Acusação dos Estados Unidos de terrorismo no Brasil deve ser firmemente repelida
Classificação de PCC e CV como terroristas é usada por Trump para justificar ingerência no Brasil e avançar sua agenda intervencionista na América Latina
Editorial do 'Vermelho'
O anúncio do governo estadunidense de Donald Trump de que Washington pretende classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas é uma declaração de aberta ingerência em assuntos internos brasileiros. Seria um instrumento para que seus aparatos repressivos passassem a atuar no país.
A pretensão é uma falácia. O terrorismo é classificado como o uso sistemático de violência física ou psicológica contra civis ou instalações com o objetivo de provocar medo, pânico generalizado e instabilidade, com finalidade política ou ideológica. A Carta das Nações Unidas condena o terrorismo como ameaça à paz e à segurança internacionais. As facções criminosas citadas são, sabidamente, estruturas à margem da lei centradas em interesses econômicos nos territórios onde atuam.
A extrema direita brasileira, com Flávio Bolsonaro à frente, se adiantou e, mesmo sem uma declaração oficial da Casa Branca, declarou apoio à pretensão de Washington, repetindo a conduta de traição nacional já demonstrada quando Trump decretou o tarifaço contra o Brasil. O objetivo é usar o caso, desde já, na campanha eleitoral, valendo-se da mentira de que o governo Lula, ao se opor à ingerência estadunidense, seria conivente com as facções criminosas.
Nesse ambiente, chegou ao país Darren Beattie, assessor de Donald Trump encarregado de supervisionar assuntos relacionados ao Brasil, que tentou visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso na Papudinha, em Brasília. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia autorizado a visita e voltou atrás após manifestação do Ministério das Relações Exteriores de que “a visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”.
Não há dúvida de que o Brasil é um país extremamente violento e que o tráfico de drogas e outras modalidades de crime possuem grande poder e afrontam a institucionalidade democrática. Para enfrentar o problema, é preciso trazê-lo para a luz do Estado Democrático de Direito e combatê-lo com o rigor da lei, como fez a Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025 — uma ação conjunta da Receita Federal, do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Federal — que desmantelou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e adulteração de combustíveis, movimentando mais de R$ 46 bilhões por meio de fintechs e fundos de investimento.
Também se insere nessa forma de combate ao chamado crime organizado a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, recentemente aprovada na Câmara dos Deputados, que integra as forças policiais, cria o Sistema Único de Segurança Pública, amplia o financiamento e endurece os instrumentos penais. Mesmo com alterações em relação ao texto original impostas pela direita e pela extrema direita, a proposta reforça medidas para que o Estado possa enfrentar com mais força o núcleo do problema, fechando as portas para movimentações financeiras oriundas do crime e fortalecendo as instituições legalmente constituídas para combater a criminalidade.
O Brasil, assim como outros países, pode se beneficiar de cooperações com os Estados Unidos, mas não deve se submeter à premissa de Trump de impor suas regras com evidentes pretensões neocolonialistas. A receita não é nova, mas ganhou novo formato com a criação da chamada nova doutrina de segurança nacional de Donald Trump, apresentada como retomada da Doutrina Monroe — um dispositivo político utilizado historicamente para justificar intervenções na América Latina sob o pretexto de combate às organizações criminosas.
Esse pretexto, aliás, já foi utilizado em múltiplos ataques a embarcações acusadas de tráfico de drogas no Pacífico e no Caribe, parte da chamada Operação Lança do Sul, resultando em várias mortes. O ataque militar à Venezuela para sequestrar o presidente Nicolás Maduro também integra essa ofensiva.
A ideia foi reforçada por Trump na cúpula Escudo das Américas, realizada em 7 de março, em Miami, nos Estados Unidos, ao anunciar cooperação militar com doze de seus aliados no chamado Hemisfério Ocidental, iniciativa também descrita como Coalizão Anticartéis das Américas. Está claro que haverá pressão para que os demais países da região adotem medidas que aviltam suas Forças Armadas, que deixariam de cumprir o papel de defesa da soberania nacional para se reduzir a forças policiais de combate ao tráfico de drogas, sob tutela dos Estados Unidos.
Com esse propósito, a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou um acordo com o governo dos Estados Unidos que autoriza a presença de militares e integrantes do Departamento de Defesa norte-americano no país. O presidente paraguaio, Santiago Peña, afirmou que o governo Trump considera o Comando Vermelho e o PCC como “ameaças significativas” à segurança regional para justificar o decreto que designa as duas facções criminosas brasileiras como “grupos terroristas”.
Segundo Trump, o núcleo do acordo na cúpula Escudo das Américas “é o compromisso de usar a força militar letal para destruir os sinistros cartéis e redes terroristas”. “De uma vez por todas, nos livraremos deles. Todos os líderes aqui hoje estão unidos pela convicção de que não podemos e nem vamos tolerar mais a ilegalidade em nosso Hemisfério. Necessitamos de sua ajuda. Só precisam dizer onde estão.”
Nada foi dito, contudo, sobre as responsabilidades do próprio governo dos Estados Unidos no controle interno do narcotráfico e do contrabando de armas para o México, país classificado por Trump como “epicentro da violência e dos cartéis” que estariam “alimentando e orquestrando grande parte do derramamento de sangue e do caos em nosso Hemisfério”. Segundo o presidente estadunidense, “os cartéis estão governando o México”.
Trump, que de forma brutal chamou a língua espanhola de “maldita”, citou uma conversa com a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, que recusou a entrada do Exército dos Estados Unidos no país. Ao comentar a fala de Trump, a presidente confirmou que negou o pedido. “Orgulhosamente seguimos dizendo que não, que colaboramos”, afirmou, enfatizando que o combate ao crime cabe às forças do Estado mexicano. “Cremos que há algo que pode ajudar muito os Estados Unidos: que detenha o tráfico de armas ilegais dos Estados Unidos para o México”, disse.
Essa postura reafirma o que os Estados Unidos propõem aos povos da América Latina: um misto de arrogância, autoritarismo e violência, marcado pela total falta de respeito, tirando o véu da hipocrisia com que antes buscavam maquiar suas intenções sob palavras como democracia, direitos humanos e liberdade. Também fazem parte dessa agenda a repressão à imigração e o combate ao que a Casa Branca chama de “interferência estrangeira em nosso Hemisfério”, em referência à presença da China e da Rússia na região.
A pretensão de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas, numa descabida tentativa de imputar natureza política a essas organizações, arrasta o Brasil para o centro da política intervencionista de Trump. Além de dificultar o discernimento popular sobre qual deve ser a política de combate ao crime organizado, submete as ações do governo à retórica imperialista e avilta o papel soberano das forças e instituições de segurança do Brasil.
É necessária uma ampla mobilização para desmascarar a política de Trump e de seus aliados — verdadeiros traidores da pátria — e construir uma coesão nacional em defesa da soberania do país. Também é fundamental a união das instituições e dos poderes da República para repelir essa grave ameaça.
Multilateralismo aos frangalhos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/diplomacia-em-segundo-plano.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário