial e de consumidores inadimplentes. Prosseguirá o terrorismo fiscal, brandido por agentes de mercado e pela mídia. 

Em cima de uma situação interna vulnerável, há cumulus-nimbus se formando no horizonte da economia ocidental, conforme alerta de Ruchir Sharma, um renomado estrategista global e analista econômico, atualmente presidente da Rockefeller International e fundador da Breakout Capital, em artigo publicado no Finacial Times.

Há consenso de que, com Donald Trump, os EUA aumentarão seu papel de aspirador de dólares. De um lado, porque as tarifas de importação pressionarão a inflação interna levando o FED a aumentar os juros. De outro, porque as isenções fiscais a grandes grupos aumentarão mais ainda seus lucros.

Tudo isso ocorre em uma momento em que está em formação o que Sharma chama de “a mãe de todas as bolhas”. 

Diz ele que, no mundo real, a ideia de uma América superior a seus rivais, e destinada a liderar o mundo, parece uma ideia ultrapassada. Nos círculos políticos, diplomáticos e militares, fala-se de uma superpotência disfuncional, isolacionista no exterior e polarizada em casa, diz ele. Mas no mundo dos investimentos, o termo “excepcionalismo americano” está mais quente do que nunca.

Os investidores globais estão comprometendo mais capital em um único país do que jamais ocorreu na história moderna, diz ele. Criou-se uma situação em que o mercado de ações dos EUA flutua acima do mundo real. Os preços relativos são os mais altos desde que os dados começaram há mais de um século e as avaliações relativas estão no pico, desde que os dados começaram há meio século.

Hoje, os EUA respondem por quase 70% do principal índice de ações global, contra 30 por cento na década de 1980. E o dólar, por algumas medidas, é negociado a um valor mais alto do que em qualquer outro momento desde que o mundo desenvolvido abandonou as taxas de câmbio fixas há 50 anos.

O poder de ganho das principais empresas dos EUA é um dado concreto. Mas o risco de “bolha” é real.

A economia dos EUA responde por 27% da economia global, muito longe dos 70% de participação nos índices de ações. E, com a vitória de Trump, aumenta a confiança dos especuladores em novo salto no dólar e nos índices norte-americanos.

Diz ele que, viajando pela Ásia e Europa, observa-se uma onda de investimentos sendo canalizados para os Estados Unidos. Em Mumbai, consultores financeiros estão pressionando seus clientes a diversificarem fora da Índia comprando o único mercado que é ainda mais caro — a América.

No auge da bolha dos pontocom, em 2000, as ações dos EUA estavam mais valorizadas do que agora, mas o mercado dos EUA não era negociado com um prêmio tão grande em relação ao resto do mundo

O mesmo ocorre no poder de atração dos Estados Unidos na dívida global. Em 2024, os estrangeiros despejam o equivalente a uma taxa anualizada de US$ 1 trilhão, quase o dobro do fluxo para a Zona do Euro. Os EUA agora atraem mais de 70 por cento dos fluxos para o mercado global de US$ 13 trilhões para investimentos privados, que incluem ações e crédito.

No passado, diz ele, bolhas como nos anos 20 ou na era pontocom faziam com que o mercado norte-americano puxasse os demais mercados. Hoje em dia, ele suga os recursos de todos os demais mercados.

Os investidores se iludem com a ideia de que os fundamentos determinam os preços e o sentimento do mercado. Mas chega um momento, diz ele, em que o sentimento começa a determinar os fundamentos. E, aí, se tem a mãe de todas as bolhas. Só não se sabe, ainda, o que vai determinar seu estouro.

Em algum momento, a estratégia monetária e cambial do Brasil terá que incluir um novo e fundamental elemento na sua formulação.

Leia sobre a pressão rentista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/07/enfrentando-o-rentismo.html

Palavra de poeta: Cida Pedrosa

a mulher de maio
Cida Pedrosa 
creio em ti
pois vejo os anos da tua alma
— guerra e paz — 
que repousam em minhas mãos. 
não te deixastes perder nas ladeiras 
da tua infância
e nas braçadas deste mar de olinda.
como teus olhos me comovem 
mulher de maio 
acho que são vocacionados à tragédia 
e amores impossíveis. 
tua boca, encravada 
neste rosto de guerreiro, amedronta 
e atrai carícias. 
teu cabelo, amigo do vento 
e das causas invencíveis. 
ontem vi tua alma passear 
pelas ladeiras 
trajando uma calça de estrelas... 
hoje... andarilhas entre as nuvens 
tecendo a rede para o universo.


[Ilustração: Carl Holsoe]

08 dezembro 2024

Urariano Mota opina

Aniversário de Mark Twain e sua permanente atualidade
“Ele foi anti-imperialista, antirracista, anti-hipócrita nos seus romances, contos, artigos e conferências. Muitos ainda não sabem”
Urariano Mota*/Vermelho  

Nascido em 30 de novembro de 1835, Mark Twain é um gênio universal tanto pelo valor da obra literária, quanto dos artigos e pensamentos, em que seu humor e combate são insuperáveis. Numa rápida olhada, recolhemos:

“Se você não lê o jornal, você está desinformado. Se você lê o jornal, está mal informado.

Uma consciência limpa é o sinal certo de uma memória ruim.

O medo da morte decorre do medo da vida. Um homem que vive plenamente está preparado para morrer a qualquer momento.

Não fui ao funeral, mas enviei uma bela carta dizendo que aprovava.

É melhor manter a boca fechada e parecer estúpido do que abri-la e remover todas as dúvidas

A ação fala mais alto do que as palavras, mas não com tanta frequência (como as palavras falam).

O homem que não lê não tem vantagem sobre o homem que não sabe ler.

Sanidade e felicidade são uma combinação impossível.

Quando eu tinha 14 anos, meu pai era tão ignorante que dificilmente eu podia suportar o velho. Mas quando eu tinha 21 anos, fiquei atônito com o quanto o velho tinha aprendido em sete anos”.

Eu poderia escrever um artigo inteiro somente com citações do gênio; E seria  agradável para mim e mais ainda para o leitor. Mas devo acrescentar duas ou três coisas sobre Mark Twain. Ele foi anti-imperialista, antirracista, anti-hipócrita nos seus romances, contos, artigos e conferências. Muitos ainda não sabem. O autor de Tom Sawyer estava e está longe de ser um escritor para crianças e adolescentes. O livro Patriotas e Traidores: Anti-Imperialismo, Política e Crítica Social, uma seleção de artigos e ensaios de Mark Twain, acende e acorda no leitor vários movimentos e surpresas.

A introdução do livro, assinada por Maria Sílvia Betti, é bem esclarecedora. Ela nos fala que Twain foi, durante décadas, até a segunda metade do século 20, expurgado, purificado, censurado. Ou por razões de Estado, de propaganda, de política externa norte-americana, ou de negócios, o que vem tudo ao fim dar no mesmo. Recebemos e lemos todos um Mark Twain ótimo para os muitos jovens, um bom humorista de costumes para adultos, e um escritor absolutamente cego ao sangue arrancado a outros povos pelo imperialismo do governo dos Estados Unidos. Twain seria um inofensivo indivíduo de museu, espécime do século 19, com um babado charuto na boca. Segundo Maria Sílvia Betti, o biógrafo oficial e executor do testamento literário de Twain foi também um ativo personagem da execução mortal da sua memória;

“O que caracteriza a relação de Paine”, o biógrafo e testamenteiro homicida, “com o material ficcional e ensaístico de Mark Twain é seu desejo de acomodar a imagem do autor aos moldes do estereótipo que a opinião pública foi levada a fixar e que, evidentemente, deixava de lado os aspectos de sua crítica ao imperialismo norte-americano. A preocupação de Paine a esse respeito é explicitada em uma carta que ele dirige a um editor da Harper & Brothers em 1926, sugerindo que todos os esforços possíveis fossem feitos para evitar que outros ensaístas ou pesquisadores escrevessem sobre o autor, sob pena de verem a imagem do Twain ‘tradicional’, que haviam preservado, começar a perder o brilho e a transformar-se. O apelo do biógrafo à casa editora encontra respaldo num argumento poderoso dentro da lógica do mercado editorial: o fato de que, em sua avaliação, o material literário de que a Harper era proprietária sofreria, se isso acontecesse, um processo de depreciação, decorrente da agregação de aspectos que destoariam dos já estabelecidos pela fortuna crítica do escritor”.

O Twain que até então conhecíamos, ao lado do criador de Huckleberry Finn e de Tom Sawyer, era um Twain dos primeiros tempos, do contista das cidadezinhas do oeste dos Estados Unidos, da Célebre Rã Saltadora, do contador de anedotas, como na História de um Inválido. Dizia-se dele, até, que não era um pensador, mas uma força natural que sacudira o mundo pelo riso, como um primitivo, como um Adão norte-americano que tudo vira com olhos inocentes. A sua técnica narrativa, dizia-se, era essencialmente oral, e grande era a preferência pelas narrativas autobiográficas. Já se vê, pelo espólio que se impunha a Twain, o quanto se pode caluniar uma pessoa sob um manto de elogios. Ora, o Twain resgatado é infinitamente melhor e mais humano. Ele é o contista de uma obra-prima sufocada pela tradiç& atilde;o de censura, sufocada já a partir do título, “O homem que corrompeu Hadleyburg”. Esse conto, cuja recuperação do tema por Howard Fast sofreu perseguição do macarthismo, é uma história com o ardor de um açoite sobre toda hipocrisia. Nela, uma cidadezinha orgulhosa de sua absoluta honestidade, virtuosa a ponto de ser a mais incorruptível dos Estados Unidos, pois que se protege ostensivamente de toda tentação como frades reclusos …. enfim, após três gerações de homens de moral imaculada, ela chega ao fim do conto sem um só cristão íntegro.

Mark Twain foi um autor que apontou o dedo contra o imperialismo do seu país, tão atual, tão moderno, que parece apontar contra os Estados Unidos imperialista de todos os tempos, ao parodiar o cinismo das desculpas para a guerra:

“Fomos traiçoeiros, mas foi apenas para que o bem emergisse do mal aparente. É verdade que esmagamos um povo iludido e confiante; atacamos os fracos e sem amigos que confiavam em nós…. apunhalamos um aliado pelas costas e esbofeteamos o rosto de nosso hóspede; compramos uma mentira de um inimigo que nada tinha para vender; roubamos a terra e a liberdade de um amigo confiante; convidamos nossos jovens a apoiar no ombro um fuzil desacreditado e os obrigamos a fazer o trabalho que geralmente é feito por bandidos, sob a proteção de uma bandeira que os bandidos aprenderam a temer, não a seguir; corrompemos a honra americana e maculamos seu rosto perante o mundo, mas cada detalhe visava o bem….”

Esse Twain, enfim, é um Twin, é um gêmeo nosso, um irmão de humanidade. É um bravo que se volta contra a covardia de linchamento de negros, contra a perseguição a chineses na Califórnia, contra o império dos negócios que sobrevivem sobre um mar de sangue. O movimento final que temos é o de abraçar esse gêmeo, esse gênio latino, europeu, asiático, africano. E como ficou bom voltar a ler as aventuras de Tom Sawyer e de Huckleberry Finn.

*Jornalista, escritor