Esquerda precisa combinar razão e sentimento na guerra cultural das eleições 2026
Esquerda precisa se mobilizar contra trabalho sistemático e internacional da extema-direita nas redes sociais com plataforma conservadora, reacionária e negacionista
Aldo Arantes/Portal Grabois
A luta política atual ocorre sob novas condições. A introdução de uma plataforma conservadora, reacionária e negacionista, que utiliza as redes sociais apelando mais ao sentimento, ao ódio, à violência e à fé do que à razão, colocou o debate em um novo patamar. Essas ideias conservadoras vêm se consolidando há um tempo razoável, desde a Sociedade de Mont Pèlerin em 1947 na Suíça, com Friedrich Hayek, que visava defender o liberalismo, o livre mercado e combater a intervenção do Estado na economia. Ele já levantava a importância da luta de ideias, defendendo que a transformação da sociedade deveria ocorrer prioritariamente entre professores, intelectuais e es tudantes, para só depois se voltar para os políticos.
Isso teve consequências práticas significativas. Essa ofensiva ganhou corpo com o conservadorismo norte-americano na década de 1950, visando combater a social-democracia do New Deal e a ameaça do “comunismo internacional”. A CIA, por exemplo, identificou que o crescimento das esquerdas na América Latina ocorria nas universidades e criou programas específicos para conquistar a juventude e levar o pensamento conservador para esses ambientes. Com muito dinheiro, foram organizados pelas forças da extrema direita os chamados “think tanks” para elaborar e divulgar o pensamento de defesa do mercado e de negação das ideias progressistas.
Trata-se de um trabalho sistemático e internacional de negação da verdade, da política, dos partidos e da democracia. Com a consolidação do neoliberalismo e a crise do socialismo, as esquerdas entraram em uma defensiva estratégica, agravada pelo surgimento das redes sociais e sua apropriação pela extrema-direita. A guerra cultural é um fenômeno mais recente, que incorpora essa plataforma conservadora de forte influência norte-americana, onde a religião desempenha um papel central. Um dos objetivos da extrema-direita é deslocar o eixo dos debates: enquanto os setores progressistas e democráticos focam na razão e na estrutura econômico-social, a extrema direita enfatiza questões morais com o discurso de “família, Deus e propriedade”.
Para isso, contam com o apoio da extrema direita internacional, sobretudo do governo de Donald Trump nos EUA, além do apoio dos grandes empresários, da grande mídia e da maioria dos evangélicos e católicos pentecostais. Eles utilizam fake news, relativizam a verdade e defendem uma liberdade de expressão absoluta para espalhar mentiras. São negacionistas que negam a ciência e a história.
No Brasil, essa corrente negacionista teve grande impulso no governo de Jair Bolsonaro e foi alimentada pela intensa atividade de Olavo de Carvalho, que subestimamos por muito tempo. Essa regressão se expressa na negação do pensamento crítico, no ataque ao marxismo, à universidade pública e ao legado de Paulo Freire. O governo Bolsonaro contribuiu com esse cenário ao extinguir o Ministério da Cultura e cortar recursos da área. Politicamente, essa regressão atingiu seu ápice com os ataques ao Supremo Tribunal Federal, o questionamento das urnas e o estímulo à tentativa golpista de 2022.
Historicamente, o Brasil teve processos de politização importantes, como o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC – UNE), o Movimento de Cultura Popular (MCP) e o método Paulo Freire no governo de João Goulart. No entanto, houve uma subestimação da politização da sociedade durante os governos do PT, o que nos deixou vulneráveis.
Recentemente, começamos a perceber que a luta ideológica hoje se dá mais pelo sentimento do que pela razão. Precisamos aprender a combinar ambos, encontrando palavras de ordem que toquem o povo, como fizemos ao reverter a narrativa da “PEC da Blindagem” a partir da mobilização popular contra essa tentativa de anistia aos envolvidos na tentativa de golpe em 2022 ou ao caracterizar os bolsonaristas como traidores da pátria, por defenderem a imposição de tarifas contra o Brasil pelo governo Trump.
Precisamos de um plano de luta de ideias, adaptado a cada estado, que aborde temas centrais:
- Combate à escala 6×1:mostrar que quem se opõe é contra o trabalhador.
- Defesa do Estado e dos serviços públicos: defender o SUS e as universidades contra a privatização.
- Combate aos juros altos: denunciar como isso favorece apenas os banqueiros.
- Questão climática:expor o desmonte ambiental do governo anterior.
- Enfrentamento ao feminicídio e ao machismo:Combater a violência da extrema-direita.
- Desmonte da falsa narrativa de corrupção:Apontar a direita como a grande corruptora (caso das joias).
- Segurança pública:Focar na garantia da população sem discriminar pobres e negros.
- Defesa das instituições:Apoiar o STF contra as agressões golpistas.
No processo eleitoral, devemos alertar a sociedade para analisar o perfil de cada candidato e sua posição sobre a tortura e o golpismo. Mas não basta reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, precisamos de um parlamento mais avançado para realizar reformas estruturais. Devemos defender a reforma política, a reforma tributária, a democratização da mídia e a regulamentação das redes sociais. Colocar essas reformas em pauta desmascara o falso discurso antissistema da direita. Precisamos politizar a campanha, unindo razão e sentimento, para eleger uma maioria que permita ao governo avançar e não ficar amarrado, evitando que a sociedade acabe culpando o próprio governo pela paralisia institucional.
A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html

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