13 março 2026

Big Techs x soberania brasileira

O Estado que financia o Vale do Silício
Como o orçamento brasileiro financia as Big Techs – e por que isso virou questão de soberania
Celso Pinto de Melo/substack

“O dinheiro é um poder que não se vê, mas que tudo move.” (Machado de Assis, Esaú e Jacó)  

A transformação digital do Estado brasileiro costuma ser apresentada como um avanço administrativo. Mas, quando observada a partir do orçamento público e da arquitetura das contratações, ela revela um fenômeno mais profundo: o financiamento indireto das grandes plataformas tecnológicas globais.

O financiamento invisível da dependência

A discussão sobre o poder das Big Techs no Brasil costuma concentrar-se na moderação de conteúdos e na desinformação. Esse debate é necessário, mas permanece na superfície.

O núcleo material da dependência digital brasileira não está apenas na circulação de dados ou no uso de plataformas, mas na forma como o orçamento público sustenta, de maneira contínua e previsível, a acumulação dessas corporações.

Quando se observa a digitalização do Estado como “política de TIC”, o risco é tratá-la como tema técnico; quando se a observa como vetor de gasto recorrente e de arquitetura institucional, ela aparece como decisão estratégica.

O gasto anual da União com tecnologia da informação situa-se entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões. Cerca de 77% desse total está vinculado ao pagamento de licenças de software e ao uso da nuvem e de plataformas proprietárias, enquanto o desenvolvimento próprio e as soluções abertas não chegam a 10% [1]. A digitalização do Estado tem sido conduzida como uma contratação de serviços externos, não como uma política de formação de capacidades. O resultado é um padrão em que o gasto público moderniza rotinas, mas não consolida domínio tecnológico; atualiza interfaces administrativas, mas não constrói infraestrutura digital nacional.

Cada renovação de licença e cada migração para nuvens proprietárias aprofundam o aprisionamento tecnológico. Os sistemas tornam-se interoperáveis apenas em ecossistemas específicos e os dados passam a obedecer a seus padrões [2, 3]. Esse mecanismo de dependência tecnológica não se limita ao software: ele reconfigura processos de trabalho, currículos de capacitação, contratação de consultorias, certificações e até o modo de formular projetos, pois a própria imaginação administrativa passa a ser moldada pelas ferramentas disponíveis.

Fluxo permanente de valor para o capitalismo financeiro

Os pagamentos são feitos em moeda forte, os dados passam a ficar sob jurisdição externa e o valor agregado gerado por essas tecnologias é capturado fora do país. Forma-se um déficit estrutural na conta de serviços digitais. Esse fluxo remunera o núcleo do capitalismo financeiro global, dominado por grandes gestoras como BlackRockVanguard e State Street [4, 5]. O que se apresenta como “despesa operacional” torna-se, na prática, uma transferência contínua de renda para cadeias globais de propriedade e para a governança corporativa. E, à medida que o Estado migra funções críticas para a nuvem, cresce a parcela do gasto que assume caráter obrigatório – não por lei, mas por dependência operacional.

Há ainda um efeito político-administrativo sutil: a previsibilidade desse fluxo cria assimetria de poder de barganha. Uma vez que órgãos inteiros dependem de determinados ambientes e formatos, a capacidade de renegociar contratos, impor requisitos de auditoria ou migrar para alternativas torna-se limitada pelo risco de descontinuidade do serviço.

Uma escolha política, não um destino

Nos Estados Unidos, o uso de soluções privadas não gera dependência externa, pois integra um complexo industrial-digital nacional articulado ao poder de compra do Estado. Sem encomendas militares e programas federais não teriam surgido a internet, o GPS ou a computação em nuvem [6, 7]. Mais do que “ter empresas nacionais”, trata-se de condicionar a contratação a requisitos de segurança, auditoria, padronização e objetivos de longo prazo – isto é, usar as compras públicas como instrumento de poder. A União Europeia segue um caminho semelhante ao tratar soberania digital como política industrial explícita [8]. No Brasil, o poder de compra do Estado deixou de induzir a formação de capacidades produtivas e passou a reproduzir a dependência tecnológica. Não se trata de uma fatalidade técnica, mas de uma escolha institucional que se renova, ano após ano, nas decisões orçamentárias e nos modelos de contratação. Esse diagnóstico dialoga com a própria literatura recente sobre transformação digital do setor público brasileiro, que reconhece a centralidade da infraestrutura e da governança de dados como função estratégica do Estado, ainda que, na ausência de uma política tecnológica orientada à formação de capacidades, a modernização administrativa tenda a reforçar a dependência de plataformas globais [9, 10].

Ruptura histórica da capacidade de planejar

De Vargas ao II PND, o Estado organizou o desenvolvimento com base em projetos estratégicos. Essa capacidade foi interrompida nos anos 1990, quando o horizonte passou do planejamento para a gestão fiscal de curto prazo.

A dependência digital é expressão dessa ruptura: o orçamento financia a modernização administrativa, mas não a construção de um ecossistema tecnológico nacional. O paradoxo é que o Estado continua grande o suficiente para sustentar gigantes globais – mas, por desenho institucional, pequeno para sustentar a própria capacidade tecnológica. Ao abdicar de orientar a demanda pública, o país abre mão do instrumento mais direto que possui para criar mercados domésticos de software, serviços, segurança e infraestrutura digital.

Dados públicos e soberania informacional

Ao mesmo tempo, o país construiu um dos mais abrangentes sistemas públicos de bases de dados do mundo em desenvolvimento – Lattes, CadÚnico, DataSUS, Receita Federal, INSS, e-Social, nota fiscal eletrônica, cadastro biométrico eleitoral e identidade digital Gov.br. Trata-se de uma infraestrutura informacional de alta capilaridade social e econômica, comparável à de países centrais em termos de cobertura estatal [8, 11]. Esses repositórios não são apenas “dados”: são a memória operacional do Estado – a base para políticas públicas, fiscalização, proteção social, pesquisa e resposta a emergências.

Paradoxalmente, parte relevante de seu armazenamento e processamento passa a ocorrer em plataformas submetidas a jurisdições externas. Não é apenas um problema de privacidade, mas de soberania informacional: metadados, padrões de uso e ambientes de treinamento de IA tornam-se ativos econômicos externamente apropriados. Em um cenário de disputa tecnológica e geopolítica, a questão decisiva não é apenas “quem acessa o conteúdo”, mas quem controla a infraestrutura, os logs, os padrões de interoperabilidade e os ambientes de processamento que tornam o Estado funcional.

Isso amplia as vulnerabilidades jurídicas, econômicas, tecnológicas e de segurança. Somam-se a elas a ausência de política de localização de dados sensíveis, a baixa adoção de padrões abertos, a escassez de infraestrutura pública de alto desempenho e a fragmentação da governança de dados. A isso se acrescenta a vulnerabilidade de continuidade: alterações unilaterais de preços, dos termos de serviço, da arquitetura dos produtos ou dos planos de evolução das plataformas podem acarretar ao Estado custos adicionais e migrações não planejadas – uma forma de “austeridade tecnológica” determinada externamente.

Tratar essa agenda apenas como modernização administrativa é insuficiente. Ela envolve, ao mesmo tempo, política industrial, segurança informacional e soberania estatal. A própria agenda contemporânea de digitalização do Estado, frequentemente apresentada em termos de eficiência e prestação de serviços, só se converte em estratégia de desenvolvimento quando articulada ao poder de compra público, à formação de fornecedores nacionais e a objetivos tecnológicos de longo prazo – caso contrário, permanece como vetor de expansão de mercados para plataformas externas.

Infraestrutura digital como missão nacional

Retomar o planejamento exige reorganizar o gasto público em torno de objetivos estratégicos. Transformar a infraestrutura digital em missão significa alinhar o poder de compra do Estado, o desenvolvimento tecnológico e a formação de mercados. Significa também estabelecer critérios: dados sensíveis em ambientes controlados pelo Estado; serviços críticos com auditoria e portabilidade; interoperabilidade real baseada em padrões abertos; e metas explícitas para a substituição gradual de dependências.

Sem infraestrutura nacional de dados e capacidade própria de processamento, a política de inteligência artificial limitar-se-á à adoção de soluções externas. A consequência é dupla: perde-se tanto a autonomia sobre modelos e sistemas quanto a oportunidade de transformar dados públicos – um ativo raro – em capacidade tecnológica doméstica.

A democracia digital depende da propriedade e do controle das infraestruturas que sustentam a vida informacional. Enquanto o orçamento público financiar a concentração global de poder tecnológico sem gerar capacidade interna, a soberania permanecerá incompleta. Democracia informacional, aqui, não é apenas uma regra para conteúdo: é governança da infraestrutura.

Retomar o planejamento estratégico não é nostalgia desenvolvimentista. É a condição para que o país volte a exercer algum grau de controle sobre as infraestruturas tecnológicas que moldarão sua economia, seu Estado e sua democracia nas próximas décadas.

Bibliografia

1. Cugler, E., et al., Between billion-dollar licenses and international clouds: A systematic mapping of Brazilian public sector contracts with international technology suppliers. 2025, https://doi.org/10.5902/2357797593697.

2. Srnicek, N., Platform Capitalism. 2017, Cambridge: Polity Press.

3. Varoufakis, Y., Technofeudalism: What Killed Capitalism. 2023, London: Bodley Head.

4. Fichtner, J., E. Heemskerk e J. Garcia-Bernardo, Hidden power of the Big Three? Passive index funds, re-concentration of corporate ownership, and new financial risk. Business and Politics, 2017. 19(2): p. 298–326.

5. Bebchuk, L. e S. Hirst, Big Three Power, and Why It Matters. Boston University Law Review, 2022. 102: p. 1547–1596.

6. Mazzucato, M., The Entrepreneurial State: Debunking Public vs. Private Sector Myths. 2013, London: Anthem Press.

7. Block, F. e M. Keller, State of Innovation: The U.S. Government’s Role in Technology Development. 2011, Boulder: Paradigm Publishers.

8. UNCTAD, Digital Economy Report 2021: Cross-border Data Flows and Development. 2021, United Nations: Geneva.

9. Gaetani, F. e V. Almeida, Onde entra o Brasil na nova ordem da IA? Valor Econômico, 2026: p. A11–A11.

10. Lázaro, D., R.A. Sano e S. Mantovani, A soberania de IA. Valor Econômico, 2026: p. A11–A11.

11. Comitê Gestor da Internet no Brasil, Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação no setor público brasileiro. 2023, CGI.br: São Paulo, https://www.cgi.br.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O projeto das Big Techs para substituir os Estados nacionais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/big-techs-x-estados-nacionais.html 

Nenhum comentário: